terça-feira, dezembro 30, 2003

Para acabar de vez com o Natal

Se encontrarem por aí o meu pai digam-lhe onde estou.O homem de quem mais se fala todos os anos por estas alturas, não nasceu no dia 25 de Dezembro coisa nenhuma. A Sissy Spacek é que nasceu naquele dia, ela e mais milhões de anónimas pessoas em todo o mundo. O mais provável mês para o nascimento do Gajo terá sido algures durante Abril, curiosamente altura em que se celebra a Páscoa (agora imagine-se que algum dia se descobre que Ele afinal morreu em Dezembro... as comemorações estariam todas ao oirártnoc, seria de doidos!). E mais, o Fulano nasceu 5 anos antes da data convencionada. Já ouvi falar em bébés prematuros mas isto é ridículo! Estamos portanto em 1998 d.c. e a ideia de poder celebrar mais uma passagem de milénio devia, isso sim, encher os nossos corações de alegria.
Mas as PEQUENAS incorrecções bíblicas não se ficam por aqui. Reputados historiadores e cientistas que se deram ao trabalho de ler as entrelinhas e as letras mais pequeninas que nunca ninguém lê, descobriram coisas ainda mais interessantes. Quem pagou a conta da ultima ceia, é tema para se discutir ainda por muito século vindouro. Mas para se descobrir quem foi afinal o verdadeiro pai de Jesus Cristo, não foi preciso chegar aos testes de DNA. De facto, a história daquela gravidez inesperada que já deixara José com a pulga atrás da orelha mas com a comichão na testa, parecia muito mal contada. Ainda mais porque diziam as más línguas da época, que a boa da Maria andava enrolada com um soldado romano, um tal de Pantera de alcunha, de nome que não reti mas que sei era nomen tipicamente romano. José, mais velho e pai barbudo de alguns filhos de outras legítimas uniões, quiçá igualmente azaradas, já não dava para o gasto, e a Jovem Maria (o epíteto virginal foi mal traduzido da palavra hebraica que significa Jovem e não Virgem), lá inventou o mais famoso e tangueado alibi de todos os tempos para esconder a facadinha no matrimónio, e que lhe valeu uma viagenzinha de burro até outras paragens.
Posto isto, perante estes factos científicos por mim assimilados numa destas manhãs frias de Dezembro quando frente ao televisor aguardava pacientemente pela chegada dos saldos, o Natal só tem lógica até aos nossos 5, 6 anos, idades em que normalmente deixamos de acreditar nessa simpática, assumida e incontestavelmente inventada figura que é o Pai Natal. Nessas idades pensamos que o tal de menino Jesus deve se apenas mais um puto qualquer mas que terá algo de especial e portanto será o preferido do Pai Natal, o primeiro a receber prendas, tipo logo á meia noite (as minhas só chegavam por volta das 6 ou 7 da manhã, quando já raiava o sol. Estaria portanto lá para o fim das preferências do velhote).
Nesta época deviam-se comprar só brinquedos para os nossos filhos, para os filhos dos nossos amigos, para os filhos sem sorte, e para os dos vizinhos, caso fossemos assim mais a dar para o cínico.

Este post foi escrito GRAÇAS A edp, pela oportuna energia eléctrica fornecida ao meu equipamento informático, ainda que a troco duma parcela do meu ordenado.
E mais agradecimentos:
À rtp1 que oportunamente exibiu um documentário sobre a VERDADEIRA vida de Jesus.
Ao lidl que oportunisticamente importou da Alemanha a pilsener Fink Brau (4,7% vol.), companheira e musa deste post em particular.


Presumo que fui um pai severo. Sempre disse aos meus filhos: façam o que quiserem, o enterro é de vocês.”
Charles Chaplin, n.16-4-1889 / f.25-12-1977 (alguém em quem valia a pena acreditar).

sábado, dezembro 20, 2003

É da época (reloaded)

Que desperdício!...and...Do que é que estavas á espera ?!
(Imagem originalmente gentilmente sacada algures do cafepress.com; imagem maior e adicional, cortesia posterior de Anton)

sexta-feira, dezembro 19, 2003

Uma história, por acaso, dum Natal

Um filho dum deus menor!Assisti a várias matanças de porcos, principalmente quando era puto, acreditava eu ainda no pai natal. Na ultima, já homenzinho, a vítima tinha sido baptizada com o nome de Fritz. Um grupo de malta juntou-se, decidiu comprar um porquito pequeno, leitão, chinito, trazê-lo no carro e entregá-lo a um homem também 'ito', dono de uma quinta, para que, conforme previamente combinado, o cria-se com todo o 'amor & carinho' até estar bom para se matar, esquartejar, comer e elogiar o sabor da carne. De facto, o bicho desde que entrou naquele curral, fazendo companhia a novos amigos e vizinhos, esqueceu decerto rapidamente a mãe e restante família que deixara para trás, e, ganhando novas raizes, não mais saiu das nossas vidas durante alguns meses. Tinha direito a visita regular, crescimento acompanhado, atenção redobrada sobre o seu estado de saúde, peso principalmente, cenouras e bolotas que caprichosamente comprávamos e apanhávamos das matas circundantes.
Assistíamos embevecidos ao seu crescimento e indiferentes ao desaparecimento e chegada de novos amigos suínos aos quais naturalmente pouca atenção dávamos não estando os mesmos sob a alçada do nosso sustento. O nosso ?carinho?, ia todo para o Fritz, o nosso orgulho, e parecia-nos a nós ser o mais belo exemplar que ali estava, que tínhamos tido muita sorte, que o vendedor tinha sido pessoa honesta e recomendável, o tratador seguia escrupulosamente as nossas instruções: para o Fritz, apenas da melhor ração, mas de preferência, apenas dos melhores restos de comida.
Como o dia da matança estava para breve, enquanto preparava-mos as câmaras de filmar e fotografar, alguém afiava as facas e lavavam-se alguidares. E quando chegou a hora, naquela manhã fria à beira dum Natal, o bicho, estranhamente, não veio ao chamamento como sempre fazia. Não havia bolotas para ninguém e parecia que adivinhava. Os porcos também tinham 6º sentido e nós, sentido nenhum, concluí quando o ouvi guinchar, quando o vi puxado á força, quando me chamaram também a mim para ajudar e eu recusei, recuando para mais tarde ser alvo de chacota. Era preciso chamar o dono da Quinta, o pai do Fritz, sim, pai, que pai e mãe são quem cria e não quem pare. E lá veio o 'homezito', aquele seu sorriso de quem já esperava, de faca afiada, de quem já sabia que aquela meia duzia de marmanjos não conseguiria sequer apartar o bicho dos outros porcos. 'Anda cá Fritz, vá anda cá meu menino, isso amigo, vá vem...' Fritz para além de porco tinha muito de burro e lá veio na cantiga até ao local escolhido, até começar a guinchar de novo, até ser novamente agarrado por duas mão em cada pata, outras ao pescoço, na barriga, junto á fogueira que eu tinha ajudado a acender. O homezito lá espetou a faca no amigo, e nós matámo-lo, e como se não bastasse, comemo-lo.

Arrogância da pior espécie

Podes crer!Imagina-se a seguinte teoria marada, saída da cabeça dum gajo qualquer: Alguns homens já nascem com uma propensão genética para serem cornos.
Continua-se a imaginar, que alguém garante ao outro lado, com a mais absoluta das certezas, que não nasceu com essa propensão genética, pelo que jamais foi ou será vítima de tal má sorte, jamais será corno, cornudo, cabrã*, por maior que seja o precipício, por muito que à beira dele se encontre. Esta certeza confessada oralmente com esta convicção, faz automaticamente desse alguém, não um gajo estúpido ou ingénuo, antes um gajo arrogante, da pior espécie.

quarta-feira, dezembro 17, 2003

O cu de Deus

Pormenor dum quadro de Bruegel Vivo o drama diário de quem tem um horário a cumprir. Se chego depois dos 15 minutos de tolerância, tenho que fazer um pequeno ritual, a que muitos apelidam de “O beija mão...” e que consiste em arranjar uma desculpa plausível ao “chefe”, apresentar-lhe um relatório resumido daquela nossa pontual incompetência, apaparicá-lo, se for necessário, beijar-lhe o cu. Não sei se o gajo está ciente disso mas, naturalmente que 90% das desculpas que damos por qualquer lapso temporal, são tangas inventadas durante aquele período traumático, durante aquela fase em que já só pensamos “e agora caraças ?!”, em que o chegar atrasado é já um facto irreversível. É que quando saímos de casa, por mais atrasados que estejamos, pensamos sempre que chegaremos a tempo, que haverá uma conjugação de factores cósmicos e paranormais que farão com que todos os sinais estejam verdes á nossa passagem, que não hajam lesmas pelo caminho, que não haverá bicha na ponte, e outras ausências ou ocorrências de outros factores que influenciam a nossa performance a caminho do trabalho.
No caso concreto de hoje, não aconteceu aquilo que geralmente acontece entre as 7h30 e as 8h00. Hoje não parecia um maluco a fazer ultrapassagens a torto e a direito apenas para ganhar uns lugarzinhos a mais lá à frente na bicha. E quando fui ao “beija mão” (nunca lhe beijei o cu, é com muito orgulho que o digo), mais atrasado que nunca, é óbvio que não poderia dizer a verdade: Que tinha estado acordado até de madrugada porque estivera a ver o episódio "End of Eternity" do “Space 1999” em DVD, e depois, o “Cubo” na RTP2, e que, apenas por descargo de consciência, quando tinha mudado para a SIC, estava um gajo a sodomizar (parecia) uma preta (ou negra se preferirem), facto que me tirou imediatamente o pouco sono que tinha e me fez automaticamente prestar atenção à estória que, confesso, tive dificuldade em perceber. O gajo, o chefe, nunca iria compreender o porquê das minhas olheiras e barba por fazer! E lá inventei uma tanga qualquer, a qual recebeu a benção com mais benevolência que o costume, sem direito a rebocada e tudo. Interrogo-me se o gajo estará realmente ciente, de que mesmo os atrasos resultantes de noticiadas catástrofes naturais, ou monumentais engarrafamentos ou choques em cadeia, são sempre ficcionados pelas vítimas, ninguém resiste a adicionar uns minutos de pura ficção para tornar a desculpa ainda mais plausível. Talvez, aquela benevolência com que aceitou a minha desculpa, tenha sido influenciada pelo meu estado de espírito de hoje, pela descontração involuntária que demonstrei, a grande eficácia com que fiz a exposição da tanga. Resultado decerto duma nova perspectiva de “vida a caminho do trabalho” que me fizeram ver ao início do dia, da viagem: “Vai com cuidado, olha que mais vale beijar a mão ao chefe que o cu a Deus.”

terça-feira, dezembro 16, 2003

Estória do menino Carlos em Angola (reloaded)

Achei desconcertante aquela introdução “Olá ?!... Olá?!... Não estou a ouvir nada! Digam Olá!! Ah, pronto...” ... Então olá e agora vou contar-vos uma história de quando eu tinha idade para ser vítima de pedofilia... Foi assim ontem á noite no telejornal da SIC, inesperadamente, na integra, chegou-nos uma muito bem contada estória de Natal gravada ao telefone dos calabouços do EPL. Achei a ideia simpática, a SIC podia até doar permanentemente um espaço, na sua já de si mediocre programação, para tempo de antena aos arguidos presos em prisão preventiva. Ouviriamos deliciados as suas estórias, isto apesar de cá fora todos termos histórias de infância de sobra para contar.
Um sentimento ou chamemos-lhe feeling que sinto em relação a tudo o que Carlos Cruz tem feito, os recursos dos recursos, as crónicas e elogios das mulheres e ex-mulheres, os apelos e almoços filmados dos amigos, as capas de revista do casal então feliz, as estórias de Natal, tudo, acho que era tudo o mesmo que eu faria ou promoveria, se estivesse numa situação semelhante, figura pública presa e... me soubesse culpado! É óbvio que imaginarmo-nos naquela situação é um exercício díficil, e pode ser que seja apenas o estilo “1,2,3” do homem, estilo que pessoalmente nunca admirei, que já o transformou numa figura mediática da televisão, que conseguiu trazer o Euro 2004 cá para dentro, talvez aquele mesmo estilo e estratégia certa para lhe trazer a liberdade.
Embora acredite menos no Pai Natal que nele, acredito mais na Justiça e inclino-me para essa ideia feita que diz que onde há fumo há fogo. Acredito que não é de animo leve que se podem prender várias figuras mais ou menos importantes e mediáticas sem que hajam contra elas efectivamente provas fortes e evidentes. Acredito que ele teria estado envolvido nalguma coisa menos limpa, mas que talvez do seu ponto de vista não será tão suja quanto um bem engendrado complot quer fazer parecer, não se revestiria duma gravidade tal merecedora duma prisão preventiva. Ele, os seus advogados, apostarão tudo nessa convicção, nesse processo de vitimização que continuamos a assistir.

Apanhado

Saddam. Faltam só o Bush e mais uma dúzia.

Publicidade gratuita #3

Quando já julgava que existiriam castanhas podres em toda a parte, Setúbal, Praça do Bocage, o homem das "quentes & boas", e grandes e saborosas também, dá duas por cada podre que encontrarmos na duzia. Não encontrei.

segunda-feira, dezembro 15, 2003

O Gustave é que sabia

"Tenho meditado numa coisa que aliviará a minha cólera (...) vomitarei sobre os meus contemporâneos o mau gosto que me inspiram.", Flaubert (1821-1880)

sexta-feira, dezembro 12, 2003

Notícias do Espaço

- Na cama sou capaz de te levar á lua!Felizmente até agora todos os extraterrestres que apareceram falam um inglês impecável e há tamanhos de roupa para eles na Zara. No ultimo episódio, uma extraterrestre muito bem penteada apaixonou-se pelo comandante Koenig e o gajo deu a face. Quem começou a ver o caso mal parado foi o pai da pequena prateada que gostava mais do humano como cobaia para as suas experiencias antropológicas que como genro. A ideia de ter netos com a cara do comandante começou a atormentá-lo e vai daí, foi uma trabalheira separar os pombinhos e recambiá-lo de volta para a base lunar onde a Dra. Helena o recebeu sem cíumes e sem saber do affair.
Saruman mais novo, quando era fã dos Kiss! Os episódios sucedem-se psicadélicamente delirantes e sucedem-se as aparições de actores ainda mais clássicos que a própria série: Christopher Lee, um dos mais famosos dráculas de sempre, o Saruman do "Senhor dos Anéis" ou o Conde Dooku da "Guerra das Estrelas"; Peter Cushing o eterno Van Helsing e o barão Frankenstein, ambos dos saudosos filmes de terror dos anos 60/70 da Hammer.
Cada episódio do "Espaço 1999" é uma pequena e bem hermética obra de arte tecno-kitsh imperdível. Sempre que se justificar e não tiver mais nada que escrever, voltarei á antena com mais notícias.

quarta-feira, dezembro 10, 2003

Buy n' play

BUY
Como qualquer gajo com mais de 30 anos, não pude deixar de ficar indiferente ao acontecimento editorial do ano: a edição de todos os episódios do “Espaço 1999” em DVD (1ª fase composto por 6 = 25 episódios). Lá mandei vir o pacote, a minha primeira compra pela Internet.
PLAY
Passados todos estes anos, senti alguma emoção quando no écran vi surgir o celebre genérico da série, com a sua inconfundível musica e a as habituais cenas do episódio que iremos ver dentro de momentos. Só por esta comoção, dei automaticamente por bem empregues as 10 mocas. Depois comecei a ver a série, vinte e tal anos mais velho.
As interpretações estão muito convincentes, os decors a la 2001 estão fabulosos e as histórias tem um dom psicadélico que justificou o encantamento de toda uma geração.
PAUSE
A lógica dos episódios do espaço 1999 acenta no seguinte princípio: “Tudo o que pode correr mal, vai correr mal”. Depois, para resolver a história, 90% das vezes sem explicação, “tudo o que deveria correr mal, vai correr bem”. É linear e para mais explicações é favor dirigir-se á inteligência cósmica suprema mais próxima da lua.
Aqui ficam algumas observações, após 3 episódios visionados. Sempre que achar oportuno, voltarei á antena.
Personagem mais dispensável:
Mr. Kano. Em vez dum bem disposto Eddy Murphy, o negro de serviço é pessimista, ri muito raramente e só nos segundos finais dum episódio. Curiosamente, era a personagem de quem eu mais gostava quando era puto. Nas minhas brincadeiras fazia sempre de Kano, enquanto os outros putos todos se degladiavam para ver quem fazia de Alan ou de Comandante. Isto pode explicar muita coisa...
Personagem mais desprezível:
Mr. Paul. É o homem de confiança do comandante Koening. Um “yes man” de bigodes desprezível que logo no 2º episódio, assim que vê Sandra perder o namorado, começa a fazer-lhe olhinhos. Não se faz! Se a minha memória não me falha, o Alan ainda lhe há-de ir aos cornos num episódio lá para a frente e que quero ver se não perco.
Personagem mais comestível:
O panorama é deprimente. Nesta primeira leva de episódios ainda não aparece a Maya, que como é sabido, era mulher e tinha ainda a vantagem de se poder transformar em qualquer outro objecto vivo. Ainda assim, a Dra. Helena leva grande vantagem sobre Sandra. Apesar desta ultima ser mais nova, é baixinha e parece presa demasiadamente fácil. A outra parece sempre mais inacessível, para a idade está muito bem conservada e, apesar daquele ar sempre impassível, consigo facilmente imaginá-la de saltos altos e lingerie preta.
Personagem mais interessante:
As Eagle. As navezinhas são um verdadeiro espectáculo. Têm manípulos de mudanças e são bastante confortáveis. Não há ali nada de imagens de síntese, apenas aqueles modelos reais que fazem um basqueiro para levantar voo e aterrarem. Gostava de receber uma daquelas miniaturas no natal.
Truque#1 para se ver da melhor maneira o “Espaço 1999”:
Aqui fica apenas mais um truque para quem quiser ver a série e suprimir por completo qualquer pequeno vestígio de tensão que eventualmente possa sentir durante o desenrolar dos acontecimentos de cada episódio: sempre que aparecer uma eagle a ser pilotada por alguém sem ser o Alan, é certo, era uma vez uma nave.
RESUME PLAY

Sociedade Secreta De Tetas Invasoras

Provavelmente, o blog com o título mais sugestivo da história. É da galera.
e ainda...
Acabadinho de descobrir e directamente para os meus links de eleição: A Gaiola Aberta. A par com o "Espaço 1999" um dos maiores 'musts' da minha infância. Agora em blog posted by José Vilhena himself.

terça-feira, dezembro 09, 2003

Missão cumprida

Um casal de idosos, que nunca foi a Marte, vive os seus últimos dias satisfeito porque, entre outras coisas, o filho, pessoa estimada por todos e invejada por outros, conseguiu passar pela vidinha, por esta vidinha, sem nunca dar em louco. Coisa rara, já dá para morrer feliz.

Ultima hora

Fico a saber, existem homens bonitos demais para o gosto das mulheres. O contrário nunca se saberá.

sexta-feira, dezembro 05, 2003

Certeza

Os blogs são escritos apaixonadamente por pessoas desapaixonadas.

quarta-feira, dezembro 03, 2003

Duas consoantes e duas vogais

Não tenho o prazer de conhecer pessoalmente a loira Lili Caneças mas calculo que seja uma personagem absolutamente adorável. Ela sabe ser e estar, irradiando sempre uma invejável espontaneidade pura e profunda por todos os seus plastificados poros. E da sua modelada boca, de tempos em tempos, saem deixas deliciosas, pérolas de sabedoria. A juntar à colectânea que agora me proponho fazer, depois de “estar vivo é o contrário de estar morto”, neste Domingo, no programa do Herman, aludindo ao esforço que o seu conpinska Carlos Castro estaria a fazer para organizar mais uma gala dos travestis: “Ele tem sido incansável, tem trabalhado 24 horas por dia e por noite...”. Nós ouvimos-te Lili.

terça-feira, dezembro 02, 2003

Corridas

A visita relâmpago de Bush ao provavelmente mais bem guardado local do mundo (aeroporto de Bagdad e cantina dos militares americanos) foi dos maiores golpes propagandisticos do século e provavelmente valer-lhe-á a re-eleição, “read my lips”!.
Embora tenha sido a ideia que transmitiu, não teve nada de heróica ou corajosa a atitude do senhor da guerra. Mas e o que têm esses valores a ver com o marketing político ? Igual a si, mais esperto que inteligente, Bush marcou pontos. As imagens dele a servir os militares ou a segurar uma travessa com um peru, são fortes e valem mais que vê-lo a comer frango assado com as mãos. Repararam como ele estava bem ? Sem duplos! Certamente que o George terá tido horas e horas de treino.
De volta à América, vestido o mesmo blusão ainda com cheiro a peru, Bush acenou para a multidão virtual que o aguardava, como sempre, fazendo adeus para as câmaras, tranquilizando e enganando todos, como eles gostam. Não o ponham a correr dali para fora que não é preciso!
...
Terminado o sorteio do Euro 2004, palavra ao futebolista da selecção nacional: “Infelizmente a sorte não nos acompanhou!” Futebolista e basta! Ok, já sabemos que todas a s equipas são boas e que as que nos calharam no sorteio, essas então, nem se fala. É sempre essa a conversa, a nossa sina. Sorte sorte era Portugal, como país organizador, estar automaticamente apurado para a final!
A ideia de que não é preciso jogar bem, antes esperar pela sorte ou pelo azar, parece estar perigosamente enraizada nos jogadores da selecção. Ponham-se a olhar para a cor das camisolas dos outros e não corram que não é preciso!
...
Oiço na rádio que o próximo hospital a construir em Loures terá uma área equivalente a três campos de futebol. A área ardida este ano pelos fogos florestais terá sido equivalente a vários milhares de campos de futebol. O meu carro percorre baliza a baliza em 22 segundos. Na assembleia da republica existem deputados equivalentes a 20 equipas de futebol. A minha casa é do tamanho duma pequena área. Apareceu-me nas coxa um inchaço do tamanho de uma marca de grande penalidade que não sei se será grave, mas custa-me correr! É urgente a publicação duma tabela de conversão das medidas futebolísticas para as do costume e vice versa.
...
Parecemos cada vez mais um país miserável á babugem de uns trocos estrangeiros. Nós e as nossas contrapartidas, sempre prontos a receber de braços e sabe-se lá que mais aberto, prestigiados eventos desportivos e outras mediáticas organizações, que venham elas. Supostamente serão estas coisas que nos darão reputação, a evolução do país está dramaticamente dependente das expos, americas cups, e euros.... Mas quem nos anda a meter estas coisas na cabeça ? Não podemos correr com as nossas próprias pernas ?
...
Os taxistas querem que as corridas a partir do aeroporto de Lisboa tenham uma taxa mínima para compensar o tempo de espera que têm de fazer. Ex: estão na bicha dos taxistas na palheta uns com os outros uma ou duas horas para depois quando chega á vez deles o cliente querer (apenas) uma corrida até Entrecampos! 500 paus ?!! Assim não rende! A lógica daqueles senhores é extraordinária: O cliente tem que pagar também o tempo que eles esperaram! Mas, alguém os obrigou a estarem ali ? Que se lixem! Quando é que o metro chega ao aeroporto, quando é que o aeroporto é servido com meios de transporte condignos ? Corram-nos dali para fora!

sexta-feira, novembro 28, 2003

Introdução à dramática vida do Zé (com fim)

Zé Gaspar vive num prédio degradado numa zona também dos subúrbios. O sentido de responsabilidade e vergonha, incutidos pela educação provinciana dos pais sempre sob a supervisão dos céus e a benção do pároco local, fez com que desde há cinco meses seja o único morador a pagar o condomínio, para além do vizinho indiano do rés do chão, actual administrador. Quantia global manifestamente suficiente para manter em pagamento a luz de passagem da escada, insuficiente para reparar o elevador, há já algum tempo condenado sem reparação pela ultima visita dum técnico que ainda hoje está a arder. É certo que os sacos do hipermercado a carregar para o 7º andar são cada vez em menor numero e mais leves, mas os degraus parecem eles próprios efectivamente mais altos e pesados, da idade. E Zé tem agora, desde o início dum ano passado à meia noite num engarrafamento provocado pela morte duma bateria, essa recompensa e o estimulo acrescidos, de ao cimo das escadas avistar a imagem irreconhecível, cada vez mais, da sua mulher, que o vem receber, a perna esquerda a rebentar pelas costuras de tanta variz, de tanta escada subida e descida, no meio do lixo que se acumula nesta que nas outras era trabalho sempre elogiado que fazia com afinco, a limpeza.
A Zé valem-lhe as breves paragens que faz quando passa pelo 5º andar esquerdo, quando bate á porta, naqueles dias incertos, aquele bater do costume, e é recebido pela vizinha que o trata por “amorzinho” e que com tanta habilidade lhe desvia a atenção das pernas em estado semelhante ou pior que a da mulher. Mas respira melhor àquela altura, vá-se lá saber porquê, ela mal casada assumida parece adivinhar-lhe a visita, e ao contrário do que o marido diz depois da 5ª imperial quantas vezes paga pelo amigo Zé, ela apresenta-se sempre lavada, com cheiro a sabão macaco debaixo do eterno pijama amarelo que, mas porquê, teima em não desbotar, e contribui para aumentar o rol das coisas que os homens têm que nunca serão bem compreendidas. Não são mais que cinco ou 10 minutos, que reforçam a pena e o misto sentimento de culpa que a mulher de Zé sente quando abre a porta e o vê chegar cansado uns dias, incertos, mais que outros, naquele estado.
Se houvesse por aí uma vida em conta, ele não hesitaria.
Fim.

quinta-feira, novembro 27, 2003

Choque térmico

Numa ainda madrugada muito fria, uma mulher qualquer bela passa um sinal recentemente vermelho com o seu recente Mercedes. Leva os ombros á mostra e só ela sabe quando os destapou. Agasalho-me.

quarta-feira, novembro 26, 2003

Neste momento...

Três mil mulheres colombianas dirigem-se em autocarros, sem escolta policial ou militar, até Putumayo (Puerto Caicedo), epicentro da guerra civil, perigosa zona onde se verifica maior actividade por parte da guerrilha na Colombia. Contra a guerra e a violência sobre as mulheres.

terça-feira, novembro 25, 2003

Geração dah!!!

Visto a minha gabardina até aos pés, encho-lhe os bolsos com rebuçados, meias pretas até aos joelhos e os sapatos de executivo impecavelmente engraxados. Acerto o relógio da sala e saio de casa na direcção do gradeamento da escola secundária mais próxima. As minhas pistas apontam naquele sentido. Para efectuar este trabalho de campo, tenho que passar o mais despercebido possível, enquadrar-me no meio ambiente escolar. Não posso ser apenas um encarregado de educação qualquer que aparece por ali armado em tótó a fazer perguntas. Não posso correr o risco de aparecer uma auxiliar de educação interrogando-me sobre o que estou a fazer, ou um professor dando-me lições acerca da inutilidade da minha pesquisa: saber o verdadeiro significado, buscar a etimologia da genial e enigmática expressão ‘dah!’.
Não tarda e surgem junto a mim duas teenagers. Não vou perder tempo a descrevê-las, mas uma faz-me lembrar a Britney Spears e a outra a Doutora Helen da longínqua série “Espaço 1999”. Suponho que são normais. Apesar dos avisos nas grades, passo-lhes guloseimas que elas devoram com aquele prazer próprio de quem se está borrifando para as dietas. Rapidamente começam a desbobinar tudo. A expressão “Dah!” há cerca de um ano que circula nas escolas. “Pelo menos na escola de cima também!” Muito antes, portanto, de ter sido utilizada massivamente na publicidade duma conhecida operadora de telemóveis. Não me sabem dizer os nomes dos trisavôs, e tal como acontece com as anedotas, não sabem dizer quem foi o autor, quem pela primeira vez terá proferido “Dah!”. Um momento de divina criatividade, ou vocalização espontânea... Explicam-me que recorrem vulgarmente á expressão sempre que alguém se comporta ou tem uma observação própria dum atrasado mental, nomeadamente colegas do sexo masculino, que naquelas idades é muito vulgar comportarem-se como tal. O “dah!” é acompanhado dum movimento oscilante da mão junto ao peito ou na testa, simulando um descontrolo físico ou ‘tapadice’ que muitas vezes caracteriza os “atrasadinhos”.
Por exemplo, há bocado o Migui disse-me:
- Já vistes as mamocas da Rita todas para cima ?! Não gostavas de ter umas assim ?
- Dah!!...
(lá está o gesto da mão) Ela usa ‘wonderbra’!!!” (a ultima silaba arrasta-se, tal como o ‘dah!!’)
Por toda a parte ouvem-se toques polifónicos. Ting-tong-daing-telim-ding-beng... e por aí fora.

segunda-feira, novembro 24, 2003

Dentro do contexto

"Não há nada que dê mais vontade de rir que um português a chorar. E o inverso também é verdadeiro: um português a rir-se dá vontade de chorar.", Ernesto Sampaio, in Diário de Lisboa, 6-2-1987)

sexta-feira, novembro 21, 2003

Frame #1

alien 4

*Anedota de Elite #4 (Estamos obcecados com a M.F.L.)

"Manuela Ferreira Leite está no seu luxuoso gabinete e diz para um secretário:
- Vou atirar esta nota de 100€ pela janela e fazer um português feliz.
- Srª Ministra não acha preferível atirar duas de 50€ e fazer dois portugueses felizes?
Entretanto um escriturário ouve a conversa e diz:
- Não faça isso Srª Ministra. Atire antes 20 notas de 5€ e faça 20 portugueses felizes!
Ouvindo isto tudo, sugere a senhora das limpezas:
- Porque é que não se atira a senhora da janela e faz dez milhões de portugueses felizes?"
*a circular na net.

Ligações inofensivas

Homens, mulheres e predadores.
Estadionite - a nova doença atinge (também) a China.


quinta-feira, novembro 20, 2003

Idiotas

De temps-en-temps devíamos parar para pensar, reflectir seriamente sobre o nosso estado, se não estamos a ficar assim. Procurar esses sinais mais ou menos evidentes e tentar corrigir, inverter a tendência. É cada vez mais fácil tornarmo-nos nuns, num processo gradual e invísivel que nos passa despercebido, assim como passa aos outros porque estão como nós. Deveria ser instituído um dia nacional contra a idiotia. Pelo menos, uma vez por ano...

quarta-feira, novembro 19, 2003

Prêt-a-porter

Há pessoas vestidas que mesmo que lhes aparecesse pela frente a felicidade toda despida, nunca saberiam o que fazer com ela.

terça-feira, novembro 18, 2003

Inoculação

Pior que as gripes, aproxima-se perigosamente a época das greves. Já me preparei para não fazer nenhuma! Mas que fique bem claro, não sou um fura-greves.
Estão a ver aquele tipo que trepa pelo portão fechado a cadeado, querendo ir cumprir o seu dever laboral e contribuir com a sua microscópica parte para o futuro e progresso da nossa grandiosa civilização? Sou eu. Sou eu, contra estas greves, salto o portão para mais um dia de trabalho que é para isso que cá ando, que cá me puseram, um dia atrás do outro, eu, sozinho se for preciso, até vir o fim da paciência ou o fim do mês, que felizmente chega sempre primeiro. Sou o único a furar a greve ? Sim sou o único, mas isto não é greve que furo, digo e volto a dizer que não sou a vergonha da classe. Se acham que sim, que se lixe, não percebem nada disto! Greves para quê ?! Eu não faço greves. A greve é coisa do século ante-passado e provoca-me alergia agora nestes Invernos do Século XXI. As greves agora são peças de colecção para os sindicato e um alívio para as finanças públicas (umas grevezinhas agora davam jeito não era senhora ministra das finanças e restante séquito?). O que não se faz hoje, faz-se amanhã, o que não se fez nunca, far-se-á algum dia. Muito litro de gasóleo se vai poupar, muita electricidade, telefone e água do público e de algum privado, muito dia de ordenado. Mais uma bolha de oxigénio para o déficit asfixiado.
Ninguém faz greve, todos brincam ás greves. Eu não gosto desta brincadeira, não brinco. Todas a gente sabe que quem manda nisto tudo são os senhores Sony, Microsoft, Samsung, Hollywood, Benfica, Honda, (Sr. Honda como está ? Há muito tempo que não lhe compro um carrinho! Mas a culpa não é minha sabe...) e outros ou ninguém sabe ? Saibam então que esses é que são os nossos verdadeiros patrões, e são mais que as mães, e os Durões e Bagões todos juntos. Se pensam que lixam este par de enfeites desenganem-se, que a culpa deles vale alguma coisa mas não o suficiente para valer os nossos dias de ordenado perdido.
A greve deste século é a greve ao consumo e não ao trabalho. Que sofrimento, caraças, já se imaginaram passar um mês sem comprar nada de verdadeiramente inútil ?... Nem quero pensar!.. Mas o que é uma greve sem algum sacrifício ? Destas é que não. São fáceis de fazer, são uma brincadeira. Não se vai trabalhar e já está. No dia seguinte trabalha-se outra vez, e tudo continua a estar pior, todos julgarão estar de mãos lavadas.

segunda-feira, novembro 17, 2003

Agora vais-me dizer o que vês nesta imagem #1

- Se eu não lhe acertar na testa, acerta-lhe tu nos respectivos testículos!Vejo o Harrison Ford armado com um pistola que parece verdadeira, apontando-a para alguém. E por detrás dele, o mais novo Josh qualquer coisa, na mesma pose.
De geração em geração. Um gajo com uma pistola na mão parece logo outra coisa.

sexta-feira, novembro 14, 2003

Amizade, uma versão
Num destes domingos de Outono, Domingo bonito de sol, daqueles que vingam um Sábado chuvoso, que nos resgatam de um fim de semana de sofá, quando passeava calmamente entre a lama, entre a gritaria dos feirantes, apertado com os encontrões das mulheres febris de mãos cheias de slips e sutiens mais baratos à meia-duzia, fui abordado por um indivíduo de etnia cigana (como gosto deste equilibrismo que faço para não dizer simplesmente “um cigano”) que se propunha vender-me um Breitling por 10 euros. Ora, “um Breitling é um relógio de pulso que custa nas ourivesarias, o mais barato, á volta de 1000 euros”, pensei eu. “Posso ver?”. E pude ver-me introduzido, para grande desilusão minha, não no excitante universo da receptação como esperava, antes no inútil universo das réplicas perfeitas dos relógios de luxo onde “só os ponteiros grandes funcionam e os outros são para enfeitar”. “Mas oh senhor, quem o ver não vai reparar nisso.” E mostrou-me outras marcas e modelos, mais caros, com maior requinte na imitação, mas os mesmos ponteiros pequenos, os cronómetros, os indicadores dos dias, da reserva de marcha, parados... “Os seus amigos vão pensar que é verdadeiro!”.

quinta-feira, novembro 13, 2003

Sinal dos tempos #2732

Adeus "Mundo Encantado dos Brinquedos do Continente"! Bem vindos ao "Palácio Encantado..." Quatro paredes sempre são mais seguras, menos turbulentas que o "mundo". Um Natal mais aristocrata portanto.

quarta-feira, novembro 12, 2003

Lojas do chinês: o meu veredicto
Não tenho o espirito activista que norteia as associações que aguerridamente defendem os direitos dos consumidores. A própria palavra “consumidor” assusta-me e é vista por mim mais como uma maldição do que como esse adjectivo que afinal de forma implacável traduz a nossa condição por estes dias, aquilo que todos somos, cada vez mais, meros consumidores, desde afectos aos últimos modelos da swatch.
Defender o “consumidor” cheira a defender o “consumismo” e por isso penso que a questão deve ser antes atacada que defendida, atacando-se portanto quem fomenta o consumismo ao desbarato.
Assumindo no entanto esta realidade incontornável, a de que somos todos, e cada vez mais, antes resignados consumidores que cidadãos alertados, decidi fazer um vasto estudo tipicamente ‘consumista’ acerca das “Lojas dos Trezentos”, essas instituições respeitadíssimas, que me habituei a frequentar sempre que tinha que fazer tempo antes duma ida ao dentista ou quando tinha que comprar prendas de natal para os colegas.
É com algum desalento que tenho vindo a constatar o desaparecimento gradual deste tipo de lojas que assumiam verdadeiramente o seu preço e vocação no próprio nome. Assumiam uma honestidade e um comunismo nos preços únicos, uma excelente relação preço ridículo / qualidade dúbia que a todos tranquilizava, quando se sabia que entre lojas, sendo sempre o mesmo preço, não haveriam grandes discrepâncias, ou seja, dificilmente as pessoas se sentiriam ludibriadas até porque nem sequer se davam ao trabalho de comparar preços.
As coisas têm vido a alterar-se, a começar pelo próprios nomes das lojas, cada vez mais pretensiosos, pelos produtos exibidos nas suas prateleiras, cada vez mais inacessíveis ao consumidor teso comum, pela sensação de insegurança e desconfiança que transmitem ao consumidor tal a variedade afinal de preços.
Quando os chineses viram o Mc Donalds e outros similares ameaçarem a sua multiplicação na área da restauração, decidiram arrumar os wooks e deslocar parte do seu core business para a versão chinesa das “lojas dos trezentos”. Surgiram assim as famosas “lojas dos chinês”, que de imediato começaram a proliferar um pouco por toda a cidade, trazendo com elas uma vasta panóplia de produtos típicos da barata mão de obra chinesa e que rapidamente substituíram os bibelots típicos da velha pechincha portuguesa.
Ainda assim, algo que as lojas dos chineses trouxeram de bom foi a assumida concorrência entre chineses, provavelmente entre continentais e taiwaneses. Daí, um bom consumidor de artigos supérfluos como o são 94,5% dos que este tipo de loja oferece, tem que estar atento ás oscilações dos preços dum mesmo produto entre lojas de diferentes chineses, oscilações essas que em certos casos chegam a ser escandalosas.
No sentido de concretizar o meu estudo, iniciei uma série de visitas sempre a dias e horas diferentes a 4 (quatro) “A lojas do chinês” ao calhas. E a seguir, seguem as conclusões do meu estudo, as minhas compras na loja do chinês de Campo de Ourique, que em boa hora incluí neste estudo, que é indubitavelmente a minha “ESCOLHA ACELTADA”, superando todas as outras lojas em quase todos os domínios, variedade, arrumação, asseio, sotaque e, nomeadamente, quanto ao preço. Entre parêntesis acrescento a cada item o preço médio verificado nas outras três lojas do chinês.

As minhas compras na “Loja do Chinês” – delegação Campo de Ourique

- 1 sofisticado porta-chaves / cadeado em prateado com mecanismo incorporado de abertura através de uma combinação de 3 algarismos (999 combinações possíveis), em metal especial e inviolável, pelo invejável preço de 2€ (não havia à venda noutra loja)
- 1 ultra-resistente barra de torção (equipamento de musculação), com molas helicoidais em aço inoxidável, tratamento anti-ferrugem e pegas em borracha para máxima aderência e conforto, por apenas 8€ (9€)
- 1 termómetro de alta precisão e de dupla graduação em graus centigrados e farenheit, em mercúrio vermelho e puro, com base em madeira natural e adaptador para prego de parede, por apenas 1€ (2€)
- 1 pack de dois fabulosos baralhos de cartas tipo ‘magic’ mas com soberbas ilustrações coloridas e reflectoras, oriundas do universo manga japonês por apenas 4€. (5€)
- 1 hipnotizante imagem de nosso senhor jesus cristo com um coração brilhante nas mãos, ladeado por nossa senhora com a mesma clonada coisa nas mãos, imagem emoldurada numa requintada imitação em ouro, com efeitos especiais de luz e movimento psicadélicos, funcionando a electricidade e com 1 ano de garantia, pelo milagroso preço de 12,5€ (16,75€)
- Estive tentado mas não comprei, uma bola de borracha anti-stress com a forma de um seio feminino (peça de invulgar requinte garanto-vos, que ficaria sempre bem à mão, dentro da gaveta da secretária).

Como se pode verificar, estas compras, efectuadas na “Escolha Aceltada”, num total de 27,5€, resultaram numa economia de 7,25€, o que me deixou, e deixaria quem quer que fosse, histérico de alegria.
Como não quero estar a ser injusto para com as outras lojas do chinês, onde apesar de incógnito teso do costume fui sempre bem recebido com todos os ‘éles’, apresento agora os pontos fortes de cada uma, sugerindo aos ávidos consumidores que se dirijam as mesmas, caso estejam especificamente interessados nos produtos em apreço.
- Loja do chinês do Rato (produtos kitsh, pop-art, limpeza e menage)
- Loja do chinês do Camões (produtos de papelaria, doçaria e carteiras de senhora)
- Loja do chinês de Alvalade (chinezices genéricas e ferramentas e bricolage)
- Loja do chinês de Campo de Ourique (gadjets, relojoaria e tudo o mais)

segunda-feira, novembro 10, 2003

Chico-Espertismo ligado a si
A PT foi condenada pelo Supremo Tribunal de Justiça a devolver quantias ilegalmente cobradas aos (todos) seus clientes durante o ano de 1999. No mundo perfeito dos administradores e accionistas da PT, não existiam nem concorrência, nem associações de defesa dos consumidores e muito menos tribunais a dar-lhes razão. Mas paciência... Felizmente, como não guardaram as facturas dos seus consumidores referentes àquele ano, terão de ser os próprios interessados a apresentá-las se quiserem reaver o SEU dinheiro ilegalmente surripiado. Felizmente, ainda, para eles, em boa hora tiveram a esplendida ideia de devolver aos consumidores lesados e com as facturas religiosamente guardadas, não o dinheiro como moralmente deviam, antes o equivalente em crédito para aquisição futura de serviços (chamadas) ou produtos (telefones...) da PT. Até aqui, tudo mal. É visível a má fé da PT, o cinismo com que se sujeitou á sentença do mundo (ainda) real e como a está a executar, muito pouco voluntariamente, quando diz não ter guardadas as facturas dos consumidores, sabendo toda a gente que tais facturas não serão mais que registos informáticos dos quais qualquer empresa de telecomunicações daquela envergadura e de bom senso teria feito um back-up. O mais certo são esses registos existirem sim senhor, algures num disco rígido qualquer. Mas no mundo perfeito daquela empresa, não existem, hipócritamente, convém que não existam.
Mas tudo pode piorar ainda mais quando na televisão vemos um representante desse mundo perfeito, um administrador da PT, de carne e osso e gel no cabelo, porta voz da empresa, explicando, com a candura que só os grandes cara de pau conseguem ter, as inexplicáveis regras para quem quiser jogar o jogo do 'Onde pára o meu dinheiro?'.
Acho que já estamos todos habituados a suportar o chico-espertismo barato do costume. Já nos habituamos a ver políticos, areeiros, construtores civis, taxistas, nem todos e outros que não estes bem portugueses, exercerem com mestria esse autêntico desporto nacional. Muitas vezes mero aquecimento para a verdadeira actividade desportiva por excelência, a corrupção, que por acaso não virá agora ao caso. Mas quando o chico-espertismo chega-nos de onde menos se esperava, de uma empresa que quase símbolo nacional que é, deveria ser e dar exemplo de correcção e boa fé, empresa com a qual temos um vinculo contratual, a coisa pia mais fino. Na sexta feira á noite, quando soube de mais esta pérola da gestão de empresas 'made in portugal', fiquei instantaneamente desconfortável e contaminado... A PT estava 'ligada a mim', eu ligado ao chico-espertismo... Constatei que naturalmente as minhas facturas do telefone de 1999 já há muito que tinham sido recicladas. Comecei a aperceber-me que contribuía com a minha cota-parte para o ordenado recebido por aquele rapaz administrador, que de algum modo contribuía para todo aquele gel que lhe empastelava o cabelo. E ao fazê-lo estava a contribuir e a concordar com o perpetuar do chico-espertismo empresarial nacional... Não adiantava mudar de posição no sofá, não adiantava mudar de canal para não ouvir mais o gajo do gel. Adiantava sim mudar de operador telefónico, adianta mudar para a concorrência. Neste momento estarei já a pagar, não o gel, antes talvez o tratamento capilar a outro senhor administrador qualquer (não se consegue evitá-los), que isto nas telecomunicações em Portugal, ser cliente da PT, ou ser administrador da concorrência, deve causar muita dor de cabeça, muito stress e consequente queda de cabelo.

sexta-feira, novembro 07, 2003

- É só carregar neste botão e transformo-me num 'serial porno-photographer'!One minute post
"One Hour Photo" ("Camera Indiscreta", de Mark Romanek, 2002, em DVD) é mais um grande filme daqueles talvez demasiadamente discretos para o gosto do público em geral, apesar de contar com o popular e versátil Robin Williams, em mais uma grande interpretação. São filmes assim que me fazem (ainda) acreditar no cinema 'made in Hollywood', filmados sem grande aparato, sem as habituais concessões à disciplina comercial dos grandes estúdios.
É uma das mais bem contadas histórias de suspense e medo dos ultímos anos. O tipo de história que faria as delícias de Hitchcock.

quarta-feira, novembro 05, 2003

Singelas contribuições para o meu daltónico auto-conhecimento
Terei descoberto um surpreendente padrão no meu irregular consumo de revistas. Já não bastava ter chegado à conclusão que afinal orientava-me muito mais pelos gostos da maioria do que aquilo que julgava, e agora sinto-me como um chimpanzé a fazer um teste de Pavlov... Vi nas bancas a Maxmen (ex Maxim, ex Super Maxim) e senti logo o impulso de a comprar... Autêntico reflexo condicionado, comprei-a.
Tenho em casa, guardadas naquela pilha de revistas que são para guardar, os números anteriores das Maxmens compradas e que pretendo preservar para a posterioridade. Foi naquela molhada que descobri que, pondo de parte as revistas que traziam na capa a Mónica Belushi e a Denise Richards, comprei todas aquelas que prometiam mais fotos duma qualquer loira seminua no seu interior! Sendo consumidor mais ou menos regular da revista, falhei no entanto os números que, agora concluo, traziam na capa fotos de morenas ou ruivas... Se na capa vinha uma loira, foi comprada de certezinha absoluta (tirando a que trazia na capa a Alexandra Fernandes, pouco apelativa).
Confesso que nunca julguei que teria uma preferência assim tão evidente... Sempre detectei beleza em todo o corpo sobejamente feminino, independentemente da cor do cabelo, da pele, do batôn ou da altura dos sapatos de salto alto. Longe de mim recusar liminarmente qualquer tipo de contacto explicitamente mais estreito com não loiras, avesso a superstições que sou, e nunca me pareceu lógico fazer qualquer tipo de discriminações generalistas entre loiras e morenas. Há morenas feias e bonitas, assim como há loiras e ruivas e por aí fora. O que é feio e bonito é naturalmente relativo a cada apreciador que por sua vez não tem nem loira nem morena, antes sempre cinzenta, aquela parte do cérebro onde se registam as suas preferências e referências volumétricas.
Mas perante aquelas provas de compra, assumo a minha involuntária preferência: Este gajo prefere as loiras sim senhor, seminuas!... E todo o restante universo feminino, bem vestido ou bem despido, consoante... A beleza agasalha-se, esconde-se em lugares por demais visíveis...

terça-feira, novembro 04, 2003

Os efeitos acústicos da bola de cimento
Para o caso de ainda ninguém se ter apercebido, vamos ter mais 4 longos anos de altamente provável jejum no Benfica. Luís Filipe Vieira ganhou as eleições com uma vantagem, diria, escandalosa. Foi um grande feito da arquitectura e da construção civil portuguesas.
...
Mais extraordinária ainda é a acústica da grande obra. Diz quem já assobiou no novo estádio, que é espectacular o efeito ‘surround’ 65000:1.
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Depois de ganhar é fácil prometer: “500 mil sócios em 3 anos”. Exagero ? Claro! Mas fonte ligada ao presidente já veio esclarecer que a promessa não se referia a “sócios” mas sim a “500 mil sacos”... de cimento. Prevê-se a construção de diversas monumentais casas do Benfica. A TVI já assegurou o exclusivo das inaugurações.
...
Entretanto fala-se já na comercialização de capacetes de obras oficias do Benfica com o respectivo logotipo afixado na parte da frente. Ao contrário dos verdadeiros, estes não serão de uso obrigatório, assegurou fonte ligada ao estaleiro benfiquista.
...
A direcção encarnada prevê também a comercialização de martelos oficiais do Benfica, que utilizados no final dos jogos contra o respectivo capacete, criarão um também espectacular efeito acústico. Há que explorar as potencialidades do novo estádio, substituindo-se assim o pouco ruidoso velho ritual do pano branco, um reconhecido plágio do 13 de Maio.
O ultimo escritor do mundo #1
Por vezes chegam-nos livros de quem menos se espera: Saddam Hussein, "Zabiba e o Rei", publicado na colecção "Contemporânea" da Europa-América.-

segunda-feira, novembro 03, 2003

Passatempo da Idade Média
Porque é preciso não esquecer, fica aqui o desafio, associar-se o nome à obra de alguns dos maiores facínoras da história, muitas vezes injustamente esquecidos:

A. Papa Pio XXII
B. Papa Nicolau V
C. Papa Inocêncio VIII
D. Papa Paulo III
E. Papa João XXII

1. Reforçou a autoridade inquisitorial em 1450.
2. Elaborou a Bula que ordenava às autoridade seculares cooperação total com os inquisidores, concedendo à Inquisição poderes judiciais e executivos em assuntos de heresia e bruxaria.
3. Apercebendo-se do potencial remunerativo que a caça à ‘bruxaria’ traria aos cofres da igreja, concedeu poder formal à Inquisição em 1320.
4. "Mediante 80 soldos pagos à Santa Sé, consentia que os leigos dormissem com as mães e irmãs, e por pouco mais os pais com as filhas; permitia ainda aos diáconos o assassínio com as condições de darem 240 soldos; aos bispos e aos abades um pouco mais abonados, o direito de apunhalarem o semelhante, se dessem 300 libras."
5. Passava o melhor do seu tempo a gerar filhos, que depois elevava a cardeais.
(solução: A.3 – B.1 – C.2 - D.5 - E.4)

quinta-feira, outubro 30, 2003

'Se quizerem um sorriso comprem primeiros os dvd's dos meus filmes!'Ícone 7.0
Denise Richards personifica num só precioso canastro toda uma vasta panóplia de imagens típicas que desde sempre nutriram o imaginário de qualquer bípede agora com idade para usar uns ray-bans. Ela é a típica cheerleader, a típica filha mais nova do nosso chefe, tem os típicos lábios, um cabelo típico, a típica gaja irresistível mas que nos faria hesitar e pedir-lhe primeiro o BI para confirmar a maioridade, a típica actriz que pouco mais terá para além do sorriso bonito (mas e quem quer mais ?!), ela é o mais aproximado que os americanos conseguem ter da típica Laetitia Casta.
E se pensam que o filme onde ela aparece em melhor estado de degustação visual é o “Wild Things” (filmezinho medíocre por sinal), estão selvaticamente enganados. A pequena aparece em grande forma em “Undercover Brother”, um filme de ‘blacks’ com alguns gags de se lhe tirar o chapéu e uma Denise de se lhe tirar aquela justinha farpela branca.

quarta-feira, outubro 29, 2003

'Fui ontem ao Vidal Sassoon!'Reflexões sobre o espantosamente belo
Na realidade um interior espantosamente belo não existe. Apenas a beleza exterior pode-o ser.
*
Quando se fala do espantosamente belo, estou em sintonia com os gostos universais da maioria. Por maior que seja o fosso social e cultural que nos separe, a gaja que povoa o imaginário do pedinte da esquina ou daquele gajo que vai a ler o "Record" e a coçar as meias brancas, é a mesmissima gaja que povoa o meu. Dada a minha alergia ás maiorias, isto ás vezes dá-me que pensar...
*
Um mais ou menos mal disfarçado mau feito pode conferir à distinta proprietária do mesmo muita sensualidade (proporcional aos atributos fisicos visivelmente evidentes), criando num gajo a necessidade diria que cristã, de transformar a vítima num objectivo que a todo o custo necessita ser conquistado e exorcizado, conduzido para o lado do bem.
Ideia do diabo
"As pessoas espantosamente belas raramente são boas, pela simples razão de que não precisam de o ser.", in "Eu, Lúcifer", Duncan, Glenn, Ed. Europa América

segunda-feira, outubro 27, 2003

Orgulho nacional
O Benfica inaugurou um grande estádio no meio de muita lama.
O estádio é bonito à vista, mas transmite a imagem duma equipa e dum país que infelizmente não existem. E mostrada a obra, o deslumbre tudo faz esquecer, sobrando unanimemente elogios vindos até de onde e para quem menos se esperaria.
Vieram-me á memória as grandes pirâmides do Egipto, aquelas obras megalómanas e milenares construídas no meio de nada, no deserto, à custa da exploração do homem pelo homem, que é como quem diz, do escravo pelo faraó. Por muita beleza que encerrem estas e outras maravilhas, não consigo deixar de esquecer a que preço foram erguidas, nem deixar de reflectir sobre a pequenez que está afinal na origem das mesmas...
Na melhor das hipóteses teremos estádio para 50 anos e ego ridiculamente inchado por pouco mais de meia dúzia. Muito pouco para tanto milhão, muito para tão pouca equipa cujo parco futebol mal chega para encher uma capelinha quanto mais uma catedral.-
*
Com tanto desequilibro orçamental, Durão Barroso só por milagre também não se desequilibrou quando se preparava para falar aos orgulhosos Benfiquistas.
A malta cumpriu com o seu decibélico dever de apupar políticos e dirigentes que não os da casa. Durão, no top, sorriso tosco mas sincero, lá se conseguiu equilibrar num discurso macio e com a serenidade de quem sabe que por mais assobio que se oiça, não passará disso, de assobio. Como se viu, é perigosamente fácil a um político pôr benfiquistas a bater palmas .
*
Foi um fim de semana em grande. Depois da festança de Sábado á noite, no Domingo Marcelo da TVI respondeu com muita pinta a um dos Pedroso Bros. Bem encenado o displiscente pormenor aquele de ter deixado quase para o fim a resposta à carta indignada. Afinal na própria carta arranjou o professor ainda mais lenha para quem se quisesse queimar. Atrevo-me a colocar Marcelo na galeria dos meus orgulhos nacionais, a par da Voxx, Mão Morta e Ena Pá 2000.

quinta-feira, outubro 23, 2003

Grande maralha da China!“Hero”
Ao contrário desta minha sazonal gripe que me força a escrever e a conectar-me de casa, não é normal constipar-me com filmes, engripar-me com quaisquer dramas passionais, emocionar-me, por mais dramáticas que sejam as histórias que polvilham o imaginário e arquitectam os protótipos dos "sentimentos puros". A minha resistência a Shakespeare de algum modo sempre me envergonhou, acusando-me de falta de sensibilidade, de ausência de romantismo.... Mas sempre me pareceu a mim que em todas aquelas histórias passionais havia sempre alguma coisa menos impoluta nas relações, nas personagens. Muitas histórias de amor acabavam mal porque infligiam sofrimento atroz e insuportável a terceiros, cujos dramas também não deixavam de inspirar em mim compaixão e compreensão.
Temos tentações inatas para construir becos sem saída mas também a habilidade de estarmos sempre alerta e sabermos construir pelo menos uma saída de emergência. E essas vítimas dos amores impossíveis, proibidos ou condenados, sob a desculpa da loucura do amor e da paixão, sempre ignoraram a eventualidade da coisa dar para o torto.
Ou seja, não havia personagem alguma imaculadamente isenta de algum pecadilho ou defeito de fabrico, ainda que impreceptível, mas sempre oriundo desse lugar lúgubre que é a natureza humana. Ora isso sempre activou em mim um processo de desmistificação, um exercício inconsciente algo cruel para com o aparentemente sublime. Em todas as histórias, inventava interiormente alguma desculpa para a tragédia que surgia afinal como corolário lógico, “estavam mesmo a pedi-las!”. Acreditava que cada final, por mais infeliz que fosse, era afinal merecido, espécie de justiça divina que o agiota contador da história secretamente aplicava para, causa primeira, choque e sofrimento maior de quem lê, eficácia portanto, causa segunda e directamente relacionada com a primeira, poder com isso lucrar... As histórias de final feliz levava-as o vento ou prendia-as a inveja. Temos muito mais tendência para ficar a remoer uma injustiça e consolarmo-nos na desgraça alheia.
Shakesepeare de lado, histórias de amor do cinema moderno à parte, (“Paris Texas” ?! uma comédia!), dramalhões de novela à distancia, o drama bem português, logo, diversamente ficcionado, historiado e especulado, de “Pedro e Inês”, sempre suscitou em mim uma anormal consideração, pelo menos na sua versão mais corrente e romântica. Aquela coisa de se arrancarem os corações pelas costas, aqueles beijos em cadáveres em decomposição, tudo aquilo dava um excelente filme gore! Mas além disso, aquele drama, história de amor casto e cristalino, assim relatada, sempre me tocou deixando-me algo desconfortável perante a injustiça, a pureza dos personagens vítimas, em claro contraste com as personagens carrascas das nossas vidas, e a vileza dos terceiros da história, movidos apenas por um paranóico e deplorável medo de perder o poder. Ora isto fazia automaticamente de mim um gajo afinal normal e não um monstro insensível como pintava este pintor de auto-retratos. Havia aqui algures uma réstea de sentimento e solidariedade pelo drama passional, algures uma lágrimazita espreitava ainda que logo de seguida se recolhesse para o sítio de onde viera. Pedro e Inês, bela e inspiradora história de amor, o romance ideal, sem traições e com sacrifícios, e lá está, um final infeliz, senão provavelmente nunca teria chegado aos nossos ouvidos como milhentas outras histórias que as haverá, de reis e rainhas, filhos e primos, com paixonetas secretas, que amores tão ou mais sublimes e intensos viveram e a sacrifícios também obrigados foram sujeitos, mas porque tiveram desfecho feliz “olha acho que já não sinto nada por ti, Que coincidência, eu também!”, nem à história passaram.
Recentemente
, ouvi na Voxx, um brasileiro que em entrevista a um programa da especialidade (quartas, 21-22) dizia-se percorrer o mundo, e agora em Portugal, estudioso do homossexualismo neste país pai durante a idade média, adiantou números de perseguidos, torturados e condenados à morte pela inquisição, acusados de tais práticas desviantes, e lançou à baila o nome dum rei português reconhecido sodomita (lamento não fixei o nome) e ainda o nome de Pedro, o da Inês. Teria sido afinal bissexual o então príncipe, ao que parece, antes, durante e após Inês. Ora não sei como, expliquem-me, porque apesar desta minha tolerância pelas diversas inclinações sexuais, formas diferentes de amar ou saciar o desejo sexual, fenómenos cujas explicações só a cada um dizem respeito, se não vejo naquela história senão outra mácula, como é possível, após ter tomado conhecimento desta novidade histórica, pequeno detalhe, como é possível que todo o significado, todo o esmagador poder dramático da história de Pedro e Inês e a revolta que inspira, se tenha desvanecido quase por completo ? Hoje apetecia-me dizer que tomara não ter sabido aquele pormenor escondido da vida do, então não duvido, pervertido Pedro, tomara que ele tivesse sido fiel e heterossexual, coisa rara eu sei, mas mesmo por isso, contra a banalização do humanamente vulgar, tomara que continuasse a existir dentro de mim aquele respeito pela arrebatadora história de Pedro e Inês. É que por mais corações despedaçados pelo destino ou arrancados pelas costas, por mais sangue e lágrimas que o dramalhão protagonizado por um bissexual meta, não terá a mesma cor e tempero duma história de amor heterossexual, sem adultério (Ou com adultério também podia ser, veja-se “a insustentável leveza do ser”, o quão de traição não há por ali, o quão apaixonante é a história, o quão com ela se identificou toda uma geração e outras inspira.)
E com isto, pretendia eu falar de “Hero”, um filme chinês produzido por americanos, que, atrevo-me a dizer, tem a mais bela história de amor de sempre contada pelo cinema. Não é normal, mas já vi o filme 4 vezes em quinze dias, e das 4 vezes emocionei-me, descontrolei-me.
Neste momento choro dos olhos, mas é da gripe.

segunda-feira, outubro 20, 2003

The Ferro Sindrome
Pode efectivamente Ferro Rodrigues ter razão, e estar a ser alvo do populismo. Como é sabido, diz a vox populis que “a natureza é uma imensa casa de banho.” Mas, convenhamos, o segredo de justiça não fica atrás de nenhum pinheiro, não é nenhuma moita, nenhum arbusto, onde se possa cagar numa aflição! A meu ver, o caso de Ferro poderá ser do foro meramente clínico. Ponham os psiquiatras a falar dos políticos! Já alguém levantou a hipótese do líder do PS sofrer do Síndroma de Tourette* ?
* Desordem neurológica caracterizada por vocalizações involuntárias e compulsivas de obscenidades (Giles de la Tourette, neurologista francês, 1857-1904)

sexta-feira, outubro 17, 2003

Encontro de blogs #1
Estive a beber sumo de laranja e a comer amendoins no lançamento do livro do Paulo Querido sobre o universo blog (blogoesfera®) nacional. O evento do Mercado da Ribeira/Livro serviu de pretexto para reunir um considerável grupo de pessoal dos blogs que respondeu ao apelo do desde já promissor ‘guru’. Querido teve a gentileza de referir que depois de concluído o livro já tinha tido conhecimento de mais meia dúzia de blogues importantes que não estariam, infelizmente, mencionados na obra. Foi o único momento em que nitidamente senti o ego amaciado.
De resto, estiveram presentes o mais novo e o mais velho blogueiro (em idade conforme b.i., fez-se história), não houve nenhuma aparição de vulto (havia expectativa quanto à aparição do Pipi. Se apareceu não sei, não sou pastorinho!) e o livro custava 13 euros (não há milagres!). O sumo estava demasiado ácido, pouco diluído, não provei as passas e já não estive presente na sessão de autógrafos.
® Blogoesfera é um blogotermo blogoinventado pelo Blogopacheco Blogopereira.
The Marcelo Sindrome
Ainda do pessoal e transmissível da TSF, desta vez o professor Marcelo Rebelo de Sousa, há já algum tempo atrás, desvendava o mistério que fazia vir ao de cima o lado mais matemático de Pacheco Pereira: Confessava Marcelo que, como não tinha tempo, lia na diagonal a maior parte das dezenas de livros que sugeria semanalmente aos domingos na TVI.
Ocorreu-me agora que para promover junto de Marcelo os seus livros, seria óptima ideia os editores imprimirem edições especiais na diagonal. Facilitaria muito a vida e o pescoço do professor.

quinta-feira, outubro 16, 2003

The Freitas Sindrome
Freitas do Amaral será provavelmente o menos Português dos Portugueses. Por mais que tente, não consigo imaginá-lo a beber uma cervejola pela garrafa ou comer com os dedos uma sardinha assada em cima dum bom naco de pão Alentejano. Já consigo, por exemplo, imaginar Jorge Sampaio na mesa duma tasca a jogar dominó com o Almeida Santos, queixando-se ambos do fumo que Mário Soares faz a fumar mata-ratos, e com Durão Barroso a servir ‘copos três’ atrás do próprio balcão da tasca.
É importante sentir-se que aquele em que se vota, podia, ainda que muito remotamente, ser um dos nossos. Por ventura, o relativo insucesso na vida política de Freitas dever-se-á a esta falta de identificação que o povo votante sempre sentiu por ele. Lembremo-nos que o homem perdeu, salvo erro, duas corridas à presidência, teve vários desaires eleitorais e nas mãos um partido à beira da extinção tendo depois arrepiado caminho. Teve reconhecimentos naturalmente, mais visível quando esteve lá longe, na ONU, a muitas portas e gabinetes de diplomatas de distancia da populaça, mais louvável agora, como dramaturgo.
Dizia o dramaturgo numa recente entrevista dada a Carlos Vaz Marques da TSF, que era a favor da instituição dum Senado, algo assim paralelo à já ressonante assembleia da republica, mas mais calminho, supostamente para, nas suas palavras, tirar mais valias de centenas de homens e mulheres ligados ao estado mas sem intervenção política, e que, daquela forma sentada, muito poderiam dar à nação! Freitas a léguas de distancia do estado de espirito nacional, ainda acredita em contos de fadas e pior ainda, numa maior politização do Estado, já de si superlotado, reforçando a percentagem de políticos sentados, indo buscando homens e mulheres que, onde quer que a esta hora estejam, serão porventura úteis e darão menos chatices.
Mas o cumulo do distanciamento de Freitas em relação ao cidadão comum acontece quando a certa altura aponta um dos sinais que evidenciam a sua velhice. Se qualquer português, começa a notar os seus sinais de idade quando repara já não conseguir chamar nomes ao arbitro com a mesma pujança com que o fazia noutros tempos, Freitas diz estar velho porque “agora conhece todos os ministros mas (oh!!) não conhece nenhum secretário de estado (ohh!!)”, ao contrário de outros gloriosos tempos em que conhecia aquela maralha toda.
É comovente imaginar alguém envelhecer assim. Mas é nesta amarga angustia, atacados deste síndroma, que envelhecem os políticos. Chega o dia em que nem ministros já conhecem, depois nem o primeiro ministro, o presidente da republica... Morre-se na mais profunda das solidões, rodeado apenas da família.

terça-feira, outubro 14, 2003

My favorite fetish dreams #1
Eu sou paquete num hotel de luxo e sigo num elevador daqueles com paredes almofadadas em veludo vermelho, levando nas mãos uma bandeja com dois copos e uma garrafa de Martini. Abre-se a porta do elevador e entram a Manuela Ferreira Leite do PSD e a Ana Gomes do PS, e perguntam uma á outra se não se conhecem de algum concurso de misses. Depois começam a discutir sobre quem seria a mais bela e teria mais sinais que evidenciariam uma pessoa do sexo feminino que decidira dedicar a sua vida à política. Por volta do 134º andar, perguntam-me a minha opinião. Eu entretanto já tinha bebido a garrafa de Martini, encontrando-me caído no chão em coma alcoólico. No hospital, mal retomo consciência e abro os olhos, vejo a cara de Ferro Rodrigues e por momentos julgo estar no Inferno. Ele diz-me que estou despedido e só então me apercebo que estou com um hálito péssimo e que deveria ter escolhido outra profissão. Entretanto, num quarto de hotel, a Marisa Cruz, sozinha, desespera pelo Martini com paquete incluído que pediu há horas e resolve ingressar numa equipa de rugby feminina.
Irrespirável
Precisamente neste momento, na Cidade do México, alguém compra por 1 euro uma máscara com 1 minuto de ar puro.
Precisamente neste momento...
Larguem-lhe as canelas!
(novos PS - Provérbios Suaves)

O testemunho do menino é sempre mais falso que o meu.
Quem se mete com crianças, acorda deputado.
Tudo a seu tempo, e os nabos no parlamento.
Melhor uma mentira que dura, que uma verdade que fere.
Apanha-se menos depressa um pedroso que um coxo.
Deputados passados não comem meninos.
Quem com ferro conta, com ferro será absolvido.
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