Teorias da felicidade – O Ritmo mediático
Um dia destes pus-me a fazer contas à média. Quanto tempo em média têm-me durado o telemóvel, o computador, o relógio, o carro, a casa, o emprego... A conclusão que se chega é que não há nada que hoje em dia seja para toda a vida, assim como o salário não é para todo o mês. Mas isto está mal. As coisas se calhar deveriam ser para toda a vida ou então que durassem pelo menos até que acabássemos de pagar as prestações. Se nós somos para toda a vida, porque não ter um gira-discos para toda a vida ?! É claro que aqui entra a natureza de cada um e claro, o desgaste do material. Há gajos que como eu não suportam usar a mesma camisa em média mais que dois dias. Quem estivesse ao pé de mim também não suportaria. Mas falemos do essencial, ou seja, bens de consumo, que é para isso que cá estamos, consumir logo, existir. No meu caso, não suporto andar com o mesmo carro mais de 7 ou 8 anos. No entanto com o telemóvel a média baixa para 2 anos. Com o computador vai até aos 9 anos (escandaloso!). O relógio 2 ou 3, emprego vou com 10, a aparelhagem hi-fi irá nos 8... Há aqui uma falta de coerência assustadora e há um ritmo 'mediatico' (não encontro outra palavra, digamos que será o mediatismo do consumo) que tenho que descobrir. Não sei mesmo até que ponto a felicidade de cada um de nós não residirá em encontrar esta média. Por exemplo, o que se propõe seria, um gajo que gostasse de mudar de telemóvel de 6 em 6 meses, que fizesse o mesmo com todos os restantes bens de consumo. Carro novo de 6 em 6 meses, computador, câmara digital, relógio, até mulher, porque não?... Tudo, sem que fosse necessário ser tudo na mesma altura, mas apenas que se respeitasse escrupulosamente a média: 6 meses. Se era essa média, a sua natureza, que fosse, e que não se deixasse ludibriar com a conversa de publicitários, vendedores, padres, políticos e outros apóstolos do consumismo degradante. Certamente seria feliz, encontraria de certo uma paz e tranquilidade interior que justificaria qualquer dispêndio extra ou um alargamento no plafond do cartão de crédito. Feliz, como um primo meu foi. Ele tinha um BMW daqueles antigos (está-se a ver qual é o modelo não está ?), tinha-o desde que o conheço, ou seja há menos de 32 anos. Tinha o mesmo relógio, a mesma casa, a mesma mulher, a mesma filha... Todos estes gloriosos anos. Ele tinha encontrado o 'seu segredo' da felicidade ao descobrir o seu 'ritmo mediático'. Ele era feliz com o seu ritmo 'lifetime', tinha uma coerência nas suas médias e um equilíbrio existencial de fazer inveja a qualquer discípulo de Buda e aos vizinhos, nem se fala. Aqui há uns meses, não sei que carga de água lhe passou pela cabeça, decidiu vender o BM e pior, decidiu comprar um carro novo qualquer, daqueles tipo 'pequeno qualquer'. Está-se bem a ver o que aconteceu. As médias ficaram completamente desestabilizadas. E sabe-se lá o que atrás do carro novo veio pois que são tantas as tentações que passam pela cabeça das pessoas equilibradas... Quiçá televisão de écran plano, telemóvel com toques polifónicos, sabe-se lá... E perante vida tão desequilibrada, que aflição não sentirão a esta hora as primas, mulher e filha, com receios mais que justificados de serem substituídas por umas novas e fresquinhas!... E se me perguntarem se o homem está feliz, nem pensar!! É vê-lo a lavar o seu carrinho nas maquinas de lavar os carros, ar cabisbaixo, de mangueira de alta pressão na mão, entristecido a ver a espuma a desfazer-se no tablier do carro pequeno, quando antigamente era vê-lo puxar orgulhosamente o lustro ao BM, que não havia ali grama de pó que pousa-se mais de 10 minutos em cima da chapa mais bem polida da cidade.
Ou seja, para meu bem e para bem dos que me rodeiam, estou decidido a descobrir o meu ‘ritmo mediático’ pois quem sabe se as médias não serão a resposta a tantas questões, como por exemplo porque tenho o saldo da minha conta negativo...