“Hero”
Ao contrário desta minha sazonal gripe que me força a escrever e a conectar-me de casa, não é normal constipar-me com filmes, engripar-me com quaisquer dramas passionais, emocionar-me, por mais dramáticas que sejam as histórias que polvilham o imaginário e arquitectam os protótipos dos "sentimentos puros". A minha resistência a Shakespeare de algum modo sempre me envergonhou, acusando-me de falta de sensibilidade, de ausência de romantismo.... Mas sempre me pareceu a mim que em todas aquelas histórias passionais havia sempre alguma coisa menos impoluta nas relações, nas personagens. Muitas histórias de amor acabavam mal porque infligiam sofrimento atroz e insuportável a terceiros, cujos dramas também não deixavam de inspirar em mim compaixão e compreensão.
Temos tentações inatas para construir becos sem saída mas também a habilidade de estarmos sempre alerta e sabermos construir pelo menos uma saída de emergência. E essas vítimas dos amores impossíveis, proibidos ou condenados, sob a desculpa da loucura do amor e da paixão, sempre ignoraram a eventualidade da coisa dar para o torto.
Ou seja, não havia personagem alguma imaculadamente isenta de algum pecadilho ou defeito de fabrico, ainda que impreceptível, mas sempre oriundo desse lugar lúgubre que é a natureza humana. Ora isso sempre activou em mim um processo de desmistificação, um exercício inconsciente algo cruel para com o aparentemente sublime. Em todas as histórias, inventava interiormente alguma desculpa para a tragédia que surgia afinal como corolário lógico, “estavam mesmo a pedi-las!”. Acreditava que cada final, por mais infeliz que fosse, era afinal merecido, espécie de justiça divina que o agiota contador da história secretamente aplicava para, causa primeira, choque e sofrimento maior de quem lê, eficácia portanto, causa segunda e directamente relacionada com a primeira, poder com isso lucrar... As histórias de final feliz levava-as o vento ou prendia-as a inveja. Temos muito mais tendência para ficar a remoer uma injustiça e consolarmo-nos na desgraça alheia.
Shakesepeare de lado, histórias de amor do cinema moderno à parte, (“Paris Texas” ?! uma comédia!), dramalhões de novela à distancia, o drama bem português, logo, diversamente ficcionado, historiado e especulado, de “
Pedro e Inês”, sempre suscitou em mim uma anormal consideração, pelo menos na sua versão mais corrente e romântica. Aquela coisa de se arrancarem os corações pelas costas, aqueles beijos em cadáveres em decomposição, tudo aquilo dava um excelente filme gore! Mas além disso, aquele drama, história de amor casto e cristalino, assim relatada, sempre me tocou deixando-me algo desconfortável perante a injustiça, a pureza dos personagens vítimas, em claro contraste com as personagens carrascas das nossas vidas, e a vileza dos terceiros da história, movidos apenas por um paranóico e deplorável medo de perder o poder. Ora isto fazia automaticamente de mim um gajo afinal normal e não um monstro insensível como pintava este pintor de auto-retratos. Havia aqui algures uma réstea de sentimento e solidariedade pelo drama passional, algures uma lágrimazita espreitava ainda que logo de seguida se recolhesse para o sítio de onde viera. Pedro e Inês, bela e inspiradora história de amor, o romance ideal, sem traições e com sacrifícios, e lá está, um final infeliz, senão provavelmente nunca teria chegado aos nossos ouvidos como milhentas outras histórias que as haverá, de reis e rainhas, filhos e primos, com paixonetas secretas, que amores tão ou mais sublimes e intensos viveram e a sacrifícios também obrigados foram sujeitos, mas porque tiveram desfecho feliz “
olha acho que já não sinto nada por ti, Que coincidência, eu também!”, nem à história passaram.
Recentemente, ouvi na Voxx, um brasileiro que em entrevista a um programa da especialidade (quartas, 21-22) dizia-se percorrer o mundo, e agora em Portugal, estudioso do homossexualismo neste país pai durante a idade média, adiantou números de perseguidos, torturados e condenados à morte pela inquisição, acusados de tais práticas desviantes, e lançou à baila o nome dum rei português reconhecido sodomita (lamento não fixei o nome) e ainda o nome de Pedro, o da Inês. Teria sido afinal bissexual o então príncipe, ao que parece, antes, durante e após Inês. Ora não sei como, expliquem-me, porque apesar desta minha tolerância pelas diversas inclinações sexuais, formas diferentes de amar ou saciar o desejo sexual, fenómenos cujas explicações só a cada um dizem respeito, se não vejo naquela história senão outra mácula, como é possível, após ter tomado conhecimento desta novidade histórica, pequeno detalhe, como é possível que todo o significado, todo o esmagador poder dramático da história de Pedro e Inês e a revolta que inspira, se tenha desvanecido quase por completo ? Hoje apetecia-me dizer que tomara não ter sabido aquele pormenor escondido da vida do, então não duvido, pervertido Pedro, tomara que ele tivesse sido fiel e heterossexual, coisa rara eu sei, mas mesmo por isso, contra a banalização do humanamente vulgar, tomara que continuasse a existir dentro de mim aquele respeito pela arrebatadora história de Pedro e Inês. É que por mais corações despedaçados pelo destino ou arrancados pelas costas, por mais sangue e lágrimas que o dramalhão protagonizado por um bissexual meta, não terá a mesma cor e tempero duma história de amor heterossexual, sem adultério (Ou com adultério também podia ser, veja-se “a insustentável leveza do ser”, o quão de traição não há por ali, o quão apaixonante é a história, o quão com ela se identificou toda uma geração e outras inspira.)
E com isto, pretendia eu falar de “Hero”, um filme chinês produzido por americanos, que, atrevo-me a dizer, tem a mais bela história de amor de sempre contada pelo cinema. Não é normal, mas já vi o filme 4 vezes em quinze dias, e das 4 vezes emocionei-me, descontrolei-me.
Neste momento choro dos olhos, mas é da gripe.