
Uma menina está a brincar à malha sozinha e ninguém está a reparar nela. Entretanto ouve um gritinho e vira-se, pensando que seja uma das suas amigas imaginárias querendo desconcentrá-la. Era uma outra menina que tinha acabado de pisar um gafanhoto daqueles grandes e castanhos. A menina continuou com o seu jogo da malha, ao pé cochinho, baixando-se para apanhar a pedrita que momentos antes tinha atirado para a frente. Descobre que afinal não se trata duma pedrita coisa nenhuma, antes um caroço de damasco. Abana-o e repara que não faz toc-toc como faz a caixa de anti-depressivos que a mãe tem secretamente escondida na cafeteira eléctrica. A outra menina, que entretanto se tinha entretido a observar as formigas que agora devoravam o que restava do gafanhoto espezinhado e que ainda esperneava, aproxima-se e começa a apagar, maldosamente, os traços no chão do jogo da malha, enquanto cantarola uma musica baseada em factos verídicos. Era mesmo maldosamente porque sempre que fazia algo por maldade, a menina punha a língua de fora e tentava com a mesma chegar a uma verruga com a forma dum paralelipedo, verruga essa bem saliente e que tinha na face mesmo ao lado do nariz, assim como quem vai na direcção do olho direito. A menina do caroço de damasco na mão pergunta-lhe, olha lá, achas certo o que estás a fazer ? E a outra responde, enquanto não encontrar o caroço de damasco que perdi ontem quando estava entretida a fazer uma lobotomia a uma borboleta, mais ninguém que esteja perto de mim, num raio de 10 metros, terá sossego na vida!! A menina do caroço de damasco na mão, discretamente faz muita força para apertar o caroço e assim o esconder. Mas a outra, que tinha ténis novos e não via a hora de os saber calçar sozinha, desconfiou e disse olha lá porque é que continuas ao pé cochinho, se já te apaguei os riscos todos do chão ? És tola ou quê ? A outra ficou tão corada com aquela observação que disse, a minha mãe está a chamar-me, tenho que ir antes que o meu pai lhe grite para gritar mais baixo. A gritaria era quase infernal mas não era diabólica. Era assim, Oh Mariiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiia, Oh Mariiiiiiiiiiiiiiiiiiiiia. Nisto disse a menina da verruga, de facto, só me podes estar a esconder alguma coisa porque a Maria aqui sou eu e mais ninguem. Nisto mostrou à outra uma folha de papel com uma redacção da escola com o titulo “O meu nome é Maria graças a Deus”, e continuou, palpita-me que deves saber onde está o meu querido caroço. A menina do caroço de damasco na mão passou de corada a branco natureza porque entretanto a outra começou a pintá-la à trincha com uma tinta plástica hidrosolúvel. Antes de levar uma pincelada na boca, ainda teve tempo de dizer, não era melhor ires para casa antes que gastes a tinta toda aos homens na Junta Autónoma das Estr... (?) Começa então a chover, e no chão forma-se um imenso lago branco, pois a terra, saturada com as chuvas daquele mês, não absorve a água da lata e a tinta da chuva. Subitamente no local onde estão as meninas, pára de chover. Uma grua faz passar por cima delas um espelho gigante destinado ao tecto do quarto anão duma vizinha que dá nas vistas, que vive sozinha raramente no 18º direito. As meninas olham e observam as suas imagens reflectidas lá em cima, duas pequenas faces no meio do branco natureza, faces que iam no entanto ficando cada vez maiores, cada vez maiores, cada vez maiores, cada vez maiores, cada vez maiores... Ficam tão fascinadas com o que presenciam, que começam de imediato a correr da li para fora. Na atrapalhação da fuga, o caroço de damasco cai das mãos da menina que o tinha, logo seguido do enorme espelho que, no entanto, era à prova de bala, logo, no chão, apenas se partiu em quatro partes. Passado mais ano menos ano, depois de todo aquele bairro ter sido demolido e o entulho sido traficado para um país que ninguém desconfia, uma das meninas, agora mulher, é lascivamente acariciada na sua borbulha, agora em forma de cone, naquele mesmo sítio, debaixo duma árvore, quando um damasco lhe cai em cima da cabeça e se abre em quatro partes. Do seu interior salta o caroço para as suas mãos e diz, não me reconheces ? sou o teu caroço caraças! olha, o meu caroço, como terá vindo aqui parar ? Não olhes para mim, diz a outra com um caroço de nêspera escondido na mão.