Lojas do chinês: o meu veredicto
Não tenho o espirito activista que norteia as associações que aguerridamente defendem os direitos dos consumidores. A própria palavra “consumidor” assusta-me e é vista por mim mais como uma maldição do que como esse adjectivo que afinal de forma implacável traduz a nossa condição por estes dias, aquilo que todos somos, cada vez mais, meros consumidores, desde afectos aos últimos modelos da swatch.
Defender o “consumidor” cheira a defender o “consumismo” e por isso penso que a questão deve ser antes atacada que defendida, atacando-se portanto quem fomenta o consumismo ao desbarato.
Assumindo no entanto esta realidade incontornável, a de que somos todos, e cada vez mais, antes resignados consumidores que cidadãos alertados, decidi fazer um vasto estudo tipicamente ‘consumista’ acerca das “Lojas dos Trezentos”, essas instituições respeitadíssimas, que me habituei a frequentar sempre que tinha que fazer tempo antes duma ida ao dentista ou quando tinha que comprar prendas de natal para os colegas.
É com algum desalento que tenho vindo a constatar o desaparecimento gradual deste tipo de lojas que assumiam verdadeiramente o seu preço e vocação no próprio nome. Assumiam uma honestidade e um comunismo nos preços únicos, uma excelente relação preço ridículo / qualidade dúbia que a todos tranquilizava, quando se sabia que entre lojas, sendo sempre o mesmo preço, não haveriam grandes discrepâncias, ou seja, dificilmente as pessoas se sentiriam ludibriadas até porque nem sequer se davam ao trabalho de comparar preços.
As coisas têm vido a alterar-se, a começar pelo próprios nomes das lojas, cada vez mais pretensiosos, pelos produtos exibidos nas suas prateleiras, cada vez mais inacessíveis ao consumidor teso comum, pela sensação de insegurança e desconfiança que transmitem ao consumidor tal a variedade afinal de preços.
Quando os chineses viram o Mc Donalds e outros similares ameaçarem a sua multiplicação na área da restauração, decidiram arrumar os wooks e deslocar parte do seu core business para a versão chinesa das “lojas dos trezentos”. Surgiram assim as famosas “lojas dos chinês”, que de imediato começaram a proliferar um pouco por toda a cidade, trazendo com elas uma vasta panóplia de produtos típicos da barata mão de obra chinesa e que rapidamente substituíram os bibelots típicos da velha pechincha portuguesa.
Ainda assim, algo que as lojas dos chineses trouxeram de bom foi a assumida concorrência entre chineses, provavelmente entre continentais e taiwaneses. Daí, um bom consumidor de artigos supérfluos como o são 94,5% dos que este tipo de loja oferece, tem que estar atento ás oscilações dos preços dum mesmo produto entre lojas de diferentes chineses, oscilações essas que em certos casos chegam a ser escandalosas.
No sentido de concretizar o meu estudo, iniciei uma série de visitas sempre a dias e horas diferentes a 4 (quatro) “A lojas do chinês” ao calhas. E a seguir, seguem as conclusões do meu estudo, as minhas compras na loja do chinês de Campo de Ourique, que em boa hora incluí neste estudo, que é indubitavelmente a minha “ESCOLHA ACELTADA”, superando todas as outras lojas em quase todos os domínios, variedade, arrumação, asseio, sotaque e, nomeadamente, quanto ao preço. Entre parêntesis acrescento a cada item o preço médio verificado nas outras três lojas do chinês.
As minhas compras na “Loja do Chinês” – delegação Campo de Ourique
- 1 sofisticado porta-chaves / cadeado em prateado com mecanismo incorporado de abertura através de uma combinação de 3 algarismos (999 combinações possíveis), em metal especial e inviolável, pelo invejável preço de 2€ (não havia à venda noutra loja)
- 1 ultra-resistente barra de torção (equipamento de musculação), com molas helicoidais em aço inoxidável, tratamento anti-ferrugem e pegas em borracha para máxima aderência e conforto, por apenas 8€ (9€)
- 1 termómetro de alta precisão e de dupla graduação em graus centigrados e farenheit, em mercúrio vermelho e puro, com base em madeira natural e adaptador para prego de parede, por apenas 1€ (2€)
- 1 pack de dois fabulosos baralhos de cartas tipo ‘magic’ mas com soberbas ilustrações coloridas e reflectoras, oriundas do universo manga japonês por apenas 4€. (5€)
- 1 hipnotizante imagem de nosso senhor jesus cristo com um coração brilhante nas mãos, ladeado por nossa senhora com a mesma clonada coisa nas mãos, imagem emoldurada numa requintada imitação em ouro, com efeitos especiais de luz e movimento psicadélicos, funcionando a electricidade e com 1 ano de garantia, pelo milagroso preço de 12,5€ (16,75€)
- Estive tentado mas não comprei, uma bola de borracha anti-stress com a forma de um seio feminino (peça de invulgar requinte garanto-vos, que ficaria sempre bem à mão, dentro da gaveta da secretária).
Como se pode verificar, estas compras, efectuadas na “Escolha Aceltada”, num total de 27,5€, resultaram numa economia de 7,25€, o que me deixou, e deixaria quem quer que fosse, histérico de alegria.
Como não quero estar a ser injusto para com as outras lojas do chinês, onde apesar de incógnito teso do costume fui sempre bem recebido com todos os ‘éles’, apresento agora os pontos fortes de cada uma, sugerindo aos ávidos consumidores que se dirijam as mesmas, caso estejam especificamente interessados nos produtos em apreço.
- Loja do chinês do Rato (produtos kitsh, pop-art, limpeza e menage)
- Loja do chinês do Camões (produtos de papelaria, doçaria e carteiras de senhora)
- Loja do chinês de Alvalade (chinezices genéricas e ferramentas e bricolage)
- Loja do chinês de Campo de Ourique (gadjets, relojoaria e tudo o mais)