
Vivo o drama diário de quem tem um horário a cumprir. Se chego depois dos 15 minutos de tolerância, tenho que fazer um pequeno ritual, a que muitos apelidam de “O beija mão...” e que consiste em arranjar uma desculpa plausível ao “chefe”, apresentar-lhe um relatório resumido daquela nossa pontual incompetência, apaparicá-lo, se for necessário, beijar-lhe o cu. Não sei se o gajo está ciente disso mas, naturalmente que 90% das desculpas que damos por qualquer lapso temporal, são tangas inventadas durante aquele período traumático, durante aquela fase em que já só pensamos “
e agora caraças ?!”, em que o chegar atrasado é já um facto irreversível. É que quando saímos de casa, por mais atrasados que estejamos, pensamos sempre que chegaremos a tempo, que haverá uma conjugação de factores cósmicos e paranormais que farão com que todos os sinais estejam verdes á nossa passagem, que não hajam lesmas pelo caminho, que não haverá bicha na ponte, e outras ausências ou ocorrências de outros factores que influenciam a nossa performance a caminho do trabalho.
No caso concreto de hoje, não aconteceu aquilo que geralmente acontece entre as 7h30 e as 8h00. Hoje não parecia um maluco a fazer ultrapassagens a torto e a direito apenas para ganhar uns lugarzinhos a mais lá à frente na bicha. E quando fui ao “beija mão” (nunca lhe beijei o cu, é com muito orgulho que o digo), mais atrasado que nunca, é óbvio que não poderia dizer a verdade: Que tinha estado acordado até de madrugada porque estivera a ver o episódio "End of Eternity" do “Space 1999” em DVD, e depois, o “Cubo” na RTP2, e que, apenas por descargo de consciência, quando tinha mudado para a SIC, estava um gajo a sodomizar (parecia) uma preta (ou negra se preferirem), facto que me tirou imediatamente o pouco sono que tinha e me fez automaticamente prestar atenção à estória que, confesso, tive dificuldade em perceber. O gajo, o chefe, nunca iria compreender o porquê das minhas olheiras e barba por fazer! E lá inventei uma tanga qualquer, a qual recebeu a benção com mais benevolência que o costume, sem direito a rebocada e tudo. Interrogo-me se o gajo estará realmente ciente, de que mesmo os atrasos resultantes de noticiadas catástrofes naturais, ou monumentais engarrafamentos ou choques em cadeia, são sempre ficcionados pelas vítimas, ninguém resiste a adicionar uns minutos de pura ficção para tornar a desculpa ainda mais plausível. Talvez, aquela benevolência com que aceitou a minha desculpa, tenha sido influenciada pelo meu estado de espírito de hoje, pela descontração involuntária que demonstrei, a grande eficácia com que fiz a exposição da tanga. Resultado decerto duma nova perspectiva de “vida a caminho do trabalho” que me fizeram ver ao início do dia, da viagem: “
Vai com cuidado, olha que mais vale beijar a mão ao chefe que o cu a Deus.”