Ídolos do telecomando
Madonna disse uma vez, e muito bem, “
Ohhh, sim, sim!”!... Desculpem, cassete errada, agora sim, “
A televisão só tem utilidade se for para aparecermos nela.” Foi das coisas mais inteligentes que ouvi hoje, logo a seguir ao “hoje pago eu” do meu colega. De facto, se não aparecemos na televisão, para quê estar a perder tempo a ver outros aparecer ? Talvez por isso considere de entre todos, “Ídolos” o programa mais estúpido, logo, mais didáctico, o melhor programa da televisão portuguesa.
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Sucedâneo um pouco mais soft do velho formato da Private, os famosos castings (
espécie de “porno-idolos”), o “Ídolos” apela a um mesmo instinto básico comum a qualquer telespectador, o “voyeurismo”. Se no primeiro espreitava-se o basqueiro das mais ou menos atrapalhadas e inexperientes candidatas despidas, neste, a mesma matéria prima surge vestida, apostada em desviar a atenção para outros dotes. Malta
qualquer, que sonha pelo milagre da idolatria instantânea (à carinha bonita, basta juntar um bom corpinho, abanar e já está).
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Com a benção do júri, assustador, experiente, com muito currículo “graças a deus”, isto numa clara alusão aos machões hiper-dotados dos castings da Private que desfloram a ansiedade das aspirantes a porno-estrelas. São os júris, quem se encarregarão de decidir quem e o que é que tele-viciado irá depois consumir. Estão mandatados por ele, sabem o que ele gosta: “
Epá, o aspecto vale p’rai 80%! E tu... Por mim podes sair!”. E não é que é mesmo 80%! Os gajos lá sabem.
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O programa mostra-nos o real valor da televisão, o valor honesto e verdadeiro: estamos descaradamente a ver outros a dar barraca através dum aparelho inventado afinal para esse efeito. E dá-nos um gozo do caraças, pondo-nos num embevecido estado semi-vegetativo, de total ausência de pensamento construtivo ou criativo. Tenho a certeza que era essa a intenção do inventor da televisão, criar uma alternativa sólida à vivência pelo cidadão da não menos enfadonha e estúpida política dos partidos. Infelizmente um dia alguém adulterou tudo, julgou que seria um óptimo meio de comunicação, confundindo claramente vegetação com comunicação.
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Dar barraca é saudável e pode ser divertido principalmente se não formos nós a dá-la. Toda a gente já deu barraca para mais ou menos audiência, mas fazer da barraca tempo da antena é que é mesmo bonito.
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A televisão tem sido culturalmente sobrevalorizada ao longo de muitos anos, subvalorizando-se os reais efeitos nefastos que a mesma veio trazer aos terráqueos (terráqueos, faz de conta que sou um observador de outro planeta! Há um herói da Marvel assim. Já não me lembro o nome.). Muitos programas ditos culturais ou de divulgação cientifica, de animaizinhos, não anulam a terrível verdade: ao longo destes encaixotados anos temos sido e continuaremos a ser atrofiados pelo poder esmagador das imagens, intoxicados com publicidade, esvaziados pelas estórias dos argumentistas da Globo, cegos com as interpretações da Sofia Alves, extinguindo-se progressivamente a nossa capacidade de raciocínio, de vivência, e, principalmente, a imaginação, o tal poder imaginativo que só a palavra escrita lida ou ouvida estimula, ao contrário da imagem animada, onde os conteúdos são-nos dados visualmente, de bandeja.
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Imaginemos um mundo sem televisão. O efeito da tragédia do 11 de Setembro (para todos os efeitos, a referência contemporânea mais trágica) não seria mais sentido se apenas tivéssemos tido acesso aos relatos de jornalistas e testemunhas ? As nossas cabecinhas não dariam mais voltas e voltas, tentando imaginar, fazendo a reconstrução mental dos acontecimentos, tornando assim mais intenso o sentimento daquele drama bem real ? Estou convicto que sim. Será mais perturbador imaginar o que devem ter sentido as pessoas no interior dos aviões. O embate dos aviões em sim mesmo, as pessoas a saltar desesperadas, imagens repetidas à exaustão, adquiriram uma dimensão quase secundária, quase ficcional, quase espectacular, aproximando-nos o acontecimento dos olhos, mas afastando-o do, vou dizer, coração. Mas se por acaso tivessem sido transmitidas imagens do interior de um avião, minutos, segundos antes do embate, se tivéssemos tido acesso televisionado às imagens, acredito que essa perturbação, esse sentir doloroso seria atenuado. O que estou a querer dizer, é que a televisão pode ter um efeito pernicioso sobre a nossa capacidade de sentir, de sentir compaixão. Atenua e mascara o que é doloroso, distancia-nos com uma confortável segurança, do drama real. Digo que existe uma diferença muito mais ampla e perigosa entre o escrito “in loco” e o transmitido “in videns”.
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Faz parte do desenvolvimento normal dum indivíduo, mais ou menos regularmente, voluntária ou involuntariamente, testemunhar a estupidez. É saudável. O confronto com tão enraizado veneno pode servir, mais que não seja, para pôr ali os olhos e não ser-se estúpido. Para quem tenta viver o mais afastado possível da estupidez, a televisão pode ser o único elo de ligação com o fenómeno. Assim como um pai deve corresponder ao modelo de virtudes positivas para o filho, a televisão deve ser o modelo inverso, um espelho do ridículo e de maus exemplos que em circunstancia alguma devem ser repetidos na vida real. É para isso que a televisão serve. Daí, quanto mais estúpido for o programa, melhor, mais eficaz. Mas isto, ver televisão e chamo a ver televisão, ver novelas, reality shows, telejornais, publicidade, bigbroderes e ídolos, esta terapia só será recomendável cinco, no máximo 10 minutos diários, posologia esta que deveria ser seguida à risca. Meia hora para casos mais graves. Existem casos em que mestres em yoga-tv, conseguem passar um mês sem tocar num telecomando.
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Em caso de tele-depêndencia, iniciar-se-ia um programa de desmame, reduzindo diariamente 1 minuto (mais seria traumático para o tele-imbecil doente). Acima de tudo, o doente deveria estar consciente do poderoso efeito hipnótico que as imagens têm sobre ele quando, sentado num sofá, após ter pousado o jornal, portanto, intelectualmente inerte. Não deixar-se seduzir pelo telecomando que, como todas as coisas ridículas do mundo, funciona a pilhas. Á falta do melhor do mundo, á falta da visão maravilhosa de uns sapatos de salto alto esquecidos no meio da sala, ter um animal de estimação pode ser uma excelente alternativa ao telecomando, acariciando-se-lhe o pêlo, escovando-o, dando-lhe pedacinhos de fiambre barato. Há pessoas tão tele-perturbadas que já foram vistas a passear de trela telecomandos universais pela Praça da Alegria. Está claro de se ver que o porteiro da maxime vedou-lhes a entrada!
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Qualquer pessoa que não seja crítico de televisão e sinta necessidade de estar frente ao televisor mais que o estritamente necessário ao controlo do seu processo estupidológico, deve rapidamente consultar ajuda médica especializada, o seu gestor de conta, visitar a biblioteca mais próxima, contactar uma empresa de ocupação de tempos livres ou então ir à cozinha comer donuts com leite fresco. Se nada disto resultar, experimente a receita mais eficaz: desligue a televisão da tomada de electricidade.