
“Há milhares de anos os gatos eram adorados como deuses. Nunca se esqueceram disso.”
As coisas podem tornar-se tão fascinantes tanto mais quanto antes nunca tínhamos reparado nelas. O caso dos gatos é paradigmático. Toda esta vida foi mais com desconfiança que respeito que olhei sempre de lado para os gatos. Havia neles um misto de medo, aquela miufa ridícula e histérica que os gatos parecem ter, e uma arrogância no miar aliada a uma indisciplina provocadora que despoletavam em mim um desejo confortável e incontrolavel de fazer-lhes pontaria com a fisga armada, era eu petiz.
“Os cães vêm quando chamas por eles. Os gatos tomam nota do que dizes e, eventualmente, voltarão ao assunto.” Mary Bly
Apesar disso o sentimento acompanhou-me, confesso, mesmo depois de criança, já adulto, mesmo depois de ter adquirido em Córdoba uma fisga árabe. Até um dia, um dia de partida e de regresso, daqueles dias em que só se deve levar ou trazer, como era o caso, o que se tinha levado, o essencial. Não um, mas dois gatos escolheram-me e fizeram comigo 3000 quilómetros.
"Nos olhos de um gato podes observar o tempo, na verdade, a eternidade!” Charles Baudelaire
A distancia não significa nada. Os sentimentos podem desvanecer-se ou exaltarem-se em poucos metros. Mas quando se viaja com determinado tipo de bagagem extra, cada quilometro conta. Em cada viagem deixamos sempre algo para trás, nem sempre o irremediável, muitas vezes o inconfessável. Mas nesta viagem, o que ficou para trás foi aquele sentimento, o da fisga, o da criança cruelzinha para com os gatos.
“Deus fez o gato para que o homem pudesse ter o privilégio de acariciar o leão.” Fernand Mery
Os gatos sabem melhor que ninguém que crueldade pode haver numa criança. Os meus aprenderam depressa essa lição. Uma pessoa amiga levou uma vez lá a casa o filho, criança que mal sabia gatinhar mas que já tinha força suficiente para agarrar pelos rabo e não mais largar os meus gatos, na altura jovens de 5 ou 6 meses.
“Mesmo o mais pequeno dos gatos é uma obra de arte”. Leonardo da Vinci
Entre o constrangimento de controlar a vontade de dar dois tabefes na criancinha e a passividade dos paizinhos indiferentes, lá assisti de pés e mãos atadas. A criancinha lá se divertiu e saiu ilesa do acontecimento.
“O gato pode servir-nos de modelo em questões de higiene e como criar filhos”. Arthur Marx
Aquele pequeno episódio fez-me lembrar aqueles fulanos que na rua parecem pessoas vulgares e na porrada se for preciso comportam-se dessa maneira apesar do cinturão preto que trazem por debaixo das calças. Não querem fazer uso das suas capacidades pois imediatamente ficariam numa situação de superioridade em relação á outra pessoa; ou seja, seriam capazes de partir os cornos á outra pessoa ou simplesmente paraliza-la de medo com um simples grito e isso é algo que é muito bom saber guardar só para si em alturas de aperto, manter o sangue frio e o sorriso displicente. Coisas que muitas vezes acabam por ser dissuadoras do confronto físico porque se cria no oponente uma sensação de ‘aqui há gato’ perturbadora.
“Há duas maneira de escapar às misérias da vida: Música e gatos.” Albert Schweizer
Assim se comportaram os meus gatos naquele dia. Por debaixo daquele miarzinho, daqueles olhinhos grandes, redondos e brilhantes, daquele pelo lustroso, aqueles gatinhos estavam conscientes que eram autênticas feras, possuidores de garras afiadissimas capazes de certamente estraçalhar a criancinha, na altura pouco maior que um coelho anão.
“Quem consegue acreditar que não há alma por detrás daqueles olhos luminosos.” Theophile Gautier
Eles lá a aturaram, com a tal calma e sangue frio dos autêntico cinturões negros vestidos á paisana, mas juraram para nunca mais. Cada vez que se aproxima alguém deles com menos de meio metro, é vê-los porem-se a milhas!
“Porquê procurar consolo no Islão, Budismo ou Catolicismo – um gato dá-te o mesmo, e ainda te aquece o colo”. Charles Darwin