quinta-feira, novembro 20, 2003

Idiotas

De temps-en-temps devíamos parar para pensar, reflectir seriamente sobre o nosso estado, se não estamos a ficar assim. Procurar esses sinais mais ou menos evidentes e tentar corrigir, inverter a tendência. É cada vez mais fácil tornarmo-nos nuns, num processo gradual e invísivel que nos passa despercebido, assim como passa aos outros porque estão como nós. Deveria ser instituído um dia nacional contra a idiotia. Pelo menos, uma vez por ano...

quarta-feira, novembro 19, 2003

Prêt-a-porter

Há pessoas vestidas que mesmo que lhes aparecesse pela frente a felicidade toda despida, nunca saberiam o que fazer com ela.

terça-feira, novembro 18, 2003

Inoculação

Pior que as gripes, aproxima-se perigosamente a época das greves. Já me preparei para não fazer nenhuma! Mas que fique bem claro, não sou um fura-greves.
Estão a ver aquele tipo que trepa pelo portão fechado a cadeado, querendo ir cumprir o seu dever laboral e contribuir com a sua microscópica parte para o futuro e progresso da nossa grandiosa civilização? Sou eu. Sou eu, contra estas greves, salto o portão para mais um dia de trabalho que é para isso que cá ando, que cá me puseram, um dia atrás do outro, eu, sozinho se for preciso, até vir o fim da paciência ou o fim do mês, que felizmente chega sempre primeiro. Sou o único a furar a greve ? Sim sou o único, mas isto não é greve que furo, digo e volto a dizer que não sou a vergonha da classe. Se acham que sim, que se lixe, não percebem nada disto! Greves para quê ?! Eu não faço greves. A greve é coisa do século ante-passado e provoca-me alergia agora nestes Invernos do Século XXI. As greves agora são peças de colecção para os sindicato e um alívio para as finanças públicas (umas grevezinhas agora davam jeito não era senhora ministra das finanças e restante séquito?). O que não se faz hoje, faz-se amanhã, o que não se fez nunca, far-se-á algum dia. Muito litro de gasóleo se vai poupar, muita electricidade, telefone e água do público e de algum privado, muito dia de ordenado. Mais uma bolha de oxigénio para o déficit asfixiado.
Ninguém faz greve, todos brincam ás greves. Eu não gosto desta brincadeira, não brinco. Todas a gente sabe que quem manda nisto tudo são os senhores Sony, Microsoft, Samsung, Hollywood, Benfica, Honda, (Sr. Honda como está ? Há muito tempo que não lhe compro um carrinho! Mas a culpa não é minha sabe...) e outros ou ninguém sabe ? Saibam então que esses é que são os nossos verdadeiros patrões, e são mais que as mães, e os Durões e Bagões todos juntos. Se pensam que lixam este par de enfeites desenganem-se, que a culpa deles vale alguma coisa mas não o suficiente para valer os nossos dias de ordenado perdido.
A greve deste século é a greve ao consumo e não ao trabalho. Que sofrimento, caraças, já se imaginaram passar um mês sem comprar nada de verdadeiramente inútil ?... Nem quero pensar!.. Mas o que é uma greve sem algum sacrifício ? Destas é que não. São fáceis de fazer, são uma brincadeira. Não se vai trabalhar e já está. No dia seguinte trabalha-se outra vez, e tudo continua a estar pior, todos julgarão estar de mãos lavadas.

segunda-feira, novembro 17, 2003

Agora vais-me dizer o que vês nesta imagem #1

- Se eu não lhe acertar na testa, acerta-lhe tu nos respectivos testículos!Vejo o Harrison Ford armado com um pistola que parece verdadeira, apontando-a para alguém. E por detrás dele, o mais novo Josh qualquer coisa, na mesma pose.
De geração em geração. Um gajo com uma pistola na mão parece logo outra coisa.

sexta-feira, novembro 14, 2003

Amizade, uma versão
Num destes domingos de Outono, Domingo bonito de sol, daqueles que vingam um Sábado chuvoso, que nos resgatam de um fim de semana de sofá, quando passeava calmamente entre a lama, entre a gritaria dos feirantes, apertado com os encontrões das mulheres febris de mãos cheias de slips e sutiens mais baratos à meia-duzia, fui abordado por um indivíduo de etnia cigana (como gosto deste equilibrismo que faço para não dizer simplesmente “um cigano”) que se propunha vender-me um Breitling por 10 euros. Ora, “um Breitling é um relógio de pulso que custa nas ourivesarias, o mais barato, á volta de 1000 euros”, pensei eu. “Posso ver?”. E pude ver-me introduzido, para grande desilusão minha, não no excitante universo da receptação como esperava, antes no inútil universo das réplicas perfeitas dos relógios de luxo onde “só os ponteiros grandes funcionam e os outros são para enfeitar”. “Mas oh senhor, quem o ver não vai reparar nisso.” E mostrou-me outras marcas e modelos, mais caros, com maior requinte na imitação, mas os mesmos ponteiros pequenos, os cronómetros, os indicadores dos dias, da reserva de marcha, parados... “Os seus amigos vão pensar que é verdadeiro!”.

quinta-feira, novembro 13, 2003

Sinal dos tempos #2732

Adeus "Mundo Encantado dos Brinquedos do Continente"! Bem vindos ao "Palácio Encantado..." Quatro paredes sempre são mais seguras, menos turbulentas que o "mundo". Um Natal mais aristocrata portanto.

quarta-feira, novembro 12, 2003

Lojas do chinês: o meu veredicto
Não tenho o espirito activista que norteia as associações que aguerridamente defendem os direitos dos consumidores. A própria palavra “consumidor” assusta-me e é vista por mim mais como uma maldição do que como esse adjectivo que afinal de forma implacável traduz a nossa condição por estes dias, aquilo que todos somos, cada vez mais, meros consumidores, desde afectos aos últimos modelos da swatch.
Defender o “consumidor” cheira a defender o “consumismo” e por isso penso que a questão deve ser antes atacada que defendida, atacando-se portanto quem fomenta o consumismo ao desbarato.
Assumindo no entanto esta realidade incontornável, a de que somos todos, e cada vez mais, antes resignados consumidores que cidadãos alertados, decidi fazer um vasto estudo tipicamente ‘consumista’ acerca das “Lojas dos Trezentos”, essas instituições respeitadíssimas, que me habituei a frequentar sempre que tinha que fazer tempo antes duma ida ao dentista ou quando tinha que comprar prendas de natal para os colegas.
É com algum desalento que tenho vindo a constatar o desaparecimento gradual deste tipo de lojas que assumiam verdadeiramente o seu preço e vocação no próprio nome. Assumiam uma honestidade e um comunismo nos preços únicos, uma excelente relação preço ridículo / qualidade dúbia que a todos tranquilizava, quando se sabia que entre lojas, sendo sempre o mesmo preço, não haveriam grandes discrepâncias, ou seja, dificilmente as pessoas se sentiriam ludibriadas até porque nem sequer se davam ao trabalho de comparar preços.
As coisas têm vido a alterar-se, a começar pelo próprios nomes das lojas, cada vez mais pretensiosos, pelos produtos exibidos nas suas prateleiras, cada vez mais inacessíveis ao consumidor teso comum, pela sensação de insegurança e desconfiança que transmitem ao consumidor tal a variedade afinal de preços.
Quando os chineses viram o Mc Donalds e outros similares ameaçarem a sua multiplicação na área da restauração, decidiram arrumar os wooks e deslocar parte do seu core business para a versão chinesa das “lojas dos trezentos”. Surgiram assim as famosas “lojas dos chinês”, que de imediato começaram a proliferar um pouco por toda a cidade, trazendo com elas uma vasta panóplia de produtos típicos da barata mão de obra chinesa e que rapidamente substituíram os bibelots típicos da velha pechincha portuguesa.
Ainda assim, algo que as lojas dos chineses trouxeram de bom foi a assumida concorrência entre chineses, provavelmente entre continentais e taiwaneses. Daí, um bom consumidor de artigos supérfluos como o são 94,5% dos que este tipo de loja oferece, tem que estar atento ás oscilações dos preços dum mesmo produto entre lojas de diferentes chineses, oscilações essas que em certos casos chegam a ser escandalosas.
No sentido de concretizar o meu estudo, iniciei uma série de visitas sempre a dias e horas diferentes a 4 (quatro) “A lojas do chinês” ao calhas. E a seguir, seguem as conclusões do meu estudo, as minhas compras na loja do chinês de Campo de Ourique, que em boa hora incluí neste estudo, que é indubitavelmente a minha “ESCOLHA ACELTADA”, superando todas as outras lojas em quase todos os domínios, variedade, arrumação, asseio, sotaque e, nomeadamente, quanto ao preço. Entre parêntesis acrescento a cada item o preço médio verificado nas outras três lojas do chinês.

As minhas compras na “Loja do Chinês” – delegação Campo de Ourique

- 1 sofisticado porta-chaves / cadeado em prateado com mecanismo incorporado de abertura através de uma combinação de 3 algarismos (999 combinações possíveis), em metal especial e inviolável, pelo invejável preço de 2€ (não havia à venda noutra loja)
- 1 ultra-resistente barra de torção (equipamento de musculação), com molas helicoidais em aço inoxidável, tratamento anti-ferrugem e pegas em borracha para máxima aderência e conforto, por apenas 8€ (9€)
- 1 termómetro de alta precisão e de dupla graduação em graus centigrados e farenheit, em mercúrio vermelho e puro, com base em madeira natural e adaptador para prego de parede, por apenas 1€ (2€)
- 1 pack de dois fabulosos baralhos de cartas tipo ‘magic’ mas com soberbas ilustrações coloridas e reflectoras, oriundas do universo manga japonês por apenas 4€. (5€)
- 1 hipnotizante imagem de nosso senhor jesus cristo com um coração brilhante nas mãos, ladeado por nossa senhora com a mesma clonada coisa nas mãos, imagem emoldurada numa requintada imitação em ouro, com efeitos especiais de luz e movimento psicadélicos, funcionando a electricidade e com 1 ano de garantia, pelo milagroso preço de 12,5€ (16,75€)
- Estive tentado mas não comprei, uma bola de borracha anti-stress com a forma de um seio feminino (peça de invulgar requinte garanto-vos, que ficaria sempre bem à mão, dentro da gaveta da secretária).

Como se pode verificar, estas compras, efectuadas na “Escolha Aceltada”, num total de 27,5€, resultaram numa economia de 7,25€, o que me deixou, e deixaria quem quer que fosse, histérico de alegria.
Como não quero estar a ser injusto para com as outras lojas do chinês, onde apesar de incógnito teso do costume fui sempre bem recebido com todos os ‘éles’, apresento agora os pontos fortes de cada uma, sugerindo aos ávidos consumidores que se dirijam as mesmas, caso estejam especificamente interessados nos produtos em apreço.
- Loja do chinês do Rato (produtos kitsh, pop-art, limpeza e menage)
- Loja do chinês do Camões (produtos de papelaria, doçaria e carteiras de senhora)
- Loja do chinês de Alvalade (chinezices genéricas e ferramentas e bricolage)
- Loja do chinês de Campo de Ourique (gadjets, relojoaria e tudo o mais)

segunda-feira, novembro 10, 2003

Chico-Espertismo ligado a si
A PT foi condenada pelo Supremo Tribunal de Justiça a devolver quantias ilegalmente cobradas aos (todos) seus clientes durante o ano de 1999. No mundo perfeito dos administradores e accionistas da PT, não existiam nem concorrência, nem associações de defesa dos consumidores e muito menos tribunais a dar-lhes razão. Mas paciência... Felizmente, como não guardaram as facturas dos seus consumidores referentes àquele ano, terão de ser os próprios interessados a apresentá-las se quiserem reaver o SEU dinheiro ilegalmente surripiado. Felizmente, ainda, para eles, em boa hora tiveram a esplendida ideia de devolver aos consumidores lesados e com as facturas religiosamente guardadas, não o dinheiro como moralmente deviam, antes o equivalente em crédito para aquisição futura de serviços (chamadas) ou produtos (telefones...) da PT. Até aqui, tudo mal. É visível a má fé da PT, o cinismo com que se sujeitou á sentença do mundo (ainda) real e como a está a executar, muito pouco voluntariamente, quando diz não ter guardadas as facturas dos consumidores, sabendo toda a gente que tais facturas não serão mais que registos informáticos dos quais qualquer empresa de telecomunicações daquela envergadura e de bom senso teria feito um back-up. O mais certo são esses registos existirem sim senhor, algures num disco rígido qualquer. Mas no mundo perfeito daquela empresa, não existem, hipócritamente, convém que não existam.
Mas tudo pode piorar ainda mais quando na televisão vemos um representante desse mundo perfeito, um administrador da PT, de carne e osso e gel no cabelo, porta voz da empresa, explicando, com a candura que só os grandes cara de pau conseguem ter, as inexplicáveis regras para quem quiser jogar o jogo do 'Onde pára o meu dinheiro?'.
Acho que já estamos todos habituados a suportar o chico-espertismo barato do costume. Já nos habituamos a ver políticos, areeiros, construtores civis, taxistas, nem todos e outros que não estes bem portugueses, exercerem com mestria esse autêntico desporto nacional. Muitas vezes mero aquecimento para a verdadeira actividade desportiva por excelência, a corrupção, que por acaso não virá agora ao caso. Mas quando o chico-espertismo chega-nos de onde menos se esperava, de uma empresa que quase símbolo nacional que é, deveria ser e dar exemplo de correcção e boa fé, empresa com a qual temos um vinculo contratual, a coisa pia mais fino. Na sexta feira á noite, quando soube de mais esta pérola da gestão de empresas 'made in portugal', fiquei instantaneamente desconfortável e contaminado... A PT estava 'ligada a mim', eu ligado ao chico-espertismo... Constatei que naturalmente as minhas facturas do telefone de 1999 já há muito que tinham sido recicladas. Comecei a aperceber-me que contribuía com a minha cota-parte para o ordenado recebido por aquele rapaz administrador, que de algum modo contribuía para todo aquele gel que lhe empastelava o cabelo. E ao fazê-lo estava a contribuir e a concordar com o perpetuar do chico-espertismo empresarial nacional... Não adiantava mudar de posição no sofá, não adiantava mudar de canal para não ouvir mais o gajo do gel. Adiantava sim mudar de operador telefónico, adianta mudar para a concorrência. Neste momento estarei já a pagar, não o gel, antes talvez o tratamento capilar a outro senhor administrador qualquer (não se consegue evitá-los), que isto nas telecomunicações em Portugal, ser cliente da PT, ou ser administrador da concorrência, deve causar muita dor de cabeça, muito stress e consequente queda de cabelo.

sexta-feira, novembro 07, 2003

- É só carregar neste botão e transformo-me num 'serial porno-photographer'!One minute post
"One Hour Photo" ("Camera Indiscreta", de Mark Romanek, 2002, em DVD) é mais um grande filme daqueles talvez demasiadamente discretos para o gosto do público em geral, apesar de contar com o popular e versátil Robin Williams, em mais uma grande interpretação. São filmes assim que me fazem (ainda) acreditar no cinema 'made in Hollywood', filmados sem grande aparato, sem as habituais concessões à disciplina comercial dos grandes estúdios.
É uma das mais bem contadas histórias de suspense e medo dos ultímos anos. O tipo de história que faria as delícias de Hitchcock.

quarta-feira, novembro 05, 2003

Singelas contribuições para o meu daltónico auto-conhecimento
Terei descoberto um surpreendente padrão no meu irregular consumo de revistas. Já não bastava ter chegado à conclusão que afinal orientava-me muito mais pelos gostos da maioria do que aquilo que julgava, e agora sinto-me como um chimpanzé a fazer um teste de Pavlov... Vi nas bancas a Maxmen (ex Maxim, ex Super Maxim) e senti logo o impulso de a comprar... Autêntico reflexo condicionado, comprei-a.
Tenho em casa, guardadas naquela pilha de revistas que são para guardar, os números anteriores das Maxmens compradas e que pretendo preservar para a posterioridade. Foi naquela molhada que descobri que, pondo de parte as revistas que traziam na capa a Mónica Belushi e a Denise Richards, comprei todas aquelas que prometiam mais fotos duma qualquer loira seminua no seu interior! Sendo consumidor mais ou menos regular da revista, falhei no entanto os números que, agora concluo, traziam na capa fotos de morenas ou ruivas... Se na capa vinha uma loira, foi comprada de certezinha absoluta (tirando a que trazia na capa a Alexandra Fernandes, pouco apelativa).
Confesso que nunca julguei que teria uma preferência assim tão evidente... Sempre detectei beleza em todo o corpo sobejamente feminino, independentemente da cor do cabelo, da pele, do batôn ou da altura dos sapatos de salto alto. Longe de mim recusar liminarmente qualquer tipo de contacto explicitamente mais estreito com não loiras, avesso a superstições que sou, e nunca me pareceu lógico fazer qualquer tipo de discriminações generalistas entre loiras e morenas. Há morenas feias e bonitas, assim como há loiras e ruivas e por aí fora. O que é feio e bonito é naturalmente relativo a cada apreciador que por sua vez não tem nem loira nem morena, antes sempre cinzenta, aquela parte do cérebro onde se registam as suas preferências e referências volumétricas.
Mas perante aquelas provas de compra, assumo a minha involuntária preferência: Este gajo prefere as loiras sim senhor, seminuas!... E todo o restante universo feminino, bem vestido ou bem despido, consoante... A beleza agasalha-se, esconde-se em lugares por demais visíveis...

terça-feira, novembro 04, 2003

Os efeitos acústicos da bola de cimento
Para o caso de ainda ninguém se ter apercebido, vamos ter mais 4 longos anos de altamente provável jejum no Benfica. Luís Filipe Vieira ganhou as eleições com uma vantagem, diria, escandalosa. Foi um grande feito da arquitectura e da construção civil portuguesas.
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Mais extraordinária ainda é a acústica da grande obra. Diz quem já assobiou no novo estádio, que é espectacular o efeito ‘surround’ 65000:1.
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Depois de ganhar é fácil prometer: “500 mil sócios em 3 anos”. Exagero ? Claro! Mas fonte ligada ao presidente já veio esclarecer que a promessa não se referia a “sócios” mas sim a “500 mil sacos”... de cimento. Prevê-se a construção de diversas monumentais casas do Benfica. A TVI já assegurou o exclusivo das inaugurações.
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Entretanto fala-se já na comercialização de capacetes de obras oficias do Benfica com o respectivo logotipo afixado na parte da frente. Ao contrário dos verdadeiros, estes não serão de uso obrigatório, assegurou fonte ligada ao estaleiro benfiquista.
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A direcção encarnada prevê também a comercialização de martelos oficiais do Benfica, que utilizados no final dos jogos contra o respectivo capacete, criarão um também espectacular efeito acústico. Há que explorar as potencialidades do novo estádio, substituindo-se assim o pouco ruidoso velho ritual do pano branco, um reconhecido plágio do 13 de Maio.
O ultimo escritor do mundo #1
Por vezes chegam-nos livros de quem menos se espera: Saddam Hussein, "Zabiba e o Rei", publicado na colecção "Contemporânea" da Europa-América.-

segunda-feira, novembro 03, 2003

Passatempo da Idade Média
Porque é preciso não esquecer, fica aqui o desafio, associar-se o nome à obra de alguns dos maiores facínoras da história, muitas vezes injustamente esquecidos:

A. Papa Pio XXII
B. Papa Nicolau V
C. Papa Inocêncio VIII
D. Papa Paulo III
E. Papa João XXII

1. Reforçou a autoridade inquisitorial em 1450.
2. Elaborou a Bula que ordenava às autoridade seculares cooperação total com os inquisidores, concedendo à Inquisição poderes judiciais e executivos em assuntos de heresia e bruxaria.
3. Apercebendo-se do potencial remunerativo que a caça à ‘bruxaria’ traria aos cofres da igreja, concedeu poder formal à Inquisição em 1320.
4. "Mediante 80 soldos pagos à Santa Sé, consentia que os leigos dormissem com as mães e irmãs, e por pouco mais os pais com as filhas; permitia ainda aos diáconos o assassínio com as condições de darem 240 soldos; aos bispos e aos abades um pouco mais abonados, o direito de apunhalarem o semelhante, se dessem 300 libras."
5. Passava o melhor do seu tempo a gerar filhos, que depois elevava a cardeais.
(solução: A.3 – B.1 – C.2 - D.5 - E.4)

quinta-feira, outubro 30, 2003

'Se quizerem um sorriso comprem primeiros os dvd's dos meus filmes!'Ícone 7.0
Denise Richards personifica num só precioso canastro toda uma vasta panóplia de imagens típicas que desde sempre nutriram o imaginário de qualquer bípede agora com idade para usar uns ray-bans. Ela é a típica cheerleader, a típica filha mais nova do nosso chefe, tem os típicos lábios, um cabelo típico, a típica gaja irresistível mas que nos faria hesitar e pedir-lhe primeiro o BI para confirmar a maioridade, a típica actriz que pouco mais terá para além do sorriso bonito (mas e quem quer mais ?!), ela é o mais aproximado que os americanos conseguem ter da típica Laetitia Casta.
E se pensam que o filme onde ela aparece em melhor estado de degustação visual é o “Wild Things” (filmezinho medíocre por sinal), estão selvaticamente enganados. A pequena aparece em grande forma em “Undercover Brother”, um filme de ‘blacks’ com alguns gags de se lhe tirar o chapéu e uma Denise de se lhe tirar aquela justinha farpela branca.

quarta-feira, outubro 29, 2003

'Fui ontem ao Vidal Sassoon!'Reflexões sobre o espantosamente belo
Na realidade um interior espantosamente belo não existe. Apenas a beleza exterior pode-o ser.
*
Quando se fala do espantosamente belo, estou em sintonia com os gostos universais da maioria. Por maior que seja o fosso social e cultural que nos separe, a gaja que povoa o imaginário do pedinte da esquina ou daquele gajo que vai a ler o "Record" e a coçar as meias brancas, é a mesmissima gaja que povoa o meu. Dada a minha alergia ás maiorias, isto ás vezes dá-me que pensar...
*
Um mais ou menos mal disfarçado mau feito pode conferir à distinta proprietária do mesmo muita sensualidade (proporcional aos atributos fisicos visivelmente evidentes), criando num gajo a necessidade diria que cristã, de transformar a vítima num objectivo que a todo o custo necessita ser conquistado e exorcizado, conduzido para o lado do bem.
Ideia do diabo
"As pessoas espantosamente belas raramente são boas, pela simples razão de que não precisam de o ser.", in "Eu, Lúcifer", Duncan, Glenn, Ed. Europa América

segunda-feira, outubro 27, 2003

Orgulho nacional
O Benfica inaugurou um grande estádio no meio de muita lama.
O estádio é bonito à vista, mas transmite a imagem duma equipa e dum país que infelizmente não existem. E mostrada a obra, o deslumbre tudo faz esquecer, sobrando unanimemente elogios vindos até de onde e para quem menos se esperaria.
Vieram-me á memória as grandes pirâmides do Egipto, aquelas obras megalómanas e milenares construídas no meio de nada, no deserto, à custa da exploração do homem pelo homem, que é como quem diz, do escravo pelo faraó. Por muita beleza que encerrem estas e outras maravilhas, não consigo deixar de esquecer a que preço foram erguidas, nem deixar de reflectir sobre a pequenez que está afinal na origem das mesmas...
Na melhor das hipóteses teremos estádio para 50 anos e ego ridiculamente inchado por pouco mais de meia dúzia. Muito pouco para tanto milhão, muito para tão pouca equipa cujo parco futebol mal chega para encher uma capelinha quanto mais uma catedral.-
*
Com tanto desequilibro orçamental, Durão Barroso só por milagre também não se desequilibrou quando se preparava para falar aos orgulhosos Benfiquistas.
A malta cumpriu com o seu decibélico dever de apupar políticos e dirigentes que não os da casa. Durão, no top, sorriso tosco mas sincero, lá se conseguiu equilibrar num discurso macio e com a serenidade de quem sabe que por mais assobio que se oiça, não passará disso, de assobio. Como se viu, é perigosamente fácil a um político pôr benfiquistas a bater palmas .
*
Foi um fim de semana em grande. Depois da festança de Sábado á noite, no Domingo Marcelo da TVI respondeu com muita pinta a um dos Pedroso Bros. Bem encenado o displiscente pormenor aquele de ter deixado quase para o fim a resposta à carta indignada. Afinal na própria carta arranjou o professor ainda mais lenha para quem se quisesse queimar. Atrevo-me a colocar Marcelo na galeria dos meus orgulhos nacionais, a par da Voxx, Mão Morta e Ena Pá 2000.

quinta-feira, outubro 23, 2003

Grande maralha da China!“Hero”
Ao contrário desta minha sazonal gripe que me força a escrever e a conectar-me de casa, não é normal constipar-me com filmes, engripar-me com quaisquer dramas passionais, emocionar-me, por mais dramáticas que sejam as histórias que polvilham o imaginário e arquitectam os protótipos dos "sentimentos puros". A minha resistência a Shakespeare de algum modo sempre me envergonhou, acusando-me de falta de sensibilidade, de ausência de romantismo.... Mas sempre me pareceu a mim que em todas aquelas histórias passionais havia sempre alguma coisa menos impoluta nas relações, nas personagens. Muitas histórias de amor acabavam mal porque infligiam sofrimento atroz e insuportável a terceiros, cujos dramas também não deixavam de inspirar em mim compaixão e compreensão.
Temos tentações inatas para construir becos sem saída mas também a habilidade de estarmos sempre alerta e sabermos construir pelo menos uma saída de emergência. E essas vítimas dos amores impossíveis, proibidos ou condenados, sob a desculpa da loucura do amor e da paixão, sempre ignoraram a eventualidade da coisa dar para o torto.
Ou seja, não havia personagem alguma imaculadamente isenta de algum pecadilho ou defeito de fabrico, ainda que impreceptível, mas sempre oriundo desse lugar lúgubre que é a natureza humana. Ora isso sempre activou em mim um processo de desmistificação, um exercício inconsciente algo cruel para com o aparentemente sublime. Em todas as histórias, inventava interiormente alguma desculpa para a tragédia que surgia afinal como corolário lógico, “estavam mesmo a pedi-las!”. Acreditava que cada final, por mais infeliz que fosse, era afinal merecido, espécie de justiça divina que o agiota contador da história secretamente aplicava para, causa primeira, choque e sofrimento maior de quem lê, eficácia portanto, causa segunda e directamente relacionada com a primeira, poder com isso lucrar... As histórias de final feliz levava-as o vento ou prendia-as a inveja. Temos muito mais tendência para ficar a remoer uma injustiça e consolarmo-nos na desgraça alheia.
Shakesepeare de lado, histórias de amor do cinema moderno à parte, (“Paris Texas” ?! uma comédia!), dramalhões de novela à distancia, o drama bem português, logo, diversamente ficcionado, historiado e especulado, de “Pedro e Inês”, sempre suscitou em mim uma anormal consideração, pelo menos na sua versão mais corrente e romântica. Aquela coisa de se arrancarem os corações pelas costas, aqueles beijos em cadáveres em decomposição, tudo aquilo dava um excelente filme gore! Mas além disso, aquele drama, história de amor casto e cristalino, assim relatada, sempre me tocou deixando-me algo desconfortável perante a injustiça, a pureza dos personagens vítimas, em claro contraste com as personagens carrascas das nossas vidas, e a vileza dos terceiros da história, movidos apenas por um paranóico e deplorável medo de perder o poder. Ora isto fazia automaticamente de mim um gajo afinal normal e não um monstro insensível como pintava este pintor de auto-retratos. Havia aqui algures uma réstea de sentimento e solidariedade pelo drama passional, algures uma lágrimazita espreitava ainda que logo de seguida se recolhesse para o sítio de onde viera. Pedro e Inês, bela e inspiradora história de amor, o romance ideal, sem traições e com sacrifícios, e lá está, um final infeliz, senão provavelmente nunca teria chegado aos nossos ouvidos como milhentas outras histórias que as haverá, de reis e rainhas, filhos e primos, com paixonetas secretas, que amores tão ou mais sublimes e intensos viveram e a sacrifícios também obrigados foram sujeitos, mas porque tiveram desfecho feliz “olha acho que já não sinto nada por ti, Que coincidência, eu também!”, nem à história passaram.
Recentemente
, ouvi na Voxx, um brasileiro que em entrevista a um programa da especialidade (quartas, 21-22) dizia-se percorrer o mundo, e agora em Portugal, estudioso do homossexualismo neste país pai durante a idade média, adiantou números de perseguidos, torturados e condenados à morte pela inquisição, acusados de tais práticas desviantes, e lançou à baila o nome dum rei português reconhecido sodomita (lamento não fixei o nome) e ainda o nome de Pedro, o da Inês. Teria sido afinal bissexual o então príncipe, ao que parece, antes, durante e após Inês. Ora não sei como, expliquem-me, porque apesar desta minha tolerância pelas diversas inclinações sexuais, formas diferentes de amar ou saciar o desejo sexual, fenómenos cujas explicações só a cada um dizem respeito, se não vejo naquela história senão outra mácula, como é possível, após ter tomado conhecimento desta novidade histórica, pequeno detalhe, como é possível que todo o significado, todo o esmagador poder dramático da história de Pedro e Inês e a revolta que inspira, se tenha desvanecido quase por completo ? Hoje apetecia-me dizer que tomara não ter sabido aquele pormenor escondido da vida do, então não duvido, pervertido Pedro, tomara que ele tivesse sido fiel e heterossexual, coisa rara eu sei, mas mesmo por isso, contra a banalização do humanamente vulgar, tomara que continuasse a existir dentro de mim aquele respeito pela arrebatadora história de Pedro e Inês. É que por mais corações despedaçados pelo destino ou arrancados pelas costas, por mais sangue e lágrimas que o dramalhão protagonizado por um bissexual meta, não terá a mesma cor e tempero duma história de amor heterossexual, sem adultério (Ou com adultério também podia ser, veja-se “a insustentável leveza do ser”, o quão de traição não há por ali, o quão apaixonante é a história, o quão com ela se identificou toda uma geração e outras inspira.)
E com isto, pretendia eu falar de “Hero”, um filme chinês produzido por americanos, que, atrevo-me a dizer, tem a mais bela história de amor de sempre contada pelo cinema. Não é normal, mas já vi o filme 4 vezes em quinze dias, e das 4 vezes emocionei-me, descontrolei-me.
Neste momento choro dos olhos, mas é da gripe.

segunda-feira, outubro 20, 2003

The Ferro Sindrome
Pode efectivamente Ferro Rodrigues ter razão, e estar a ser alvo do populismo. Como é sabido, diz a vox populis que “a natureza é uma imensa casa de banho.” Mas, convenhamos, o segredo de justiça não fica atrás de nenhum pinheiro, não é nenhuma moita, nenhum arbusto, onde se possa cagar numa aflição! A meu ver, o caso de Ferro poderá ser do foro meramente clínico. Ponham os psiquiatras a falar dos políticos! Já alguém levantou a hipótese do líder do PS sofrer do Síndroma de Tourette* ?
* Desordem neurológica caracterizada por vocalizações involuntárias e compulsivas de obscenidades (Giles de la Tourette, neurologista francês, 1857-1904)

sexta-feira, outubro 17, 2003

Encontro de blogs #1
Estive a beber sumo de laranja e a comer amendoins no lançamento do livro do Paulo Querido sobre o universo blog (blogoesfera®) nacional. O evento do Mercado da Ribeira/Livro serviu de pretexto para reunir um considerável grupo de pessoal dos blogs que respondeu ao apelo do desde já promissor ‘guru’. Querido teve a gentileza de referir que depois de concluído o livro já tinha tido conhecimento de mais meia dúzia de blogues importantes que não estariam, infelizmente, mencionados na obra. Foi o único momento em que nitidamente senti o ego amaciado.
De resto, estiveram presentes o mais novo e o mais velho blogueiro (em idade conforme b.i., fez-se história), não houve nenhuma aparição de vulto (havia expectativa quanto à aparição do Pipi. Se apareceu não sei, não sou pastorinho!) e o livro custava 13 euros (não há milagres!). O sumo estava demasiado ácido, pouco diluído, não provei as passas e já não estive presente na sessão de autógrafos.
® Blogoesfera é um blogotermo blogoinventado pelo Blogopacheco Blogopereira.
The Marcelo Sindrome
Ainda do pessoal e transmissível da TSF, desta vez o professor Marcelo Rebelo de Sousa, há já algum tempo atrás, desvendava o mistério que fazia vir ao de cima o lado mais matemático de Pacheco Pereira: Confessava Marcelo que, como não tinha tempo, lia na diagonal a maior parte das dezenas de livros que sugeria semanalmente aos domingos na TVI.
Ocorreu-me agora que para promover junto de Marcelo os seus livros, seria óptima ideia os editores imprimirem edições especiais na diagonal. Facilitaria muito a vida e o pescoço do professor.

quinta-feira, outubro 16, 2003

The Freitas Sindrome
Freitas do Amaral será provavelmente o menos Português dos Portugueses. Por mais que tente, não consigo imaginá-lo a beber uma cervejola pela garrafa ou comer com os dedos uma sardinha assada em cima dum bom naco de pão Alentejano. Já consigo, por exemplo, imaginar Jorge Sampaio na mesa duma tasca a jogar dominó com o Almeida Santos, queixando-se ambos do fumo que Mário Soares faz a fumar mata-ratos, e com Durão Barroso a servir ‘copos três’ atrás do próprio balcão da tasca.
É importante sentir-se que aquele em que se vota, podia, ainda que muito remotamente, ser um dos nossos. Por ventura, o relativo insucesso na vida política de Freitas dever-se-á a esta falta de identificação que o povo votante sempre sentiu por ele. Lembremo-nos que o homem perdeu, salvo erro, duas corridas à presidência, teve vários desaires eleitorais e nas mãos um partido à beira da extinção tendo depois arrepiado caminho. Teve reconhecimentos naturalmente, mais visível quando esteve lá longe, na ONU, a muitas portas e gabinetes de diplomatas de distancia da populaça, mais louvável agora, como dramaturgo.
Dizia o dramaturgo numa recente entrevista dada a Carlos Vaz Marques da TSF, que era a favor da instituição dum Senado, algo assim paralelo à já ressonante assembleia da republica, mas mais calminho, supostamente para, nas suas palavras, tirar mais valias de centenas de homens e mulheres ligados ao estado mas sem intervenção política, e que, daquela forma sentada, muito poderiam dar à nação! Freitas a léguas de distancia do estado de espirito nacional, ainda acredita em contos de fadas e pior ainda, numa maior politização do Estado, já de si superlotado, reforçando a percentagem de políticos sentados, indo buscando homens e mulheres que, onde quer que a esta hora estejam, serão porventura úteis e darão menos chatices.
Mas o cumulo do distanciamento de Freitas em relação ao cidadão comum acontece quando a certa altura aponta um dos sinais que evidenciam a sua velhice. Se qualquer português, começa a notar os seus sinais de idade quando repara já não conseguir chamar nomes ao arbitro com a mesma pujança com que o fazia noutros tempos, Freitas diz estar velho porque “agora conhece todos os ministros mas (oh!!) não conhece nenhum secretário de estado (ohh!!)”, ao contrário de outros gloriosos tempos em que conhecia aquela maralha toda.
É comovente imaginar alguém envelhecer assim. Mas é nesta amarga angustia, atacados deste síndroma, que envelhecem os políticos. Chega o dia em que nem ministros já conhecem, depois nem o primeiro ministro, o presidente da republica... Morre-se na mais profunda das solidões, rodeado apenas da família.

terça-feira, outubro 14, 2003

My favorite fetish dreams #1
Eu sou paquete num hotel de luxo e sigo num elevador daqueles com paredes almofadadas em veludo vermelho, levando nas mãos uma bandeja com dois copos e uma garrafa de Martini. Abre-se a porta do elevador e entram a Manuela Ferreira Leite do PSD e a Ana Gomes do PS, e perguntam uma á outra se não se conhecem de algum concurso de misses. Depois começam a discutir sobre quem seria a mais bela e teria mais sinais que evidenciariam uma pessoa do sexo feminino que decidira dedicar a sua vida à política. Por volta do 134º andar, perguntam-me a minha opinião. Eu entretanto já tinha bebido a garrafa de Martini, encontrando-me caído no chão em coma alcoólico. No hospital, mal retomo consciência e abro os olhos, vejo a cara de Ferro Rodrigues e por momentos julgo estar no Inferno. Ele diz-me que estou despedido e só então me apercebo que estou com um hálito péssimo e que deveria ter escolhido outra profissão. Entretanto, num quarto de hotel, a Marisa Cruz, sozinha, desespera pelo Martini com paquete incluído que pediu há horas e resolve ingressar numa equipa de rugby feminina.
Irrespirável
Precisamente neste momento, na Cidade do México, alguém compra por 1 euro uma máscara com 1 minuto de ar puro.
Precisamente neste momento...
Larguem-lhe as canelas!
(novos PS - Provérbios Suaves)

O testemunho do menino é sempre mais falso que o meu.
Quem se mete com crianças, acorda deputado.
Tudo a seu tempo, e os nabos no parlamento.
Melhor uma mentira que dura, que uma verdade que fere.
Apanha-se menos depressa um pedroso que um coxo.
Deputados passados não comem meninos.
Quem com ferro conta, com ferro será absolvido.
...

segunda-feira, outubro 13, 2003

Ilusões paralelas
Acordo e passados alguns segundos estou a pressionar a válvula do gel de barbear. Reparo que estou atrasado, que nunca mais corre água quente, que como de costume não terei tempo de tomar o pequeno almoço em casa. O espelho está ligeiramente torto, a barba ligeiramente por fazer e como habitualmente tenho um gato atento, sentado no bordo do lavatório, a seguir-me os movimentos. É apenas mais um começo de dia, igual a outros começos de dia, sem alternativas ao ritual pós-sono. Excepto agora, num pequeno detalhe. O mostrador do relógio tem inscritas duas letras que indicam o dia em que acordo: SU, o Domingo abreviado, em inglês.
Escrever, escrever num blog também é assim, acordar num Domingo de manhã pensado que se está a acordar numa Segunda feira de trabalho, este ritual do engano e do efémero, esta ilusão qualquer que o tempo interrompe sempre, felizmente.

sexta-feira, outubro 10, 2003

Mantorras pá, a malta quer é golos e não desculpas!Peço desculpa!
Tive acesso em exclusivo a um dos poucos exemplares d’”A Bola”, que ontem saiu sem aquele erro crasso na manchete, quando citava Mantorras (quem ?! é um jogador qualquer do Benfica)! Eis a versão genuína da primeira página, o que realmente Mantorras pediu:

quinta-feira, outubro 09, 2003

Dia da Liberdade
Que país é este, em que um arguido acusado de pedófilia sai duma prisão preventiva para uma medida de coacção de termo de identidade e residência, e tem uma miserável recepção daquelas ? Meu deus, até o Benfica quando faz anos tem direito a fogo de artificio! Como é possível, um tão importante momento da vida da nação, ter sido apenas transmitido em directo por 3 dos 4 canais de sinal livre ? Quantos milhares de espectadores terão perdido o espectáculo enquanto viam as sit-coms americanas do canal 2, o único que não transmitiu o acontecimento ?
Ninguém ficou indiferente àquela recepção fracamente apoteótica do arguido. Entre dezenas de figurantes e sósias contratados em cima do joelho, meia dúzia de deputados genuínos receberam o arguido Paulo Pedroso com uns mal ensaiados abraços. Estava lá muita gente, na assembleia, na sede do partido, mas eram nitidamente figuras de segundo plano do partido do arguido. Mulheres de limpeza, empregados dos bares, a senhora que faz os rissóis, é certo que não faltaram àquele abraço em liberdade, sabe-se lá aliciados com que promessas de pastas e lugares num eventual governo socialista... Perece que estou a ouvir Ferro Rodrigues “Só têm que o abraçar, só têm que o abraçar, beijinhos não!”. Mas, e as principais figuras, os históricos (atenção que aquele era uma sósia do Manuel Alegre, não vão em cantigas que o um político com um apelido daqueles nunca chora), um Mário Soares, um presidente da república que é do partido, um governador do banco de Portugal idem, comissários europeus, ex-primeiros ministros, presidentes da internacional socialista, essa gentalha toda, não deu a cara! Onde está a solidariedade e o champanhe, para brindar ao herói ? No mínimo dos mínimos, o que se exigirá dum futuro governo PS, se realmente se quiser redimir deste triste dia, será proclamar o dia 8 da Agosto feriado nacional, passando a ser este o Dia da Liberdade!
Foi um espectáculo triste e comovente! Quase que fui ás lágrimas quando Paulo Pedroso saía dum carro qualquer de luxo de certo alugado à ultima hora, e foi de imediato abordado por uma gaja qualquer pequenina, de telemóvel em riste, dizendo-lhe “é a sua mãe!”. Pedroso mostrou-se indiferente, claro está, avançando decidido para o próximo abraço ensaiado. Além da falta de solidariedade, sair da prisão e alguém lhe dizer que a mãe é um telemóvel, só podiam estar a gozar com ele. Não se faz a nenhum arguido acusado de pedófilia! Não estranhei pois, aquele black-out. Ficámos sem saber se o arguido foi dormir a casa, em que restaurante jantou o pernil de porco, se é que foi pernil de porco e não tão somente uma sopinha de caldo knorr, ou se teve algum pesadelo com o dia do julgamento que está para vir.

quarta-feira, outubro 08, 2003

Job for the daughter
Como grãos de milho, são pequenos os escândalos que alimentam as galinhas histéricas da oposição. Na capoeira, ainda as penas não assentaram no chão e já há dois ministros demissionários. Na política é assim, os pequenos escândalos servem para demitir políticos no governo, os grandes para os manter em toda a parte.
Mas porquê tanto ‘cagaçal’ senhores, se todos os políticos são escandalosamente ‘cunhados’ uns dos outros ? Se naqueles antros, é através da cunha que se faz a ‘filtragem’, se faz tão naturalmente a ‘selecção natural’ da espécie, se perpétua a raça!
Fosse a filha do ministro discreta mas promissora activista duma Jota qualquer, e a ordem natural das coisas não seria quebrada. Gente compreensiva seria naturalmente conivente com o caso, que nem era para um ‘job’, tal como o é tolerante com os casos dos ‘boys’ do costume. Assim, mera civil, anónima, demasiado daughter, o contraste torna-se escandaloso, fere a vista mesmo curta, e não pode deixar de merecer castigo.
Há quem se sinta orgulhoso do sistema, há quem refira ser apenas a democracia a funcionar e a funcionar bem. Eu digo apenas, agora vingança! É o mínimo que se exige, que se zanguem as comadres!

terça-feira, outubro 07, 2003

Parque das Aberrações
O Parque das Nações é mais um exemplo duma boa ideia transformada num enorme engarrafamento. Muito em breve o que parecia ser algo de inteligentemente concebido, motivo de orgulho nacional, transformar-se-á (se é que já não está) num espaço urbano indigesto, vítima dos patos bravos e da disparidade de estilos arquitectónicos, com uma imagem não muito próxima dum qualquer arrabalde periférico. Alguns edifícios são verdadeiras aberrações e outros, na vizinhança de outros mais emblemáticos, começam a pouco e pouco a 'diluir' a imagem destes.
Azar para quem comprou ali apartamento a preço exorbitante, na esperança de ver o "stress diluído no Tejo" ou em busca duma prometida excepcional qualidade de vida. Fica-se com a ideia de que o espaço terá sido concebido apenas para quem lá viveria, não se tendo levado em conta o fluxo de 'emigrantes' de fim de semana que ali acorrem à procura dum naco de outro ar ou de outro 'status' que o local parece prometer.
Ao fim de semana, o local é um verdadeiro caos, uma anarquia de pessoas mansas e de estacionamento selvagem. Mas parece ser assim que se mede o sucesso em Portugal. E o Parque das Nações é um verdadeiro sucesso bem português.

segunda-feira, outubro 06, 2003

Top Secret
A suprema satisfação do dominador consiste em ser absolutamente dominado.

quinta-feira, outubro 02, 2003

A burra
Uma mãezinha qualquer interroga o filho, então como foi hoje a escola ? comeste o papo-seco com manteiga ? bateram-te muito no recreio ? quando subitamente a criança diz, eu sou burro! A mãezinha fica indignada e volta à carga, quem é que te disse isso ? diz! A criança não diz. É coisa daquela professora, diz a mãezinha. Olha tu não dizes mas deixa estar que eu vou saber ouvistes ? Depois de garantir à mãezinha que ouvira, ela sai e vai à escola da criança falar com a professora da criança. A professora da criança nega tudo mas a mãezinha exige que ela jure a pés juntos. A professora tem artroses nos pés e como não consegue juntá-los, a mãezinha fica desconfiada. Contrata um detective que além da professora doente dos pés, põe sob escuta todos os professores num raio de 20 Km. Diariamente o detective passa a entregar à mãezinha, relatórios sobre todas as chamadas efectuadas. A mãezinha finge que lê os relatórios antes do jantar e depois da novela liga religiosamente ao detective para lhe perguntar, o que é que acha ? O detective, passada uma semana, não disse o habitual, olhe vamos continuar a trabalhar, disse antes, olhe minha senhora mãezinha, mais de metade das conversas dos professores são entre eles. Combinam encontros secretos, falam da bolsa, dos filmes que estreiam, dos jogos da bola, de revolveres, de problemas com queda de cabelo, combinam jogos de matraquilhos, marcam quartos de hotel... A minha principal suspeita era uma professora que fazia muitas chamadas para a farmácia e falava muitas vezes ao telefone com outro professor, e muitas vezes parecia chamar-lhe ‘burro’! mas depois de analisadas as conversas, concluímos tratarem-se de espirros! dava-os com muita frequência. A mãezinha conta isto ao pai, que, ainda bem, pensa, não é professor. Já desistiu de interrogar a criança que teima em não dizer quem lhe tinha chamado de burro. A mãezinha já nem põe sal em condições na massa, só de pensar quem afinal tinha incutido na cabeça da criancinha tal ignóbil ideia. Só pode ter sido alguém, um adulto, pensa, porque a criança ainda não tem idade suficiente para descorrer sozinha o que é ou não é. Telefona então para a policia, quer meter um processo contra desconhecidos, por difamação, aliciamento de menores, o que seja. O detective continua o seu trabalho, entregando diariamente milhares de relatórios que são elaborados num centro de escutas ilegais entretanto construído para o efeito, e num tribunal qualquer corre um processo contra desconhecidos havendo no entanto uma forte suspeita, a professora. A desconfiança da mãezinha foi ainda maior quando esta foi lá a casa perguntar pela criança. A criança está ? já não aparece na escola há tanto tempo. O que é que quer dela, já não lhe bastou ter-lhe chamado de burro ? Eu não tinha razões nenhumas para chamar isso à criança. E nisto juntou os pés e jurou. Tinha feito diversas operações e agora já podia fazê-lo. Estava claramente a querer apagar as provas pensa a mãezinha. Dali vai directa ao tribunal dar o nome da professora. O processo passa pelas mãos dum juiz, que manda a criança ser inspeccionada por um técnico especializado. Ocorre ao juiz que a criança esteja a dizer a verdade, que possa ser mesmo burra. Uma semana mais tarde é o processo arquivado. A criança é enviada para uma escola especial onde as crianças estão longe das mãezinhas, e nessa feliz condição faz progressos assinaláveis. Um dia recebe o telefonema da mãezinha que lhe pergunta, como estás filho ? batem-te muito no recreio ? tens comido bem ? estou mal disposto. então filho, o que é que sentes ? sinto que és burra mãezinha. A mãezinha comovida, despede o detective.
Toc-toc
Para se entrar na vida de alguém, convém fazê-lo sempre pela porta principal, e nunca por uma janela qualquer, aberta de propósito ou deixada assim ao esquecimento. E deve-se sair pelo mesmo sítio por onde se entrou.

terça-feira, setembro 30, 2003

Ídolos do telecomando
Madonna disse uma vez, e muito bem, “Ohhh, sim, sim!”!... Desculpem, cassete errada, agora sim, “A televisão só tem utilidade se for para aparecermos nela.” Foi das coisas mais inteligentes que ouvi hoje, logo a seguir ao “hoje pago eu” do meu colega. De facto, se não aparecemos na televisão, para quê estar a perder tempo a ver outros aparecer ? Talvez por isso considere de entre todos, “Ídolos” o programa mais estúpido, logo, mais didáctico, o melhor programa da televisão portuguesa.
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Sucedâneo um pouco mais soft do velho formato da Private, os famosos castings (espécie de “porno-idolos”), o “Ídolos” apela a um mesmo instinto básico comum a qualquer telespectador, o “voyeurismo”. Se no primeiro espreitava-se o basqueiro das mais ou menos atrapalhadas e inexperientes candidatas despidas, neste, a mesma matéria prima surge vestida, apostada em desviar a atenção para outros dotes. Malta qualquer, que sonha pelo milagre da idolatria instantânea (à carinha bonita, basta juntar um bom corpinho, abanar e já está).
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Com a benção do júri, assustador, experiente, com muito currículo “graças a deus”, isto numa clara alusão aos machões hiper-dotados dos castings da Private que desfloram a ansiedade das aspirantes a porno-estrelas. São os júris, quem se encarregarão de decidir quem e o que é que tele-viciado irá depois consumir. Estão mandatados por ele, sabem o que ele gosta: “Epá, o aspecto vale p’rai 80%! E tu... Por mim podes sair!”. E não é que é mesmo 80%! Os gajos lá sabem.
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O programa mostra-nos o real valor da televisão, o valor honesto e verdadeiro: estamos descaradamente a ver outros a dar barraca através dum aparelho inventado afinal para esse efeito. E dá-nos um gozo do caraças, pondo-nos num embevecido estado semi-vegetativo, de total ausência de pensamento construtivo ou criativo. Tenho a certeza que era essa a intenção do inventor da televisão, criar uma alternativa sólida à vivência pelo cidadão da não menos enfadonha e estúpida política dos partidos. Infelizmente um dia alguém adulterou tudo, julgou que seria um óptimo meio de comunicação, confundindo claramente vegetação com comunicação.
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Dar barraca é saudável e pode ser divertido principalmente se não formos nós a dá-la. Toda a gente já deu barraca para mais ou menos audiência, mas fazer da barraca tempo da antena é que é mesmo bonito.
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A televisão tem sido culturalmente sobrevalorizada ao longo de muitos anos, subvalorizando-se os reais efeitos nefastos que a mesma veio trazer aos terráqueos (terráqueos, faz de conta que sou um observador de outro planeta! Há um herói da Marvel assim. Já não me lembro o nome.). Muitos programas ditos culturais ou de divulgação cientifica, de animaizinhos, não anulam a terrível verdade: ao longo destes encaixotados anos temos sido e continuaremos a ser atrofiados pelo poder esmagador das imagens, intoxicados com publicidade, esvaziados pelas estórias dos argumentistas da Globo, cegos com as interpretações da Sofia Alves, extinguindo-se progressivamente a nossa capacidade de raciocínio, de vivência, e, principalmente, a imaginação, o tal poder imaginativo que só a palavra escrita lida ou ouvida estimula, ao contrário da imagem animada, onde os conteúdos são-nos dados visualmente, de bandeja.
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Imaginemos um mundo sem televisão. O efeito da tragédia do 11 de Setembro (para todos os efeitos, a referência contemporânea mais trágica) não seria mais sentido se apenas tivéssemos tido acesso aos relatos de jornalistas e testemunhas ? As nossas cabecinhas não dariam mais voltas e voltas, tentando imaginar, fazendo a reconstrução mental dos acontecimentos, tornando assim mais intenso o sentimento daquele drama bem real ? Estou convicto que sim. Será mais perturbador imaginar o que devem ter sentido as pessoas no interior dos aviões. O embate dos aviões em sim mesmo, as pessoas a saltar desesperadas, imagens repetidas à exaustão, adquiriram uma dimensão quase secundária, quase ficcional, quase espectacular, aproximando-nos o acontecimento dos olhos, mas afastando-o do, vou dizer, coração. Mas se por acaso tivessem sido transmitidas imagens do interior de um avião, minutos, segundos antes do embate, se tivéssemos tido acesso televisionado às imagens, acredito que essa perturbação, esse sentir doloroso seria atenuado. O que estou a querer dizer, é que a televisão pode ter um efeito pernicioso sobre a nossa capacidade de sentir, de sentir compaixão. Atenua e mascara o que é doloroso, distancia-nos com uma confortável segurança, do drama real. Digo que existe uma diferença muito mais ampla e perigosa entre o escrito “in loco” e o transmitido “in videns”.
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Faz parte do desenvolvimento normal dum indivíduo, mais ou menos regularmente, voluntária ou involuntariamente, testemunhar a estupidez. É saudável. O confronto com tão enraizado veneno pode servir, mais que não seja, para pôr ali os olhos e não ser-se estúpido. Para quem tenta viver o mais afastado possível da estupidez, a televisão pode ser o único elo de ligação com o fenómeno. Assim como um pai deve corresponder ao modelo de virtudes positivas para o filho, a televisão deve ser o modelo inverso, um espelho do ridículo e de maus exemplos que em circunstancia alguma devem ser repetidos na vida real. É para isso que a televisão serve. Daí, quanto mais estúpido for o programa, melhor, mais eficaz. Mas isto, ver televisão e chamo a ver televisão, ver novelas, reality shows, telejornais, publicidade, bigbroderes e ídolos, esta terapia só será recomendável cinco, no máximo 10 minutos diários, posologia esta que deveria ser seguida à risca. Meia hora para casos mais graves. Existem casos em que mestres em yoga-tv, conseguem passar um mês sem tocar num telecomando.
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Em caso de tele-depêndencia, iniciar-se-ia um programa de desmame, reduzindo diariamente 1 minuto (mais seria traumático para o tele-imbecil doente). Acima de tudo, o doente deveria estar consciente do poderoso efeito hipnótico que as imagens têm sobre ele quando, sentado num sofá, após ter pousado o jornal, portanto, intelectualmente inerte. Não deixar-se seduzir pelo telecomando que, como todas as coisas ridículas do mundo, funciona a pilhas. Á falta do melhor do mundo, á falta da visão maravilhosa de uns sapatos de salto alto esquecidos no meio da sala, ter um animal de estimação pode ser uma excelente alternativa ao telecomando, acariciando-se-lhe o pêlo, escovando-o, dando-lhe pedacinhos de fiambre barato. Há pessoas tão tele-perturbadas que já foram vistas a passear de trela telecomandos universais pela Praça da Alegria. Está claro de se ver que o porteiro da maxime vedou-lhes a entrada!
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Qualquer pessoa que não seja crítico de televisão e sinta necessidade de estar frente ao televisor mais que o estritamente necessário ao controlo do seu processo estupidológico, deve rapidamente consultar ajuda médica especializada, o seu gestor de conta, visitar a biblioteca mais próxima, contactar uma empresa de ocupação de tempos livres ou então ir à cozinha comer donuts com leite fresco. Se nada disto resultar, experimente a receita mais eficaz: desligue a televisão da tomada de electricidade.

segunda-feira, setembro 29, 2003

Deus, patrocinador oficial
Os construtores das primeiras carruagens de metropolitano fizeram-nas sem janelas. Afinal, não havia paisagem nenhuma para se ver. Mas as pessoas queixaram-se, e apesar de enterradas a alta velocidade, a dezenas de metros de profundidade, as novas carruagens com janelas vieram acabar com aquela sensação claustrofóbica que sentiam, dando-lhes a ilusão de espaço.
Deus é a janela duma carruagem de metro.

sexta-feira, setembro 26, 2003

Más companhias
Acompanho o meu irmão à matrícula. Portalegre. Aquilo é longe e ele não tem carro. Ele não fez parte dos sessenta e tal por cento dos que entraram para a primeira escolha. Sei que se tivesse entrado para o curso que queria, até era capaz de ir a pé. Só por esse motivo, porque sou contra estes acompanhantes tipo sombra ou anjo da guarda, acompanho-o.
Causa-me uma certa impressão ver miúdas acabadas de sair do liceu, já umas mulherzinhas portanto, acompanhadas sob a alçada dos pais, manas e primas, sempre mais velhas estas companhias, essa espécie de guardiões hormonais, no acto da matrícula, e quiçá depois no primeiro dia de aulas, na entrada para a residência de estudantes, sabe-se lá até onde... Esta geração de miúdas que afinal parecem desenvoltas apenas com as teclas do telemóvel. Fico envergonhado e teclo ás escondidas. Falo destas miúdas porque a universidade vai ser delas numa relação de 5 para um. Os pais dele também lá estão. Os meus só foram companhia quando entrei para a primeira classe, não tenho a certeza. Sei que para a pré-primária estiveram, isso sei. Depois, por aí fora, nunca mais tive companhia. Para quê ?! A parte burocrática sempre foi tratada por mim. Não era só eu, éramos todos assim, uns desenrascados. O tempo nas filas era passado na galhofa espontânea, aquela que só brota naturalmente sem a presença das fantasmagóricas companhias mais velhas. É no mínimo constrangedor saber que aquele gajo de bigodaças lá ao fundo é o pai da miúda ao lado, tão... cheia de dúvidas com o boletim das estatísticas do ministério. É absurdo estar num acto de matrícula onde no ar se respira o perfume rasca da praxe misturado com os perfumes austeros das mãezinhas. Ainda mais agora que existem os gabinetes de apoio ao aluno cujas simpáticas faces visíveis desfilam orgulhosa e elegantemente em traje académico. Mesmo com o calor, as prestáveis não tiram a roupa preta, mas tiram todas as dúvidas e as fotocópias. Que melhores companhias ?
Bagão Félix, paladino da segurança social do século XXI, havia de fazer contas ás horas de trabalho perdidas, e proibir duma vez por todas a entrada dos pais, manas e primas, sempre mais velhas, nos recintos universitários.

quarta-feira, setembro 24, 2003

Cristicida
Oiço na TSF que o Vaticano prepara-se mais uma vez para fazer das suas. Um cardeal qualquer lá do sítio, um cujo nome serviria na perfeição para marca de raticida, irá impôr novas regras quanto ao modus operandis das celebrações liturgicas, vulgo missas (é a mesma coisa não é ?) Se as missas já eram chatas como o caraças, este cardeal amigo, com toda a certeza ateu radical infiltrado, ameaça fazer o favor a toda a humanidade, ao torná-las ainda mais insuportáveis que uma melga filha de Deus a zumbir nos nossos ouvidos ás 4 da manhã. Quer o malandro, que a partir de agora as mulheres deixem de auxiliar o padre durante as homilias (adeus oh saudosas acólitas catequistas de mini-saia), que não se batam palmas (e agora como é que a malta acorda ?), que não se leia outra coisa que não seja a bíblia nas missas (adeus livrinhos do patinhas), exortando todos os fieis, aos que ainda tenham a pachorra e o descaramento de ir à missa, a darem largas ao seu lado bufo, fazendo queixinha á autoridade eclesiástica mais próxima caso o padre fuja a estas e mais outras, parece-me, trinta e tal regras do mesmo calibre!
Eu não faria melhor! Ora, eu e as minhas lunáticas ideias, a exterminação do cristo rei de Almada (a SIC realizou-me o sonho de pelo menos assistir do sofá a tal, numa promoção recente dos ‘Idolos’ onde se mostravam vários monumentos entre os quais o mono gigante vizinho da ponte sobre o Tejo, a ser implodido, um regalo para a vista), o levantamento de todo aquele alcatrão, betão e cera de Fátima e posterior transformação do espaço numa bela floresta só com aparições autorizadas a esquilos, javalis, coelhinhos e outra fauna real, e a conversão de todos as igrejas em espaços de arte, galerias, locais de leitura e de concertos de musica, enfim, medidas que, apercebo-me agora, só serviriam para criar mártires e focos de resistência entre as mentes mais empedernidas que as há muitas. Assim, nas calmas, com a suavidade como só realmente os padres têm no trato, se vai fazendo a grandiosa obra do ateu cardeal Ratzqualquercoisa, cujas discretas medidas em muito contribuirão para a extinção gradual do catolicismo, como um meteoro com efeitos ainda mais devastadores que aquele que exterminou os dinossauros.
Segundo consegui saber, isto não ficará felizmente por aqui. Aguardam-se para breve novas medidas do exterminador cardeal, como sejam a obrigação de todos os fieis saberem de cor e em latim todas as passagens da Bíblia, a prescrição pelos padres de TPC’s (trabalhos para casa) aos fieis (tipo rezar 50 ave marias enquanto fazem a espargata) ou obrigar os padres a proferirem as missas em jejum de 24, 48, 72 horas e assim progressivamente até deixarem de poder ir à praça comprar nabiças para a sopa.
Ave cardeal!

terça-feira, setembro 23, 2003

Finalmente
... O Resgate do Soldado Ryan. É o filme com mais guerra que já vi. Tal como não resistiu em pintar de vermelho aquela menina anónima na Lista de Schindler, Spielberg não resiste em salpicar da mesma cor a camera que filma na praia o caos do desembarque. Sentimento e realismo à la Spielberg. Afinal quem pretende ele enganar ?
... Thomas Moore. Ainda é cedo. Mas do que li, o mais interessante é uma citação de outrém, um monge italiano, parece: “Deus vê-nos com os mesmos olhos com que o vemos a ele.” Parece-me a antítese do filho. Olho por olho, dente por dente, ficamos pois quites, eu e Deus.
... Caminhada. Depois de várias diurnas, uma nocturna. As caminhadas parecem ter cada vez mais adeptos. Várias pessoas determinadas a “mandar uma perna para a frente da outra”, na maioria desconhecidas, propõem-se caminhar assim quase sem mais nem menos por caminhos também desconhecidos. À noite, isto tem ainda menos lógica e não sai mais barato: Poupa-se no protector solar mas gasta-se nas pilhas. Brevemente saberei onde e quando é a próxima.
... Túnel do Marquês. Parece estar tudo pronto para o arranque da grande obra de Santana. Assusta-me ver Lisboa transformada numa grande e moderana cidade Europeia. Lembro-me de ter atravessado Bruxelas de carro quase duma ponta à outra sempre debaixo de terra, por túneis. E um daqueles painéis que publicitavam a obra na Praça do Marquês, mostrando fotos de como era a praça há várias dezenas de anos atrás e que “felizmente” tinha havido “progresso”, só vieram reforçar em mim a convicção de como seria bem mais bonita a cidade naquele tempo, e como podia sê-lo já amanhã, com menos automóveis e sem túneis. Se ao menos isto fosse uma utopia, mas não é!

sexta-feira, setembro 19, 2003

Gibraltar
Deve ser um dos sítios do mundo com o mais alto índice de gente feia por m2. Talvez só Andorra ou a Costa da Caparica consigam rivalizar, mas não têm aqueles bares e pubs geridos por inglesas com celulite na barriga ou ingleses com dermatites seborreicas afixadas em lugares visíveis. O resto, turistas e preços um pouco por todo o lado, um aeroporto e alguns esquecimentos.
Mea culpa. Caí no erro de voltar com outros mesmos olhos ao mítico rochedo. Tinha lá estado há largos anos atrás, naquela que fora a minha mais próxima experiência duma so called lua de mel. Improvisada, correu bem. Então, as horas na fila para passar a fronteira não me pareceram minutos, mas andou lá perto. Então, não estacionei o carro passados alguns quilómetros de trava destrava e segui a pé debaixo do calor que é insuportável. Afinal, quando se está apaixonado, como se é sempre suposto estar numa lua de mel, até Fernão Ferro tem o encanto dum condomínio fechado de luxo. Ilusões à parte, Gibraltar tinha de facto um encanto especial. Ficara alojado no Caleta, hotel com duas vistas fabulosas, rocha e mar, aquilo que Gibraltar era. Haviam também os macacos á solta lá em cima. Vinham comer á nossa mão e depois roubavam-nos os pacotes de bolachas. Era um prazer ser assim assaltado e de manhãzinha, sempre à sombra da paixão, tomar aqueles pequenos almoços continentais servidos como só o sol os sabia servir.
As galerias escavadas nas rochas, grutas, a máquina fotográfica, as mãos, e a cidade lá em baixo. Aquele farol na ponta do rochedo cujo o vento nos empurrava dali para fora, mas principalmente para a rocha e mar, para ambos, rocha e mar, ambos.
Cometi o erro de voltar a um sitio onde já estivera e tinha gostado de estar. Gostado era pouco. Já tinha prometido a mim próprio nunca voltar a um mesmo sítio onde estivera e tinha gostado de estar. Aqueles, os que guardam algures no tempo as recordações, os momentos que julgamos invioláveis.
Nunca vemos a mesma qualquer coisa com os mesmos iguais olhos. Baralhamos tudo, desencantamos tudo. Não é por mal. Mas é mesmo assim.

terça-feira, setembro 16, 2003

A Mosca (reloaded)
Duas moscas são observadas por uma quarta mosca. Estão ambas a sussurrar, interrogando-se a outra porque falam tão baixinho quando àquela distancia é moscamente impossível ouvir a conversa. A terceira mosca já não existe, ou pelo menos já não respira, já não mexe, já não apresenta sinais de vida nem chateia ninguém. Debaixo duma casca de tremoço as moscas:
- Achas que existem moscas que antes de levantarem voo já sabem qual vai ser o próximo local de aterragem ?
- Claro que há, as que têm sorte. Qualquer mosca que caia no erro de fazê-lo, qualquer mosca que perca milionésimo de segundo em tal ou semelhante pensamento, perderá o tempo suficiente que tem para escapar a um mata moscas de plástico, químico ou orgânico.
- Quer dizer que eu, que já tive desse tipo de pensamentos, tenho sorte por ainda estar viva ?
- Esse é o tipo de pergunta óbvia e desnecessária que odeio nas outras moscas. Logicamente que sim! Se estás aqui é porque tiveste a sorte de não estar um mata moscas por perto quando estupidamente pensavas no teu poiso seguinte. Repara que já estamos aqui há quase um centésimo de segundo na palheta. Tempo precioso para fugir. Só não o faço porque me sinto segura debaixo desta casca de tremoço.
- Sim mas no voo de reconhecimento não vislumbrei nenhum mata-moscas de plástico...
- Imbecil mosca, não vês que qualquer objecto é um mata moscas em potência ?
Entretanto ouve-se tossir. A quarta mosca aproximou-se, e empoleirada na borda dum copo, tenta ouvir a conversa. Tosse uma daquelas tosses que nitidamente não está a ser medicamentada, e isso irrita as outras moscas.
- Bem, vou mas é pôr-me na alheta.
- Alheira ? Não me cheira, onde ? Eu vou também!
- Alheta, vou pôr-me na alheta! Aquela macaca ali em cima está a dar granel. A imperial ainda vai a meio e para ajudar à festa a gaja pôs-se a tossir na borda do copo, a parva. Vai dar nas vistas e vamos ser notadas.
- Vamos para onde ?
- Sei lá! Conheço-te de algum lado ? Nunca penso onde vou aterrar antes de levantar voo. Pensei que isso tivesse ficado bem claro! Estavas aqui por acaso e eu aterrei aqui por acaso e conversámos umas baboseiras quaisqueres.
- Não foi por acaso... Na realidade eu ando a seguir-te há muitos segundos. Descobri um padrão nos teus locais de aterragem, uma sequência que sabes muito bem que tens.
- Tás parva ?! Eu nunca penso para onde vou. Ando ao sabor dos cheiros que encontro aqui e ali. Tenho uma certa tara por casas de banhos com autoclismos avariados, mas isso agora não vem ao caso.
Ouve-se um estrondo, as cascas de tremoço estremecem mas todas as moscas mantêm-se nos seus lugares.
- Sim senhor, isso é que é coragem! Nem pestanejaste as asas.
- Chiça que susto! Mas como vi que não voaste, também não voei.
- Estou a ver que és bastante observadora. Esta barulheira foi apenas mais uma imperial que veio para a mesa. Há gajos assim. Esquecem-se de beber as imperiais até ao fim, ou então gostam de beber devagarinho. O gás desaparece e a solução é mandar vir outra. Sorte da mosca que tosse. O bêbado pelo menos por ora não vai pegar mais naquele copo e beber o que resta sem gás. Não está suficientemente bêbado para isso. E o empregado quando vier recolher a loiça, mesmo que veja a mosca, não fará nada que faça notá-la à clientela. É má onda haver moscas numa cervejaria. Pegará calmamente no copo dando tempo à outra para se pôr na alheta.
- É por isso que gosto de ti. Admiro-te muito. Ficas sexy quando dizes alheta. Sabes tudo. Isso excita-me. Ai...
- Tás parva!
- A sério. Diz-me para onde vais agora ? Seguirei tuas asas, poderás fazer de mim o que te apetecer. Sou toda tua.
- Tu própria disseste que havia nos meus voos um padrão... Adivinha imbecil!
A mosca que ficou, ficou de rastos, prostrada junto a uma casca ainda com um resto de tremoço no seu interior. Ela sabia para onde ia voar a outra, sabia que a outra estava a executar a sequência de voos sempre iguais nº 101. Mas de alguma maneira, teria sido uma prova de amor a outra ter-lhe revelado o poiso pela sua própria boca. Não dissera. Estava de rastos e só o cheiro a tremoço aliviava a tensão dramática da situação.
Será que a mosca nem por um segundo pensara que a outra poderia ter razão, de facto nunca sabia para onde voava e que se existia um padrão, era um acaso ?... Ela não sabia, não estava consciente disso e poderia ter sido honesta para com a outra. Foi isto que a quarta mosca lhe explicou. Aproximara-se entretanto. Era uma mosca que estava sempre à espera destas situações onde podia servir de ombro amigo primeiro, consolo erótico segundo. Era assim que engatava as outras.
- Diz-me para onde me levas ? Com a tosse que tens, sugeria um sitio pouco húmido...
- Deixa-me pensar... Podemos ir para... para... já sei, para a...
Aquele cheiro a mosca morta e tremoço durante muito tempo não saiu do nariz da mosca que testemunhou o fim daquela breve história de engate.

segunda-feira, setembro 15, 2003

DVD
Neste verão inscrevi-me num clube de vídeo. Mau sinal. Mas foi. Ultrapassados os tramites burocráticos (exigiram-me comprovativos de residência, atestado de sanidade mental e diversos testes de paternidade) pude finalmente retirar do expositor o meu primeiro filme DVD por 500 paus. Uns dias antes, imagine-se, em pleno Julho, comprara o meu primeiro leitor de DVD. Péssimo sinal, preparação óbvia para umas férias muito caseiras. A minha habitual volta por outras paragens foi sacrificada por motivos técnicos alheios. O programa lá seguiu dentro de momentos com um saltinho a Espanha (tinha que ser, tinha mesmo que ser), interior sul. Coisa pouca mas deu para fazer o gosto ao vicio das viagens e dormir uma das noites numa ?hostal? ao som da algazarra que as baratas faziam no sótão. De volta a casa, aperfeiçoei o ritual da visita ao clube de vídeo, dominando a nomenclatura das etiquetas, a localização das diversas secções e prateleiras, descobrindo todas as funcionalidades do aparelho reprodutor de DVD. A minha mão adaptou-se maravilhosamente bem ao mais recente telecomando da casa e quando saía do sofá, dava por mim a frequentar as secções de DVDs em promoção dos hiper-mercados. Foi em Espanha num "Al Campo" que adquiri oficialmente o meu primeiro filme. "El Hombre Elefant", a obra prima de David Lynch por 1500 paus. Achado do caraças, com legendas em português e opção de ouvir John Hurt em Castelhano. Ao rever o filme, dei-me conta da minha crescente incapacidade em reter as histórias e os momentos dos filmes que já vi. Estava a rever um filme mas era quase como se fosse a primeira vez. Vá lá, tinha a ideia de que a fotografia era a preto e branco e acertei. É certo que haviam passados uns bons dez anos, mas conheço malta capaz de se lembrar da marca da mota que a Pamela Anderson montava em "Barb Wire" ou descrever ao pormenor a alucinante sequência final de "Ghostbusters"! Não é fantástico!? Eu não. Esqueço-me. As memórias com que fico dos filmes são difusas, imagens mentais desfocadas, pontinhas de linhas descosidas que não levam a nada. Fica apenas a ideia reduzida do plot. Curiosamente retenho os nomes dos actores, realizador, director de fotografia e um ou outro momento mais marcante ou então um pormenor técnico, tudo matéria irrelevante quando se pretende contar o que se viu a quem de direito. A recordação quase exclusiva e compulsiva deste tipo de pormenores quase que chega a ser assustadora. Por exemplo, actualmente não me sai da ideia aquela sequência do "Panic Room" do David Fincher, com a Jodie Foster e fotografia do Darius Kondji, em que a camera, qual impossibilidade à boa maneira de "Siegfried & Roy" passa por dentro da pega duma máquina de café depois de segundos antes ter estado no interior duma fechadura. Esta minha característica afasta no entanto de mim o fantasma da Alzheimer. Mas pelo sim pelo não, a empregada do clube de vídeo está avisada. Verificará sempre na base de dados se acaso não estarei a levar um filme já visto. Caso tal aconteça e não apresente uma boa desculpa, tem ordem para ligar para um número que só nós cá sabemos.
Emprego
Era o que receava. Passados que são 45 minutos, é como se já estivesse aqui há uma semana. No final do dia terão passado meses, anos, terei sido promovido mas à beira do limite legal. Aceitarei o pacote da pré-reforma e voltarei no dia seguinte para continuar a passar invisível pelo tempo.

quarta-feira, julho 30, 2003

Descontinuidade
Já lá diz o blogueiro, “muita estrada, pouca entrada”. Vou de férias, Espanha concerteza que fica sempre de caminho para todo o lado.
Não terá este blog, muito provavelmente, entradas até meados de Setembro. Só mesmo se a internet me aparecer pela frente. Até lá, muito calor, hasta!

terça-feira, julho 29, 2003

Cerimónias fúnebres
Em Portugal, as cerimónias fúnebres das pessoas iguais ás outras são de uma violência atroz. A própria concepção do evento, todos os seus cerimoniais nebulosos que quase não podiam magoar ainda mais quem está debilitado pela perda, a ganância dos agentes funerários, passando pela estética do caixão, as flores que não podem faltar, a carreta funerária de serviço, as velhas das redondezas, os comentários dentro e fora do velório, esse massacre psicológico, e a indiferença maquinal dos coveiros, todo o ritual é das coisas mais ignóbeis que se praticam em solo português, um folclore diário, cruel e ridículo que se perpetua em grande parte por culpa da igreja.
Os americanos, as habituais caricaturas do povo estúpido, têm no entanto os seus cemitérios relvados sem qualquer tipo de excesso de mármores ou terra nos sapatos. A cerimónia é algo intimista, reservada à família próxima, e a cremação é uma opção muito praticada. Em muitos países empresta-se poesia e filosofia ao evento marcadamente simbólico e sentido, e nunca ostensivo ou lugar para feira de vaidades e de lugares comuns, lugar para comportamentos ‘histéricotipados’ ou de puro voyeurismo que muito caracterizam o funeral deselegante do país de procissões, fátimas e barrancos que somos, país eternamente condenado a estas e outras entranhadas mediocridades, práticas mais ou menos sádicas, tão pobres e despercebidas que passam...

sexta-feira, julho 25, 2003

Sabor a gasolina sem chumbo 95
- S'ela é cineca você só tem qui ser também!
- Mas eu não sou assim... Nunca fui educada assim, não sei ser assim. Os outros que sejam, mas eu não sou assim!
- Poiz'é m'nha filha, mas nesta vida nois temos qui aprender a ser tudo... Tudo menos roubá e matá.
- Puxa vida, milagre! Pod'gi abastecê!

quarta-feira, julho 23, 2003

Cais
O conceito da revista Cais é provavelmente a melhor ideia de sempre. Choca-me não haver prémios Nobel para as ideias que visassem tornar mais comestível a vida diária de todos nós, assim como me ofende a indiferença mal educada da maralha quando abordada pelos vendedores da Cais, que os há cada vez mais, não sabendo eu concluir se tal explosão demográfica será positiva ou negativa, se tal indiferença será sinónimo de calos nos pés.
Sempre que posso e tenho dinheiro (infelizmente coisa rara) compro a revista à rapaziada do chapelinho amarelo que está ali e muito bem e honradamente a ganhar o dela, e ao mesmo tempo a promover ao preço da chuva os artistas que colaboram com a revista. Ou seja, tem a honorável missão de pôr a cultura na rua, na taberna, na fila de bilhetes para o pavilhão atlântico, onde quer que seja. E o mínimo que qualquer frequentador da calçada portuguesa tem a fazer é dar-lhe o euro do costume e dar graças pela revista de qualidade que passa a ter entre mãos. Por isso, quando abordado, o pacato cidadão acabado de comprar o maçozito de tabaco malboro, ou a cidadã carente acabada de comprar o seu novo wonderbra, só tinham de se explicar muito bem explicadinhos porque não compravam a revista. Apresentassem atestado médico, exibissem a carteira vazia, alegassem falta de cabelo e consequente canalização dos trocos para o tratamento, o que fosse, que fizessem prova da impossibilidade imediata de contribuirem para o projecto ou chamava-se um daqueles fiscais da emel que os atarraxaria ao chão, quais veículos mal estacionados na vida pública.

segunda-feira, julho 21, 2003

Decoração de interiores
A uma alma bem mobilada não deve faltar uma boa paixão de marca.
Obrigado canal 2
Ver "Stachka" (A greve, 1925) de Sergei Eisenstein é como assistir ao "big-bang" do cinema.
Sinal dos tempos nº 54687
Nunca como agora houve tanta procura, tanta oferta e tão pouco negócio.
Opinião sem blog #1
"Em vez de andarem por aí a bater no pai e na mãe, escrevem. É positivo, a malta solta cá para fora, toda a merda que tem lá dentro. " (autor identificado)