
O homem procurava flores por toda a parte e com o passar do tempo perdera a fome e parara de balir. Na realidade havia um silêncio sepulcral por todo o seu aparelho digestivo. Resolveu que apanharia as flores não para comer, antes para as oferecer à mulher, um sinal do seu amor. Imaginava-a sentada à sua espera e isso excitava-o. Felizmente viu ao longe um lindo canteiro de flores de todas as cores e feitios. Ele sempre preferira flores com mau feito e daí os cravos serem a sua preferência. Reparou no entanto que o canteiro era guardado por dois crocodilos fêmeas que estavam entretidos a comer o poeta que escrevera o poema de olhos fechados. Aproveitando que comiam deliciadas uma estranha genitália, o homem esgueirou-se e apanhou para dentro do bolso das calças o maior número possível de flores. Mas subitamente picou-se num espinho de rosa e gritou f*da-se, o que provocou uma reacção estranha nos crocodilos. Um deles começou a transformar-se num crocodilo macho e o outro engasgou-se. Surgiu um terceiro, que seria hermafrodita, com uma tesoura numa das mãos e uma palmada nas costas na outra. O que se passou a seguir o homem não sabe porque entretanto apanhara boleia duma antiga combatente da grande guerra dos sexos. Durante o caminho contou-lhe como tinha sobrevivido ficando sempre por cima, as camas que tinha conhecido, as peças de roupa que tivera que deixar para trás... O homem parecia conhecer aquele nariz de algum lado, assim como o sabor daquele perfume.... Mas, com a conversa, tinha adormecido e sonhado que estava a chegar à esplanada onde a mulher o esperava fielmente sentada de cócoras. Subitamente o homem acordou e realmente tinham chegado sim senhor. O mendigo que pedia boleia agarrou-o por um braço e puxou-o pelo canudo do depósito da gasolina pelo que as flores ficaram num estado pior que ele. O carro voltou para trás pelo mesmo caminho, agora com os dois ocupantes que felizes cantavam uma musica chamada piloto automático que há muitos anos era utilizada como escape livre.
O homem pegou nas flores e dirigiu-se até à esplanada onde havia um fogo de artificio que formava as palavras esplanada deserta. Parecia que tudo se tinha evaporado, restando apenas as mesas, as cadeiras, e umas cascas de nós que pareciam ter ali sido estrategicamente deixadas ao acaso. Sentiu vontade de ir à casa de banho mas não viu a porta dos homens. Apercebeu-se que não existiam nem portas nem paredes, nem pneus de automóvel ou postes de electricidade. Chamou pela mulher mas como não sabia o seu nome ficou calado. Então ao longe começou a ouvir-se um assobio misturado com o barulho dum motor a diesel que parecia afastar-se cada vez mais. Passou as mãos pela cabeça e rezou para que começasse a chover tónico capilar. Atirou com as flores para dentro das goelas dum porco com peste suína que já ali estava há 5 minutos de boca aberta e fez uma derradeira tentativa para fazer estalar as norças dos dedos. Talvez aquele barulho fizesse abafar o som do assobio que entretanto se tinha transformado numa grande e invisível dor de cabeça. Como não conseguia, montou-se em cima do porco e premiu o botão start. Numa arriscada manobra de marcha atrás, viu-se cara a cara com o poeta que escrevia poemas com os olhos fechados e que entretanto se tinha transformado num estivador sem pernas nem genitália mas de olhos semi-abertos. O porco, reconhecendo-o, vomitou de imediato uma jarra de flores e desfez-se em elogios e foi preciso chamar a empregada da limpeza para apanhar aquilo tudo para dentro dum balde amarelo em forma de alicate. O estivador carregava ás costas um best-seller que o homem se prontificou a ajudar a rasgar. E assim o fizeram até não terem mais forças, nem sequer para pensar no dia de amanhã.
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