terça-feira, setembro 30, 2003

Ídolos do telecomando
Madonna disse uma vez, e muito bem, “Ohhh, sim, sim!”!... Desculpem, cassete errada, agora sim, “A televisão só tem utilidade se for para aparecermos nela.” Foi das coisas mais inteligentes que ouvi hoje, logo a seguir ao “hoje pago eu” do meu colega. De facto, se não aparecemos na televisão, para quê estar a perder tempo a ver outros aparecer ? Talvez por isso considere de entre todos, “Ídolos” o programa mais estúpido, logo, mais didáctico, o melhor programa da televisão portuguesa.
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Sucedâneo um pouco mais soft do velho formato da Private, os famosos castings (espécie de “porno-idolos”), o “Ídolos” apela a um mesmo instinto básico comum a qualquer telespectador, o “voyeurismo”. Se no primeiro espreitava-se o basqueiro das mais ou menos atrapalhadas e inexperientes candidatas despidas, neste, a mesma matéria prima surge vestida, apostada em desviar a atenção para outros dotes. Malta qualquer, que sonha pelo milagre da idolatria instantânea (à carinha bonita, basta juntar um bom corpinho, abanar e já está).
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Com a benção do júri, assustador, experiente, com muito currículo “graças a deus”, isto numa clara alusão aos machões hiper-dotados dos castings da Private que desfloram a ansiedade das aspirantes a porno-estrelas. São os júris, quem se encarregarão de decidir quem e o que é que tele-viciado irá depois consumir. Estão mandatados por ele, sabem o que ele gosta: “Epá, o aspecto vale p’rai 80%! E tu... Por mim podes sair!”. E não é que é mesmo 80%! Os gajos lá sabem.
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O programa mostra-nos o real valor da televisão, o valor honesto e verdadeiro: estamos descaradamente a ver outros a dar barraca através dum aparelho inventado afinal para esse efeito. E dá-nos um gozo do caraças, pondo-nos num embevecido estado semi-vegetativo, de total ausência de pensamento construtivo ou criativo. Tenho a certeza que era essa a intenção do inventor da televisão, criar uma alternativa sólida à vivência pelo cidadão da não menos enfadonha e estúpida política dos partidos. Infelizmente um dia alguém adulterou tudo, julgou que seria um óptimo meio de comunicação, confundindo claramente vegetação com comunicação.
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Dar barraca é saudável e pode ser divertido principalmente se não formos nós a dá-la. Toda a gente já deu barraca para mais ou menos audiência, mas fazer da barraca tempo da antena é que é mesmo bonito.
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A televisão tem sido culturalmente sobrevalorizada ao longo de muitos anos, subvalorizando-se os reais efeitos nefastos que a mesma veio trazer aos terráqueos (terráqueos, faz de conta que sou um observador de outro planeta! Há um herói da Marvel assim. Já não me lembro o nome.). Muitos programas ditos culturais ou de divulgação cientifica, de animaizinhos, não anulam a terrível verdade: ao longo destes encaixotados anos temos sido e continuaremos a ser atrofiados pelo poder esmagador das imagens, intoxicados com publicidade, esvaziados pelas estórias dos argumentistas da Globo, cegos com as interpretações da Sofia Alves, extinguindo-se progressivamente a nossa capacidade de raciocínio, de vivência, e, principalmente, a imaginação, o tal poder imaginativo que só a palavra escrita lida ou ouvida estimula, ao contrário da imagem animada, onde os conteúdos são-nos dados visualmente, de bandeja.
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Imaginemos um mundo sem televisão. O efeito da tragédia do 11 de Setembro (para todos os efeitos, a referência contemporânea mais trágica) não seria mais sentido se apenas tivéssemos tido acesso aos relatos de jornalistas e testemunhas ? As nossas cabecinhas não dariam mais voltas e voltas, tentando imaginar, fazendo a reconstrução mental dos acontecimentos, tornando assim mais intenso o sentimento daquele drama bem real ? Estou convicto que sim. Será mais perturbador imaginar o que devem ter sentido as pessoas no interior dos aviões. O embate dos aviões em sim mesmo, as pessoas a saltar desesperadas, imagens repetidas à exaustão, adquiriram uma dimensão quase secundária, quase ficcional, quase espectacular, aproximando-nos o acontecimento dos olhos, mas afastando-o do, vou dizer, coração. Mas se por acaso tivessem sido transmitidas imagens do interior de um avião, minutos, segundos antes do embate, se tivéssemos tido acesso televisionado às imagens, acredito que essa perturbação, esse sentir doloroso seria atenuado. O que estou a querer dizer, é que a televisão pode ter um efeito pernicioso sobre a nossa capacidade de sentir, de sentir compaixão. Atenua e mascara o que é doloroso, distancia-nos com uma confortável segurança, do drama real. Digo que existe uma diferença muito mais ampla e perigosa entre o escrito “in loco” e o transmitido “in videns”.
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Faz parte do desenvolvimento normal dum indivíduo, mais ou menos regularmente, voluntária ou involuntariamente, testemunhar a estupidez. É saudável. O confronto com tão enraizado veneno pode servir, mais que não seja, para pôr ali os olhos e não ser-se estúpido. Para quem tenta viver o mais afastado possível da estupidez, a televisão pode ser o único elo de ligação com o fenómeno. Assim como um pai deve corresponder ao modelo de virtudes positivas para o filho, a televisão deve ser o modelo inverso, um espelho do ridículo e de maus exemplos que em circunstancia alguma devem ser repetidos na vida real. É para isso que a televisão serve. Daí, quanto mais estúpido for o programa, melhor, mais eficaz. Mas isto, ver televisão e chamo a ver televisão, ver novelas, reality shows, telejornais, publicidade, bigbroderes e ídolos, esta terapia só será recomendável cinco, no máximo 10 minutos diários, posologia esta que deveria ser seguida à risca. Meia hora para casos mais graves. Existem casos em que mestres em yoga-tv, conseguem passar um mês sem tocar num telecomando.
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Em caso de tele-depêndencia, iniciar-se-ia um programa de desmame, reduzindo diariamente 1 minuto (mais seria traumático para o tele-imbecil doente). Acima de tudo, o doente deveria estar consciente do poderoso efeito hipnótico que as imagens têm sobre ele quando, sentado num sofá, após ter pousado o jornal, portanto, intelectualmente inerte. Não deixar-se seduzir pelo telecomando que, como todas as coisas ridículas do mundo, funciona a pilhas. Á falta do melhor do mundo, á falta da visão maravilhosa de uns sapatos de salto alto esquecidos no meio da sala, ter um animal de estimação pode ser uma excelente alternativa ao telecomando, acariciando-se-lhe o pêlo, escovando-o, dando-lhe pedacinhos de fiambre barato. Há pessoas tão tele-perturbadas que já foram vistas a passear de trela telecomandos universais pela Praça da Alegria. Está claro de se ver que o porteiro da maxime vedou-lhes a entrada!
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Qualquer pessoa que não seja crítico de televisão e sinta necessidade de estar frente ao televisor mais que o estritamente necessário ao controlo do seu processo estupidológico, deve rapidamente consultar ajuda médica especializada, o seu gestor de conta, visitar a biblioteca mais próxima, contactar uma empresa de ocupação de tempos livres ou então ir à cozinha comer donuts com leite fresco. Se nada disto resultar, experimente a receita mais eficaz: desligue a televisão da tomada de electricidade.

segunda-feira, setembro 29, 2003

Deus, patrocinador oficial
Os construtores das primeiras carruagens de metropolitano fizeram-nas sem janelas. Afinal, não havia paisagem nenhuma para se ver. Mas as pessoas queixaram-se, e apesar de enterradas a alta velocidade, a dezenas de metros de profundidade, as novas carruagens com janelas vieram acabar com aquela sensação claustrofóbica que sentiam, dando-lhes a ilusão de espaço.
Deus é a janela duma carruagem de metro.

sexta-feira, setembro 26, 2003

Más companhias
Acompanho o meu irmão à matrícula. Portalegre. Aquilo é longe e ele não tem carro. Ele não fez parte dos sessenta e tal por cento dos que entraram para a primeira escolha. Sei que se tivesse entrado para o curso que queria, até era capaz de ir a pé. Só por esse motivo, porque sou contra estes acompanhantes tipo sombra ou anjo da guarda, acompanho-o.
Causa-me uma certa impressão ver miúdas acabadas de sair do liceu, já umas mulherzinhas portanto, acompanhadas sob a alçada dos pais, manas e primas, sempre mais velhas estas companhias, essa espécie de guardiões hormonais, no acto da matrícula, e quiçá depois no primeiro dia de aulas, na entrada para a residência de estudantes, sabe-se lá até onde... Esta geração de miúdas que afinal parecem desenvoltas apenas com as teclas do telemóvel. Fico envergonhado e teclo ás escondidas. Falo destas miúdas porque a universidade vai ser delas numa relação de 5 para um. Os pais dele também lá estão. Os meus só foram companhia quando entrei para a primeira classe, não tenho a certeza. Sei que para a pré-primária estiveram, isso sei. Depois, por aí fora, nunca mais tive companhia. Para quê ?! A parte burocrática sempre foi tratada por mim. Não era só eu, éramos todos assim, uns desenrascados. O tempo nas filas era passado na galhofa espontânea, aquela que só brota naturalmente sem a presença das fantasmagóricas companhias mais velhas. É no mínimo constrangedor saber que aquele gajo de bigodaças lá ao fundo é o pai da miúda ao lado, tão... cheia de dúvidas com o boletim das estatísticas do ministério. É absurdo estar num acto de matrícula onde no ar se respira o perfume rasca da praxe misturado com os perfumes austeros das mãezinhas. Ainda mais agora que existem os gabinetes de apoio ao aluno cujas simpáticas faces visíveis desfilam orgulhosa e elegantemente em traje académico. Mesmo com o calor, as prestáveis não tiram a roupa preta, mas tiram todas as dúvidas e as fotocópias. Que melhores companhias ?
Bagão Félix, paladino da segurança social do século XXI, havia de fazer contas ás horas de trabalho perdidas, e proibir duma vez por todas a entrada dos pais, manas e primas, sempre mais velhas, nos recintos universitários.

quarta-feira, setembro 24, 2003

Cristicida
Oiço na TSF que o Vaticano prepara-se mais uma vez para fazer das suas. Um cardeal qualquer lá do sítio, um cujo nome serviria na perfeição para marca de raticida, irá impôr novas regras quanto ao modus operandis das celebrações liturgicas, vulgo missas (é a mesma coisa não é ?) Se as missas já eram chatas como o caraças, este cardeal amigo, com toda a certeza ateu radical infiltrado, ameaça fazer o favor a toda a humanidade, ao torná-las ainda mais insuportáveis que uma melga filha de Deus a zumbir nos nossos ouvidos ás 4 da manhã. Quer o malandro, que a partir de agora as mulheres deixem de auxiliar o padre durante as homilias (adeus oh saudosas acólitas catequistas de mini-saia), que não se batam palmas (e agora como é que a malta acorda ?), que não se leia outra coisa que não seja a bíblia nas missas (adeus livrinhos do patinhas), exortando todos os fieis, aos que ainda tenham a pachorra e o descaramento de ir à missa, a darem largas ao seu lado bufo, fazendo queixinha á autoridade eclesiástica mais próxima caso o padre fuja a estas e mais outras, parece-me, trinta e tal regras do mesmo calibre!
Eu não faria melhor! Ora, eu e as minhas lunáticas ideias, a exterminação do cristo rei de Almada (a SIC realizou-me o sonho de pelo menos assistir do sofá a tal, numa promoção recente dos ‘Idolos’ onde se mostravam vários monumentos entre os quais o mono gigante vizinho da ponte sobre o Tejo, a ser implodido, um regalo para a vista), o levantamento de todo aquele alcatrão, betão e cera de Fátima e posterior transformação do espaço numa bela floresta só com aparições autorizadas a esquilos, javalis, coelhinhos e outra fauna real, e a conversão de todos as igrejas em espaços de arte, galerias, locais de leitura e de concertos de musica, enfim, medidas que, apercebo-me agora, só serviriam para criar mártires e focos de resistência entre as mentes mais empedernidas que as há muitas. Assim, nas calmas, com a suavidade como só realmente os padres têm no trato, se vai fazendo a grandiosa obra do ateu cardeal Ratzqualquercoisa, cujas discretas medidas em muito contribuirão para a extinção gradual do catolicismo, como um meteoro com efeitos ainda mais devastadores que aquele que exterminou os dinossauros.
Segundo consegui saber, isto não ficará felizmente por aqui. Aguardam-se para breve novas medidas do exterminador cardeal, como sejam a obrigação de todos os fieis saberem de cor e em latim todas as passagens da Bíblia, a prescrição pelos padres de TPC’s (trabalhos para casa) aos fieis (tipo rezar 50 ave marias enquanto fazem a espargata) ou obrigar os padres a proferirem as missas em jejum de 24, 48, 72 horas e assim progressivamente até deixarem de poder ir à praça comprar nabiças para a sopa.
Ave cardeal!

terça-feira, setembro 23, 2003

Finalmente
... O Resgate do Soldado Ryan. É o filme com mais guerra que já vi. Tal como não resistiu em pintar de vermelho aquela menina anónima na Lista de Schindler, Spielberg não resiste em salpicar da mesma cor a camera que filma na praia o caos do desembarque. Sentimento e realismo à la Spielberg. Afinal quem pretende ele enganar ?
... Thomas Moore. Ainda é cedo. Mas do que li, o mais interessante é uma citação de outrém, um monge italiano, parece: “Deus vê-nos com os mesmos olhos com que o vemos a ele.” Parece-me a antítese do filho. Olho por olho, dente por dente, ficamos pois quites, eu e Deus.
... Caminhada. Depois de várias diurnas, uma nocturna. As caminhadas parecem ter cada vez mais adeptos. Várias pessoas determinadas a “mandar uma perna para a frente da outra”, na maioria desconhecidas, propõem-se caminhar assim quase sem mais nem menos por caminhos também desconhecidos. À noite, isto tem ainda menos lógica e não sai mais barato: Poupa-se no protector solar mas gasta-se nas pilhas. Brevemente saberei onde e quando é a próxima.
... Túnel do Marquês. Parece estar tudo pronto para o arranque da grande obra de Santana. Assusta-me ver Lisboa transformada numa grande e moderana cidade Europeia. Lembro-me de ter atravessado Bruxelas de carro quase duma ponta à outra sempre debaixo de terra, por túneis. E um daqueles painéis que publicitavam a obra na Praça do Marquês, mostrando fotos de como era a praça há várias dezenas de anos atrás e que “felizmente” tinha havido “progresso”, só vieram reforçar em mim a convicção de como seria bem mais bonita a cidade naquele tempo, e como podia sê-lo já amanhã, com menos automóveis e sem túneis. Se ao menos isto fosse uma utopia, mas não é!

sexta-feira, setembro 19, 2003

Gibraltar
Deve ser um dos sítios do mundo com o mais alto índice de gente feia por m2. Talvez só Andorra ou a Costa da Caparica consigam rivalizar, mas não têm aqueles bares e pubs geridos por inglesas com celulite na barriga ou ingleses com dermatites seborreicas afixadas em lugares visíveis. O resto, turistas e preços um pouco por todo o lado, um aeroporto e alguns esquecimentos.
Mea culpa. Caí no erro de voltar com outros mesmos olhos ao mítico rochedo. Tinha lá estado há largos anos atrás, naquela que fora a minha mais próxima experiência duma so called lua de mel. Improvisada, correu bem. Então, as horas na fila para passar a fronteira não me pareceram minutos, mas andou lá perto. Então, não estacionei o carro passados alguns quilómetros de trava destrava e segui a pé debaixo do calor que é insuportável. Afinal, quando se está apaixonado, como se é sempre suposto estar numa lua de mel, até Fernão Ferro tem o encanto dum condomínio fechado de luxo. Ilusões à parte, Gibraltar tinha de facto um encanto especial. Ficara alojado no Caleta, hotel com duas vistas fabulosas, rocha e mar, aquilo que Gibraltar era. Haviam também os macacos á solta lá em cima. Vinham comer á nossa mão e depois roubavam-nos os pacotes de bolachas. Era um prazer ser assim assaltado e de manhãzinha, sempre à sombra da paixão, tomar aqueles pequenos almoços continentais servidos como só o sol os sabia servir.
As galerias escavadas nas rochas, grutas, a máquina fotográfica, as mãos, e a cidade lá em baixo. Aquele farol na ponta do rochedo cujo o vento nos empurrava dali para fora, mas principalmente para a rocha e mar, para ambos, rocha e mar, ambos.
Cometi o erro de voltar a um sitio onde já estivera e tinha gostado de estar. Gostado era pouco. Já tinha prometido a mim próprio nunca voltar a um mesmo sítio onde estivera e tinha gostado de estar. Aqueles, os que guardam algures no tempo as recordações, os momentos que julgamos invioláveis.
Nunca vemos a mesma qualquer coisa com os mesmos iguais olhos. Baralhamos tudo, desencantamos tudo. Não é por mal. Mas é mesmo assim.

terça-feira, setembro 16, 2003

A Mosca (reloaded)
Duas moscas são observadas por uma quarta mosca. Estão ambas a sussurrar, interrogando-se a outra porque falam tão baixinho quando àquela distancia é moscamente impossível ouvir a conversa. A terceira mosca já não existe, ou pelo menos já não respira, já não mexe, já não apresenta sinais de vida nem chateia ninguém. Debaixo duma casca de tremoço as moscas:
- Achas que existem moscas que antes de levantarem voo já sabem qual vai ser o próximo local de aterragem ?
- Claro que há, as que têm sorte. Qualquer mosca que caia no erro de fazê-lo, qualquer mosca que perca milionésimo de segundo em tal ou semelhante pensamento, perderá o tempo suficiente que tem para escapar a um mata moscas de plástico, químico ou orgânico.
- Quer dizer que eu, que já tive desse tipo de pensamentos, tenho sorte por ainda estar viva ?
- Esse é o tipo de pergunta óbvia e desnecessária que odeio nas outras moscas. Logicamente que sim! Se estás aqui é porque tiveste a sorte de não estar um mata moscas por perto quando estupidamente pensavas no teu poiso seguinte. Repara que já estamos aqui há quase um centésimo de segundo na palheta. Tempo precioso para fugir. Só não o faço porque me sinto segura debaixo desta casca de tremoço.
- Sim mas no voo de reconhecimento não vislumbrei nenhum mata-moscas de plástico...
- Imbecil mosca, não vês que qualquer objecto é um mata moscas em potência ?
Entretanto ouve-se tossir. A quarta mosca aproximou-se, e empoleirada na borda dum copo, tenta ouvir a conversa. Tosse uma daquelas tosses que nitidamente não está a ser medicamentada, e isso irrita as outras moscas.
- Bem, vou mas é pôr-me na alheta.
- Alheira ? Não me cheira, onde ? Eu vou também!
- Alheta, vou pôr-me na alheta! Aquela macaca ali em cima está a dar granel. A imperial ainda vai a meio e para ajudar à festa a gaja pôs-se a tossir na borda do copo, a parva. Vai dar nas vistas e vamos ser notadas.
- Vamos para onde ?
- Sei lá! Conheço-te de algum lado ? Nunca penso onde vou aterrar antes de levantar voo. Pensei que isso tivesse ficado bem claro! Estavas aqui por acaso e eu aterrei aqui por acaso e conversámos umas baboseiras quaisqueres.
- Não foi por acaso... Na realidade eu ando a seguir-te há muitos segundos. Descobri um padrão nos teus locais de aterragem, uma sequência que sabes muito bem que tens.
- Tás parva ?! Eu nunca penso para onde vou. Ando ao sabor dos cheiros que encontro aqui e ali. Tenho uma certa tara por casas de banhos com autoclismos avariados, mas isso agora não vem ao caso.
Ouve-se um estrondo, as cascas de tremoço estremecem mas todas as moscas mantêm-se nos seus lugares.
- Sim senhor, isso é que é coragem! Nem pestanejaste as asas.
- Chiça que susto! Mas como vi que não voaste, também não voei.
- Estou a ver que és bastante observadora. Esta barulheira foi apenas mais uma imperial que veio para a mesa. Há gajos assim. Esquecem-se de beber as imperiais até ao fim, ou então gostam de beber devagarinho. O gás desaparece e a solução é mandar vir outra. Sorte da mosca que tosse. O bêbado pelo menos por ora não vai pegar mais naquele copo e beber o que resta sem gás. Não está suficientemente bêbado para isso. E o empregado quando vier recolher a loiça, mesmo que veja a mosca, não fará nada que faça notá-la à clientela. É má onda haver moscas numa cervejaria. Pegará calmamente no copo dando tempo à outra para se pôr na alheta.
- É por isso que gosto de ti. Admiro-te muito. Ficas sexy quando dizes alheta. Sabes tudo. Isso excita-me. Ai...
- Tás parva!
- A sério. Diz-me para onde vais agora ? Seguirei tuas asas, poderás fazer de mim o que te apetecer. Sou toda tua.
- Tu própria disseste que havia nos meus voos um padrão... Adivinha imbecil!
A mosca que ficou, ficou de rastos, prostrada junto a uma casca ainda com um resto de tremoço no seu interior. Ela sabia para onde ia voar a outra, sabia que a outra estava a executar a sequência de voos sempre iguais nº 101. Mas de alguma maneira, teria sido uma prova de amor a outra ter-lhe revelado o poiso pela sua própria boca. Não dissera. Estava de rastos e só o cheiro a tremoço aliviava a tensão dramática da situação.
Será que a mosca nem por um segundo pensara que a outra poderia ter razão, de facto nunca sabia para onde voava e que se existia um padrão, era um acaso ?... Ela não sabia, não estava consciente disso e poderia ter sido honesta para com a outra. Foi isto que a quarta mosca lhe explicou. Aproximara-se entretanto. Era uma mosca que estava sempre à espera destas situações onde podia servir de ombro amigo primeiro, consolo erótico segundo. Era assim que engatava as outras.
- Diz-me para onde me levas ? Com a tosse que tens, sugeria um sitio pouco húmido...
- Deixa-me pensar... Podemos ir para... para... já sei, para a...
Aquele cheiro a mosca morta e tremoço durante muito tempo não saiu do nariz da mosca que testemunhou o fim daquela breve história de engate.

segunda-feira, setembro 15, 2003

DVD
Neste verão inscrevi-me num clube de vídeo. Mau sinal. Mas foi. Ultrapassados os tramites burocráticos (exigiram-me comprovativos de residência, atestado de sanidade mental e diversos testes de paternidade) pude finalmente retirar do expositor o meu primeiro filme DVD por 500 paus. Uns dias antes, imagine-se, em pleno Julho, comprara o meu primeiro leitor de DVD. Péssimo sinal, preparação óbvia para umas férias muito caseiras. A minha habitual volta por outras paragens foi sacrificada por motivos técnicos alheios. O programa lá seguiu dentro de momentos com um saltinho a Espanha (tinha que ser, tinha mesmo que ser), interior sul. Coisa pouca mas deu para fazer o gosto ao vicio das viagens e dormir uma das noites numa ?hostal? ao som da algazarra que as baratas faziam no sótão. De volta a casa, aperfeiçoei o ritual da visita ao clube de vídeo, dominando a nomenclatura das etiquetas, a localização das diversas secções e prateleiras, descobrindo todas as funcionalidades do aparelho reprodutor de DVD. A minha mão adaptou-se maravilhosamente bem ao mais recente telecomando da casa e quando saía do sofá, dava por mim a frequentar as secções de DVDs em promoção dos hiper-mercados. Foi em Espanha num "Al Campo" que adquiri oficialmente o meu primeiro filme. "El Hombre Elefant", a obra prima de David Lynch por 1500 paus. Achado do caraças, com legendas em português e opção de ouvir John Hurt em Castelhano. Ao rever o filme, dei-me conta da minha crescente incapacidade em reter as histórias e os momentos dos filmes que já vi. Estava a rever um filme mas era quase como se fosse a primeira vez. Vá lá, tinha a ideia de que a fotografia era a preto e branco e acertei. É certo que haviam passados uns bons dez anos, mas conheço malta capaz de se lembrar da marca da mota que a Pamela Anderson montava em "Barb Wire" ou descrever ao pormenor a alucinante sequência final de "Ghostbusters"! Não é fantástico!? Eu não. Esqueço-me. As memórias com que fico dos filmes são difusas, imagens mentais desfocadas, pontinhas de linhas descosidas que não levam a nada. Fica apenas a ideia reduzida do plot. Curiosamente retenho os nomes dos actores, realizador, director de fotografia e um ou outro momento mais marcante ou então um pormenor técnico, tudo matéria irrelevante quando se pretende contar o que se viu a quem de direito. A recordação quase exclusiva e compulsiva deste tipo de pormenores quase que chega a ser assustadora. Por exemplo, actualmente não me sai da ideia aquela sequência do "Panic Room" do David Fincher, com a Jodie Foster e fotografia do Darius Kondji, em que a camera, qual impossibilidade à boa maneira de "Siegfried & Roy" passa por dentro da pega duma máquina de café depois de segundos antes ter estado no interior duma fechadura. Esta minha característica afasta no entanto de mim o fantasma da Alzheimer. Mas pelo sim pelo não, a empregada do clube de vídeo está avisada. Verificará sempre na base de dados se acaso não estarei a levar um filme já visto. Caso tal aconteça e não apresente uma boa desculpa, tem ordem para ligar para um número que só nós cá sabemos.
Emprego
Era o que receava. Passados que são 45 minutos, é como se já estivesse aqui há uma semana. No final do dia terão passado meses, anos, terei sido promovido mas à beira do limite legal. Aceitarei o pacote da pré-reforma e voltarei no dia seguinte para continuar a passar invisível pelo tempo.

quarta-feira, julho 30, 2003

Descontinuidade
Já lá diz o blogueiro, “muita estrada, pouca entrada”. Vou de férias, Espanha concerteza que fica sempre de caminho para todo o lado.
Não terá este blog, muito provavelmente, entradas até meados de Setembro. Só mesmo se a internet me aparecer pela frente. Até lá, muito calor, hasta!

terça-feira, julho 29, 2003

Cerimónias fúnebres
Em Portugal, as cerimónias fúnebres das pessoas iguais ás outras são de uma violência atroz. A própria concepção do evento, todos os seus cerimoniais nebulosos que quase não podiam magoar ainda mais quem está debilitado pela perda, a ganância dos agentes funerários, passando pela estética do caixão, as flores que não podem faltar, a carreta funerária de serviço, as velhas das redondezas, os comentários dentro e fora do velório, esse massacre psicológico, e a indiferença maquinal dos coveiros, todo o ritual é das coisas mais ignóbeis que se praticam em solo português, um folclore diário, cruel e ridículo que se perpetua em grande parte por culpa da igreja.
Os americanos, as habituais caricaturas do povo estúpido, têm no entanto os seus cemitérios relvados sem qualquer tipo de excesso de mármores ou terra nos sapatos. A cerimónia é algo intimista, reservada à família próxima, e a cremação é uma opção muito praticada. Em muitos países empresta-se poesia e filosofia ao evento marcadamente simbólico e sentido, e nunca ostensivo ou lugar para feira de vaidades e de lugares comuns, lugar para comportamentos ‘histéricotipados’ ou de puro voyeurismo que muito caracterizam o funeral deselegante do país de procissões, fátimas e barrancos que somos, país eternamente condenado a estas e outras entranhadas mediocridades, práticas mais ou menos sádicas, tão pobres e despercebidas que passam...

sexta-feira, julho 25, 2003

Sabor a gasolina sem chumbo 95
- S'ela é cineca você só tem qui ser também!
- Mas eu não sou assim... Nunca fui educada assim, não sei ser assim. Os outros que sejam, mas eu não sou assim!
- Poiz'é m'nha filha, mas nesta vida nois temos qui aprender a ser tudo... Tudo menos roubá e matá.
- Puxa vida, milagre! Pod'gi abastecê!

quarta-feira, julho 23, 2003

Cais
O conceito da revista Cais é provavelmente a melhor ideia de sempre. Choca-me não haver prémios Nobel para as ideias que visassem tornar mais comestível a vida diária de todos nós, assim como me ofende a indiferença mal educada da maralha quando abordada pelos vendedores da Cais, que os há cada vez mais, não sabendo eu concluir se tal explosão demográfica será positiva ou negativa, se tal indiferença será sinónimo de calos nos pés.
Sempre que posso e tenho dinheiro (infelizmente coisa rara) compro a revista à rapaziada do chapelinho amarelo que está ali e muito bem e honradamente a ganhar o dela, e ao mesmo tempo a promover ao preço da chuva os artistas que colaboram com a revista. Ou seja, tem a honorável missão de pôr a cultura na rua, na taberna, na fila de bilhetes para o pavilhão atlântico, onde quer que seja. E o mínimo que qualquer frequentador da calçada portuguesa tem a fazer é dar-lhe o euro do costume e dar graças pela revista de qualidade que passa a ter entre mãos. Por isso, quando abordado, o pacato cidadão acabado de comprar o maçozito de tabaco malboro, ou a cidadã carente acabada de comprar o seu novo wonderbra, só tinham de se explicar muito bem explicadinhos porque não compravam a revista. Apresentassem atestado médico, exibissem a carteira vazia, alegassem falta de cabelo e consequente canalização dos trocos para o tratamento, o que fosse, que fizessem prova da impossibilidade imediata de contribuirem para o projecto ou chamava-se um daqueles fiscais da emel que os atarraxaria ao chão, quais veículos mal estacionados na vida pública.

segunda-feira, julho 21, 2003

Decoração de interiores
A uma alma bem mobilada não deve faltar uma boa paixão de marca.
Obrigado canal 2
Ver "Stachka" (A greve, 1925) de Sergei Eisenstein é como assistir ao "big-bang" do cinema.
Sinal dos tempos nº 54687
Nunca como agora houve tanta procura, tanta oferta e tão pouco negócio.
Opinião sem blog #1
"Em vez de andarem por aí a bater no pai e na mãe, escrevem. É positivo, a malta solta cá para fora, toda a merda que tem lá dentro. " (autor identificado)

quarta-feira, julho 16, 2003

O robalo
Numa madrugada húmida, um homem tem um pesadelo numa cama demasiadamente seca. Começa a sufocar, engasgado com uma pastilha elástica, enquanto beija uma das mulheres dos seus sonhos. Ela retoca a maquilhagem e ao mesmo tempo tenta salvá-lo com a língua que toma a forma dum anzol mas que à distancia parece apenas uma língua molhada. Pesca um robalo e o homem, aflito, começa a acenar tentando chamar as atenções, não lhe passando uma única vez pela cabeça porque é um robalo e não uma corvina que está agora ali ao seu lado, também a estrebuchar. Passa por ali perto uma outra mulher que é especialista em homens com pesadelos e espera pacientemente que a outra comece a ter a certeza sobre o que fazer mas a ficar sem saber para onde ir. Assim acontece, tendo sido vista pela ultima vez tentando à força sincronizar o passo com uma avestruz. A especialista aproxima-se e repara divertida como a cor da cara do homem condiz com a cor do robalo que só desejava que alguém lhe fizesse respiração boca sensual de lábios vermelhos à guelra. Ela podia estar ali uma contemplativa vida inteira Chega a rir mas depois apercebe-se que parece uma louca, que facilmente pode engasgar-se, e muda de expressão. A visível alteração facial faz com que do tecto do quarto comece a cair uma grande carga de carvão em brasa. O robalo, numa aflição, larga tudo o que não trazia e volta ao seu habitat natural. Mas tal foi a pressa de fugir à saraivada que o homem fica sem 8 dentes e uma espinha atravessada na garganta. A especialista transforma-se em sardinha assada e o molho que escorre pelas goelas do homem faz acender a lâmpada dum candeeiro duma mesa de cabeceira com um parafuso a menos. A pastilha e os dentes estão no mesmo lugar. A mulher ressona ao seu lado. Por debaixo da cama há mais.

segunda-feira, julho 14, 2003

Antagonia
Não vou à bola com o feitio de Deus. Se calhar o pai dele já era assim.... Mas não há desculpa. O meu pai é do Sporting e eu nunca fui na conversa!
Hidrotupia
A água podia ser fabricada já com todos os ingredientes necessários à vida. Não haviam facas nem garfos, só copos, garrafas e pedras nos rins. Bebia-se um copo de água, ficava-se enfartado e arrotava-se a enchiladas. Às vezes dar-nos-ia azia e tomaríamos umas gotinhas de água com sabor a compensame.
Micto-Arte
Andy Warhol concebeu uma série de quadros com urina e a malta agradecida comprou-os. Reza a lenda que quando não estava com a bexiga para ali virada, telefonava a amigos e pedia-lhes que passassem pela “Factory” a dar uma mijinha. Dois cafés e complexo B eram a receita dum mijo bem amarelo que ficava melhor na tela que na retrete. O Andy era marado dos cornos mas não tinha outra alternativa.
Filosofia de Bolso
É fácil ter-se razão. Ainda mais fácil é perdê-la. Devo ter os bolsos rotos.

quinta-feira, julho 10, 2003

A idade da proeminência
A partir dos trinta anos não começamos a sentir qualquer peso da idade, antes, começamos a procurar sinais da idade. Até ali um gajo não tem idade, é simplesmente novo, alegremente sem idade, nem sequer sabe o que é isso da idade. Não procura nada que não seja o próximo engate ou com insistência novas maneiras de tanguear os porteiros das discotecas para entrar sem pagar. Depois, de um ano para o outro, apercebe-se que já não pode renovar o cartão jovem, é confrontado com o facto de que afinal já começa a ter idade, e que nas discotecas o barmen deve andar a meter-lhe ás escondidas soporíferos nos copos depois do 2º vodka . Diz-se que surge aqui a primeira crise, a dos trinta.
Felizmente sou um gajo já batido em crises. Por volta dos 30 anos, já tinha 29 crises em cima do lombo, de maneira que aquela foi apenas mais uma. Mas claro, teve um saborzinho diferente, o da descoberta, o da procura dos sinais e efeitos da idade, espécie de obsessão genética. O problema é que em mim são difíceis de encontrar esses sinais e ainda mais os efeitos, é verdade! Claro que visto de cima pareço-me cada vez mais com o Santo António mas também nunca fui de fazer parar o trânsito. Tirando aqueles detalhes fisionómicos, algumas proeminências na zona abdominal de somenos importância, não encontro nada de verdadeiramente significativo. Não ocorre em mim neste momento nenhum processo de degradação física ou intelectual visível, qualquer sintoma de senilidade mental... O que é que eu estava a falar mesmo ?... Ah, a única alteração que ocorreu em mim, foi de um momento para o outro achar que tenho as bainhas da maioria das minhas calças subidas de mais. Deixei de suportar andar com a boca das calças a dançarem-se-me nas canelas quando ando. Quando aperto o passo o efeito piora. Fui eu que cresci ? Será que ainda estou a crescer ? Não exageremos, o fenómeno é sinal da idade ou então dever-se-á antes às sucessivas lavagens que fizeram encolher o tecido e, reparo agora nestas que trago, descoser as costuras em sítios embaraçosos. A partir de agora a calça tem que roçar o chão sem lhe tocar, sem que no entanto não esconda a marca da meia quando cruzar as pernas. Confesso que ainda não dou mais valor ao interior que ao exterior duma gaja mas talvez para me redimir, passei a dar mais valor à minha roupa interior que exterior. De marca, impreterivelmente, tenho actualmente um invejável stock de meias e cuecas tipo boxer justinhas de excelente qualidade. Que melhor sinal dos trinta que este!?
Também devo dizer que, outra alteração significativa, passei a dar importância ao barulho que os sapatos fazem quando ando. É verdade, o que este gajo se lembra! Continuo com a elegante mania de só usar sapatos pretos com atacadores, mas a sola e o tacão ganharam significados completamente novos para mim. De modo que naturalmente numa próxima visita á sapataria, levarei em conta tais pormenores e pedirei à empregada que me deixe medi-los antes de ensaiar o andar em diversos tipo de solo. Se virem alguém experimentar sapatos nos canteiros das plantas, teste de som em solo arenoso, muito provavelmente serei eu. Se usar boxers Colvin Kein, então serei eu de certeza absoluta.
De resto, cabelos brancos nicles, calos nos pés nicles, divórcios nicles. Estou, como diria o Herman, “melhor que nunca” e não fui acusado de pedófilia, de cheirar mal dos pés, de não ter declarado todos os meus desastrosos negócios bolsitas no IRS e não tenho ninguém atrás de mim exigindo-me uma pensão de alimentos. Sinto-me em forma e comecei a beber um litro de água por dia no trabalho, outro sinal da idade mas também resultado das leituras fugazes que faço da men’s health, por acaso outro sinal da idade.
E por este andar, com tanto sinal mas pouco efeito, assim como desapareceu a minha urticária que julgava crónica, as minhas ligeiras rugas de expressão irão desvanecer-se porque na realidade não tenho nada que me dê dores de cabeça mas também nada que me faça rejubilar por ali além. Vivo num meio termo nirvanico, conseguindo por um lado pagar as contas triviais, água, luz, aspirinas, ir ao cinema ás segundas feiras e frequentar cadeias de fast-food, mas por outro não consigo chegar a um roadster e ter uma casa com vista para o mar nas Açoteias... Não terei desgastes nem aborrecimentos e daqui a uns aninhos, muitos aninhos lá para a frente, uma miúda do liceu irá confundir-me com o namorado com quem acabou ontem porque os seus namoros nunca resultaram com miúdos mais novos que ela, e os meus amigos esquecidos da escola primária vão “reconhecer-me” à saída duma matinée dançante e imediatamente perguntar-me-ão “Desculpe, acho que andei com o seu pai na escola”. Jamais terei umas rugas de expressão (idade, velhice portanto) como o Jack Nicholson. Que idade terá o gajo... Já terá passado dos trinta ?

terça-feira, julho 08, 2003

Switch
Boa tarde. Boa tarde. Queria algumas gramas de lenha. Embalada em papel manteiga ou dentro dum tupperware, partida em bocadinhos ? Era para me queimar, como acha que será melhor ? Não me pergunte a mim, sou uma pessoa muito indecisa, veja que quando entrou, estava indeciso entre atende-lo ou não. Não sou um cliente como outro qualquer ? Já piscou os olhos mais de cem vezes desde que aqui entrou. Foi essa a razão porque me atendeu, por abrir e fechar muitas vezes os olhos ? Vi que você tem o perfil ou melhor dizendo, as medidas ideais para um pequeno trabalho que gostava de ser eu a fazer mas que não tenho coragem. Tenho já trabalho que chegue, o que queria mesmo era lenha, pode ser daquela ás bolinhas cor de rosa, mas embrulhada em papel manteiga sem sal. Já reparou que tem exactamente as mesmas medidas que eu ? Apenas reparei na verruga que sai dessa sua sobrancelha mal aparada. É de estimação. Óptimo, são as de melhor qualidade. Leve a lenha que é por conta da casa, mas primeiro faça o que lhe peço. Estou tão curioso que subitamente surgiu em mim uma vontade enorme de me esfregar todo com óleo de amêndoas doces. É simples, terá apenas de se colocar na minha pele. Pouco tentador. Besunto-me se tal for sua exigência. Por lenha faço o que for preciso nem que para isso não saiba que o estou a fazer. Não demora mais que vários minutos. E o que terei de fazer depois ? Não deixar que eu me assalte.
Choose
Entre o chicote e a chicotada, há quem opte por sorver os pequenos brilhos do céu a horas impróprias para consumo.
Espelho
Num ginásio de musculação, o aparelho mais importante é o espelho.

segunda-feira, julho 07, 2003

Festival de festivais
Acho que há um engano qualquer na denominação do festival Hype @ Meco. As tendas estão instalados num pinhal, muito antes da Lagoa da Albufeira, mais distantes ainda de Alfarim, e só depois temos então o longínquo Meco, ou seja, só a quilómetros e quilómetros de distancia, muito para lá de importantes localidades, temos a Aldeia que dá nome ao festival. O mais acertado seria aquele evento ao ar frio chamar-se Hype @ Lagoa ou Hype @ Pinhal, no máximo Hype @ Alfarim, ou Hype Cold @ir Festival, Exorbitant Entr@nce Price Hype Festival... Compreende-se que dado o leque de escolhas, Meco seja mais cool e comercializável. Na realidade não interessa o nome do local antes os nomes que tocam lá no pinhal. Este ano, para quem como eu já vira Moby no pavilhão atlântico, dar 7 mocas para depois andar lá a pastar de tenda em tenda era doloroso. Não pus lá os pés obviamente. Bjork e Dhzian & Kamien, que eram o que valia a pena ver, actuavam à mesma hora. O resto era “um contigente” residual de DJ’s e grupos que as rádios e jornais associados ao evento fizeram o favor de nos dar a conhecer como grandes fenómenos que toda a gente parecia conhecer menos nós.
Já me disseram entretanto que a actuação simultânea dos artistas que gostaria de ver acabou por não acontecer. Mas os atrasos e desencontros já me tinham ficado na memória do festival anterior. Assim como aquela sensação de que só mesmo pastilhado ou com os copos poderia ter extraído o máximo do festival que de maneira nenhuma é feito para espectadores cirúrgicos como eu.
Mais doloroso ainda neste e noutros festivais é o bilhete não dar direito a sequer uma bejecazita. Havia de ser tipo consumo mínimo. Ou faziam sorteios nos longos intervalos entre os concertos do palco principal, ao invés de passarem insistentemente o fastidioso spot rádio do festival. Para quê publicidade àquela hora, se quem lá estava já lá estava ?! Sorteavam bejecas e torresmos entre a malta. Por exemplo, bilhetes com o nº terminado em 02 podiam ir levantar uma malga de sopinha de caldo verde na roulote junto à tenda trance. Terminações 18 podiam ir levantar uma mini na tabanca do “Amo-te Meco”, e por aí fora. Mas não. Mais que doloroso, é escandaloso não só pagar as 7 mocas como ainda andar o resto da noite com areia nos sapatos enquanto nas barracas dos comes & bebes nos pedem quantias exorbitantes por uma febra, um cachorro ou um vodkazito mal parido. Quando lá estive há um ano atrás, lembro-me que gastei lá dentro em mantimentos o equivalente ao preço do bilhete cá fora! Um gajo não se esquece destas coisas!
Mas dada a afluência, 20 mil pessoas, mais 5 mil que o ano passado, para quê mudar ? Crise o tanas. A malta paga o que pedirem, vai-se a todas. Parece que se criou uma espécie de festivalodependência militante. Não sei se a culpa não será dos comunistas, se isto não é toda uma geração que desde pequenina, pela mão dos pais, começou a frequentar o festival/festa do Avante e agora que cresceu e não tem partido, não quer outra coisa que não seja estar de copo de plástico na mão aos pulos em frente a um palco. Ao longo do Verão é vê-los deixarem as terrinhas, as casas dos pais e os apartamentos da subúrbia, rumo sabe-se lá onde, a quantas horas de bicha de distancia, em que arrabaldes, no meio do nada ou do pó, aos festivais que forem preciso, que não se é jovem não se é nada se assim não for.
Pró ano logo se vê.
Teatro de fogo
Para quem está farto de ver nas passagens de ano e outras comemorações, fogo de artíficio à borla, o festival da Inatel é uma excelente oportunidade de pagar para ver.

sexta-feira, julho 04, 2003

Publicidade gratuita #2
Para quem vai a caminho do famoso e muito ‘in’ Azeitão, vindo da mítica Coina, encontrará, quilómetros antes, os Brejos, com seu magnifico cruzamento, seus stands de automóveis á beira da estrada e o seu característico cheiro a frango assado. Também à beira da estrada, uns toldos verdes anunciam o self-service Brejoense, local equipado com portas de abrir eléctricas e onde se pode comer o bitoque mais barato do país. É verdade. Carne, ovo, batata frita e um acompanhamento à escolha, que pode ser uma das variadas saladas ou arrozes à disposição, petisco bem servido e a saber bem. É a melhor maneira que consigo imaginar para empregar quinhentos paus. São coisas destas que ainda me fazem ter alguma esperança por dias melhores.
Vidas alternativas
“Tenho um nome tão feminino que quase tenho vergonha de o pronunciar... Lucinda!... Será que mesmo assim poderei ser lésbica ?”
in, correio sentimental de programa de rádio concebido para a causa, primeira quarta feira de cada mês, 21-22, Voxx, 91.6
Sinal do tempos nº 4526
Maio e Junho são agora mais quentes mas ainda assim todos os meses surgem cada vez mais loucos escondidos atrás das secretárias.

Sinal dos tempos nº 5624
Os blogues são agora uma verdadeira epidemia mas ainda assim a vida real triunfa: Catherine Deneuve ultrapassa Pipi no top dos quem é quem.
Anedota de Elite #4
“Um homenzinho senta-se no lugar habitual de um restaurante. Pega na ementa e nota algo de diferente na parede à sua frente. Pergunta ao empregado:
- Desculpe, não costumava estar naquela parede um grande par de cornos ?
- Não, estava era um grande espelho.”
in, anedota divulgada em programa de rádio concebido para a causa, todas as terças feiras, 21-22, Voxx, 91.6
Ícone 6.0
Marisa Cruz, 89-60-90
Publicidad gratuita #1
Apesar de irrespiráveis, os quitamachas Romar conseguem sacar totalmente as manchas, em especial aquelas do tipo pingue, sem necessidade de esfregar e sem deixar um cerco. Há venda nas mejores lojas dos trezentos.

quinta-feira, julho 03, 2003

Mezinha
Silicone faz bem à vista

quarta-feira, julho 02, 2003

Ricos: Perigo de Morte
Indiferente ao caos urbanos, um velhote estilo sem abrigo deslocou-se calmamente até á faixa central para peões, e em pleno Largo do Rato, deitou-se por cima do gradeamento de uma saída de ar do metropolitano. Lá se aninhou, fechou os olhos, parecendo dormitar satisfeito, a grande distancia de tudo. Lamentei não ter uma máquina de fotografar à mão (as milhares de fotografias que não tiramos por não termos uma máquina de fotografar sempre à mão). O sono do velhote foi curto ou então foi interrompido por acção humana directa. Porque buzina, fumos de escape, barulhos dos martelos hidráulicos da obra ali perto, nada o faria despertar daquele encantamento. Passada uma hora, quando lá voltei, já não existia aquele contraste que daria cor à fotografia.
Passados uns dias, voltei a encontrar o mesmo velhote, o mesmo estilo. À saída do estacionamento, tive de travar e desviar o carro para não atropelá-lo. A mesma paz, um ressonar invejável e tranquilo, desta vez em plena faixa de rodagem... Cheguei á conclusão que o homenzito certamente não teria problemas na coluna. É sabido que dormir no chão só faz bem. E depois dei por mim a pensar o quão perigoso pode ser, ser-se rico. Lembrei-me daquele caso de uns amigos afastados, recém casados. Gente abastada, proprietária milionária daqueles barcos que atestados levam mais de mil litros de gasóleo e custam mais de mil contos por ano manter estacionados na Marina de Vila Moura. Numa das saídas em família para o mar, depois dum mergulho, o rapaz recém marido voltava para o barco. Momento em que o pai da rapariga ligou inadvertidamente o motor do barco. O rapaz foi apanhado pelas hélices e ficou sem pernas. Isto é extremamente dramático e verídico (caso raro aqui no blog) e não me vou alongar mais.
Nem eu nem aquele homenzito jamais sofreremos semelhante acidente. Jamais. E porquê toda esta certeza ? Simplesmente porque não somos ricos. Nunca morreremos ao volante dum carro com 300 cavalos, numa queda de avião nos mares da Polinésia ou picados por uma serpente venenosa da Patagónia. Poderemos morrer de tédio é certo, sermos atropelados enquanto batemos uma sorna , mas não teremos acidentes ou morter profundamente dramáticas e aflitivas, coisas que parecem perseguir os ricos. Ser rico é perigoso. Se fosse rico pensava duas vezes antes de me hospedar no Ritz de Paris e me meter dentro de um Mercedes conduzido por chauffeur à noite. Se pensasse só uma vez, fazia como o cromo do Michael Jackson. Pensam que ele não está bem ciente do perigo que corre ? Faz bem em proteger-se atrás daquela mascara, viver em ambientes os mais acéticos possível, rodear-se de um exercito de guarda costas, videntes e médicos. Enquanto os pobres são habituados desde pequeninos a conviver com toda uma vasta panóplia de vírus imundos e doenças reles ao ponto de depois de contra elas ganharem imunidades inexplicáveis pela ciência, os ricos estão muito mais expostos a síndromas selectivos e se vêem sangue desmaiam com muita facilidade. Eu sei que os hospitais civis estão a abarrotar pelas costuras de pobres. Mas 90% dos casos é hipocondria descarada, mal próprio de gente que não tem nada importante com que se queixar.
Lembro-me de outro caso raro mas que só vem dar razão a mim e ao Michael. Um tal sucateiro, história de vida que há tempos me contaram, fizera fortuna a juntar e vender ferro velho. Não satisfeito com o ainda pouco que dizia ter a todos, começa a entrar em jogadas, que parece as há muito por aí, de comprar novo a entidades muito respeitáveis como se de ferro velho se tratasse e depois vender como estava, novo em folha a outras entidades também respeitáveis. Os pormenores desta traquitana contaram-me mas não reti que sou gajo nada dado a jogadas. Mas sei que o raio do sucateiro lá conseguiu amealhar fortuna de milhões, leram bem, milhões de contos (é muito euro caramba!). E onde pensam que vive hoje o regalado sucateiro, na Quinta da Marinha, do Peru, Aroeira, apartamento nas Amoreiras ou na Expo, não ? Foi a custo que ainda há pouco tempo tiveram de o expropriar pelas vias legais da casa abarracada onde vivia com a mulher, para ali construírem uma estrada qualquer. Dizem que não se pode estar ao pé do animal mais de um minuto que o gajo tresanda a cavalo que não é lavado há mais de 6 meses que se farta. A mulher é daquelas que têm bicharocos pequeninos sem nome a viverem há muitos anos pacificamente debaixo das unhacas grandes daqueles pés gretados rodeados de calos por todos os lados. Entre bicharocos e paparazzis, os primeiros não serão mais inofensivos ? Não me admirava que vivessem felizes, sucateiros e bichos das unhas, ambos com ligeiros problemas olfactivos, algures numa daquelas casinhas da Quinta do Conde ou em Fernão Ferro. F-e-l-i-z-e-s, leia-se bem. Aquela gente poupada alguma vez vai morrer vitima duma operação plástica mal sucedida ?! De longe, o único plástico que alguma vez lhes fará mal é se alguma vez comerem gelatina Alsa num tupperware desses novos coloridos em vez de aproveitarem a mesma taça de barro onde comem os cães. Alguma vez morrerão vitimas de um acidente quando o helicóptero privado em que seguiam aterrava no telhado da sua penthouse no Mónaco ? Vive-se numa casa térrea com fossa a céu aberto e anda-se a pé que só faz bem.
Eu, se fosse rico, pensava seriamente em mudar de vida. Há tantos exemplos que poderia seguir. Mais sofisticados e dispendiosos na versão Michael, mais saudáveis e económicos na versão sucata. E o dinheiro, o que fazer a tanto dinheiro ? Ora, ora, recompensar monetariamente gajos como eu, aqueles que os fizeram ver a luz ao fundo da casa da Linha com vista para o mar. Deixá-los desgraçarem-se já que disso parecem estar tão desejosos. Tomem lá, sacrifiquem-se, espatifem-se todos ao volante dos Ferraris, naufraguem de barco á volta do mundo, morram de falta de ar numa dessas viagens de turismo espacial, tenham ataques cardíacos nos braços de Top Models internacionais!

segunda-feira, junho 30, 2003

Finalmente
...Relatório Minoritário – Aquela necessidade dum final tão ostensivamente feliz, um desculpem qualquer coisinha para nos repor os abalados índices de confiança... O filme podia ser muito bom não fosse tresandar a Spielberg.
...Um Roupeiro Para o Quarto – Depois de várias idas ao Aki, uma broca partida, alguns milímetros de desalinho e muito pó do estuque nos olhos, consegui terminar a primeira fase. Eu sei que a fase das portas de correr vai ser ainda mais difícil. Mas um gajo não pode virar as costas ao alicate, tem que ter confiança nas suas capacidades e nos folhetos faça você mesmo. A bricolage é uma boa maneira de se poupar dinheiro e ficar com os dedos roxos.
...Clube de Combate - Extremamente eficiente. Os revolucionários do sofá, apreciadores de filmes que façam pensar, têm aqui mais um desses happenings consensuais mas no fundo inofensivos. A par com Trainspotting, é uma referência para um público consumidor de supostos frutos proibidos, ritual de pretensa lucidez underground e contribuição para a demanda anti-sistema! Hollywood agradece.
...Sardinhas Assadas – Opto pelo barbecue descartável. Explico, um pequeno fogareiro preto, daqueles baratos que dão vontade de dar pontapés e enferrujam facilmente, carvão, peixe, pão e umas mãos sujas com carvão... Tudo o que é preciso para uma sardinhada. No final da época deita-se fora o fogareiro e pró ano compra-se outro. Aqueles barbecues todos catitas e onde afinal também se apanham de vez em quando sardinhas pisadas, ficam bem é na casa do vizinho. Olha, lá está o gajo a puxar-lhe o lustro.
...Mulholland Drive – O pior filme de Lynch, um gajo com muito bom gosto mas incompreendido.
...Posto de EscutaDescobri. Na realidade não devo dizer nada de absolutamente relevante ou minimamente original para merecer constar naquele repertório de tiradas da nata blogueira nacional. Já desconfiava mas é sempre bom termos a certeza. Como provavelmente só falo para as paredes, poderá ser esta a vingança do boneco ? Preciso duma garrafinha de água com gás.
Profecia #1
Façam copy & paste do que escrevo: E chegará o dia em que mandar um gajo ir blogar será pior que mandá-lo á merda!

sexta-feira, junho 27, 2003

- Estou inocente porque não fui eu que casei. Foi a minha irmã gemea!Icone 5.0
Podia dar um anime a atribulada vida sentimental da Sofia Alves, uma gaja que, segundo as revistas da especialidade, parece andar com outro, ou seja, parece ter finalmente encontrado mais um homem da sua vida. Há gajas (e gajos) com muita sorte! Muito boa rapariga há por aí que nem unzinho consegue encontrar, casando e parindo, já em quase inconfessado desespero, ao mínimo sinal de fumaça. E depois é episódio de telenovela atrás do outro e o suspiro continuo pelas cenas dos próximos capítulos que muito provavelmente nunca passarão disso.
Estava longe de pensar alguma vez escrever aqui sobre a Sofia, contemplá-la como ícone. Confesso que a pequena não entrava no meu ranking onde dou primazia a gajas mediáticas e belas (boas) sim, mas com um je ne sais quoi de divinal e um subtil look mais ou menos esfomeado. È uma palavra crua e algo rude, eu sei, mas acredite-se, a mais adequada para exemplificar o meu critério. Uma certa fome dá profundidade a uma mulher. E de pouco nutrida, a Sofia não tinha nada. Uma coisa eram aquelas personagens ousadas que a actriz muito bem interpretava, que levantavam as saias e mostravam os seios (Ballet Rose, certo ?). Mas era por uma óbvia boa causa, o seu ganha-pão artístico. Outra coisa eram as suas aparições publicas, a vida real, onde inalava aquela beleza encarnada duma Nossa Senhora, a espiritualidade duma Madre Teresa e a sensibilidade duma escrutinadora do totoloto. É bom de se ver, que a Sofia tinha aquele ar de amiga solteira da nossa mãe, daquelas que aparecem ao lado dela naquelas fotografias a preto e branco do já longínquo casamento. Aquele ar nada inspirador de boa rapariga que mesmo que não fosse casada, jamais se divorciaria ou apareceria desnudada numas quaisquer páginas centrais, a não ser, claro, também por uma óbvia boa causa.
E agora, numa clara manifestação de muito sangue na guelra, Sofia surpreende todo o universo consumidor da vida alheia, desde o mundo machista, à dona de casa que é a primeira a dizer que já se esperava, que nunca, deixava o meu marido e um filho bébé para ir para África, nem por todo o dinheiro do mundo (...) e a segunda a suspirar que nem pelo Diogo Infante que, ai, é um desperdício (!). Já te estão a apedrejar Sofia! Coragem, não te deixes acertar por estes arremessos de dor de cotovelo e inveja, e segue rumo à ilha da Caras mais próxima.
Anedota de elite #3
"Se um dia a pessoa que amas te trair e decidires atirar-te de cima de um prédio, lembra-te:
Tens um par de cornos, não de asas."
,in minha caixa de correio electrónico

feedback de elite #1
"O duro não é carregar com o peso dos cornos, o duro é... sustentar a vaca!"
,in minha caixa de correio electrónico

feedback de elite #2
Contrariando esta tese, "na Argentina, uma mulher traída resolveu atirar-se de cima de um prédio. Caiu em cima do marido adultero que faleceu ali mesmo. Ela, dada a qualidade do amortecedor, sobreviveu, e no hospital apaixonou-se por um enfermeiro. Casaram-se e são hoje muito felizes...." (suposta história verídica. pelo sim, pelo não, vivem hoje muito felizes mas num rés do chão esquerdo)
,in minha hora de almoço

quinta-feira, junho 26, 2003

Americlones
Uma infame colagem da intrigante treta MATRIXiana com a intragável treta bíblica, pode ser localizada em http://webpages.charter.nset/btakle/matrix_reloaded.html. Os americanos são especialistas em teorias da conspiração, em encontrar coincidências e ligações que mais ninguém no seu perfeito juízo encontra. Já terão reparado que na palavra Matrix, nenhuma letra se repete, começa por M e termina num X ? Isto deve significar alguma coisa...
Sósias em casa
Uma réplica perfeita dessa autêntica mata cabritos que é a conceituada e biguebrodarizada actriz Rita Ribeiro, pode ser localizada na saída da Rua da Escola Politécnica do metro Rato, lojinha das roupas sempre cheia de mulherio diverso. Nunca passei da montra mas as excursões até ao local são em autocarro de gran-turismo.
(Re) produções Fictícias
Reproduções das típicas piadas sobre os fait-divers que diariamente brotam espontaneamente entre colegas de escritório ou pessoal da estiva à hora do almoço ou durante o expediente, podem ser localizadas por volta das seis e meia da tarde em 87.5 (TSF). A coisa, que não está com nada mas lá se arrasta com o nome de “Estou quem fala”, é composta por um gajo e uma gaja que, desprovidos do necessário jeito que dava jeito, lêem os textos supostamente como se os estivessem a interpretar ao telefone. É a mais recente incursão radiofónica dessa trupe pseudo-genial e em toda a parte intocável, que vai buscar sempre o osso onde quer que ele se encontre.
Ideia para um final nem sempre feliz
... ela espera ansiosamente pela chegada dum meio de transporte qualquer, quando um desconhecido com aspecto de bom desconhecido lhe pergunta:
- “Desculpe, mas o que está a usar, não é Denim ?”
Ela desmaia nos seus braços e vivem assim para sempre.
Suportável
Entrar numa boca inexplorada que cheire mas não saiba a tabaco é suportável.
A trela
Uma mulher como algumas, caminha a passos largos em direcção a um largo qualquer. Calça uma espécie de sandália, projectando para a frente os dedos dos pés, que saem assim fora do alcance da sola em couro cerca de um centímetro, tocando carne com chão, no alcatrão, nas pedras da calçada, no cócó de cão e até na gravilha, consoante, porque para além do ziguezague que faz para se desviar dos automóveis mal estacionados, a rua, que é a descer, está em obras. Por incrível que pareça, ela não dá por isso, convencendo-se antes que alguém a persegue a passos curtos. Decide então parar e aguardar pacientemente que o perseguidor se aproxime, enquanto aproveita para medir com uma régua a medida atrás especulada, isto numa clara demonstração do quão pacientemente parece aguardar. É um cão, que passa por ela cheirando tudo e nem água vai nem água vem. Perplexa, a mulher agora com sede, abre o cantil que trás a tiracolo e coloca os lábios pintados no gargalo, começando a emitir sons que pelo eco denunciam um cantil vazio. Aproxima-se então dum homem que está agachado e se penteia no espelho lateral dum carro verde bem estacionado. Pergunta-lhe, com a voz ainda meio embargada da sede, que tipo de shampoo ele usa da seguinte maneira, o senhor desculpe mas julguei que estava a ser perseguida, sempre que isto acontece dirijo-me à primeira pessoa agachada que encontro e pergunto-lhe como faz para evitar a oleosidade no couro cabeludo. O homem levanta-se, sacode caspa dos joelhos e responde-lhe se entrar dentro deste carro verde eu confesso-lhe tudo. A mulher que queria a todo o custo obter uma resposta para a verdadeira questão que era porque andava sempre precisada duma boleia, entra, de imediato apercebendo-se que por dentro o carro verde é mesmo um carro verde só que com a pintura riscada. O homem senta-se a seu lado e pede-lhe com os olhos e as orelhas para ela lhe dar a mão, coisa que ela acede, tirando insidiosamente um dos anéis e uma das sandálias. Na sua mão o homem coloca-lhe uma trela de cão, colando-a com cola cuspe, espalhada uniformemente com uma língua desconhecida mas que não deixa marcas de batôn, ficando-se sem saber se houve esse cuidado. Por diversas vezes é-lhe pedido que ponha o dedo. Ela acede. Ela acede sempre. Pede-lhe a outra mão, desta vez só com os olhos. Ela acede. Ela acede sempre, mas não descalça a outra sandália porque há algo de inteligente naquela imagem reflectida no pequeno espelho de make-up. O homem descalça-se e toca com os seus dedos dos pés nos do pé descalço da mulher. Ela estranha que ele só lhe toque no pé descalço quando está o outro calçado mas também com os dedos expostos, e pergunta-lhe porque me pediu a outra mão ? Ele responde, julgava que fosse assim que gostasse. Ela volta a calçar-se e o homem visivelmente atrapalhado com aquela reacção inesperada, assobia, dando ao mesmo tempo à manivela. A porta do carro verde abre-se gradualmente e de repente a mulher é puxada violentamente para exterior indo agarrada atrás da trela. Desaparece da vista de toda a gente e não se ouve ladrar. Minutos depois surgia no local um outro homem, depois identificado como marido da mulher, que gritava desesperado se alguém vira por ali uma trela. Mais tarde, muito mais tarde, seria posto em liberdade.

quarta-feira, junho 25, 2003

In case you didn't know
"According to a major search engine the term penis en l a r g e m e n t was searched 154362 times last month. Sexual performance was searched 8092 times (...) SEE WHAT ENLARGO CAN OFFER YOU !!TODAY!!" in mail, spam.
C.E. Standard
As coisas começam a ficar seriamente preocupantes quando, na mais suburbana das tascas, os pires trazem caracóis, todos com o mesmo tamanho de tripa.
- Este não é o lado que me favorece mais...Alien update
Uma vez fiz 3000 quilómetros para ir tomar um copo ao Bar Giger no Chur, Suiça. O dia estava quente e apetecia-me algo fresco. Meti-me a caminho e isso fez de mim, automaticamente, um dos maiores fãs do homem que concebeu o monstro definitivo, a encarnação perfeita do medo. Recentemente entrei em contacto (mail) com o agente do Giger. Expus-lhe a minha ideia, possuir um original do artista, preferencialmente um quadro do tipo 'bio-mechanic landscape', aqueles que calculava seriam mais acessíveis. O agente respondeu-me informando-me que Giger já não pintava e estava inclusive apostado em recomprar muitos dos quadros que vendera, para agora “equipar” a colecção particular do seu museu. Ainda assim, se eu estivesse MESMO interessado, talvez me conseguisse algum quadro menos famoso junto de um coleccionador, mas que nunca me ficaria por menos de 5 ou 6 mil contos (!!) O pior não é não ter o dinheiro. O pior é não ter dinheiro e ter-se a certeza absolutíssima sobre o que se faria com ele se o tivéssemos...
Sou mesmo um fã, na verdadeira ascensão da palavra, do Giger, principalmente do Alien, criatura pela qual tenho um quase mórbido fascínio (há quem defenda que qualquer fascínio por aquilo só pode ser mórbido!). Como é natural sou consumidor da série de filmes, por ora, quatro obras primas do cinema fantástico, todos eles adjectiváveis mas todos quase impossíveis de ordenar por ordem de preferência. Cada filme parece ter tido o realizador e a história certa no momento certo. Ao contrário de outras sequelas, todos os filmes têm honrado o primeiro que por sua vez honrou a arte de Giger ao concretizar na tela, dessa forma tão palpável como só o cinema consegue, grande parte do universo perturbador do artista.
Esta minha lenga-lenga, serve apenas para anunciar ao pequeno mundo que me lê e que eventualmente, e porque terá mais que fazer, ande desapegado destas coisas, que o 5º filme está na forja. As filmagens podem começar ainda este ano. Sigourney Weaver não está dada como certa no filme, assim como não se sabe se a história se desenrolará no espaço, na terra ou no planeta nativo dos Aliens, hipótese mais interessante e defendida por Ridley Scott, o realizador do primeiro filme, que já mostrou interesse em participar no projecto desde que seja para acabar de vez com a série. James Cameron (realizador do 2º mas também desse monte de lixo irreciclável que é “Titanic”) poderá ser o argumentista e produtor, e Paul Anderson (Mortal Combat, Event Horizon, Resident Evil) o realizador de serviço fortemente apontado caso a opção do 5º filme seja concretizar a cantiga “Aliens vs. Predator”, receita já experimentada com sucesso nos video-jogos e na BD. O competente Joss Weddon (escritor do 4º filme) é um dos prováveis guionistas também.
Melhor que a Lusa!

terça-feira, junho 24, 2003

A união faz a forca- Uff! Finalmente um sítio à maneira para atar uma corda e... estender a roupa!
Se há coisa que não suporto é o concenso. Encerra em si um perigo qualquer, algo de inexplicavelmente desconfortável. Não tanto do tipo "pedra no sapato" ou "unha encravada" mas mais "comichão no toutiço". Naturalmente haverá um termo clinico para este meu sintoma. Ocorre-me a imagem dum imenso marasmo de pessoas obedientes e concordantes, maiorias que não são mais que rebanhos de carneiros anónimos, ordeiros, comandados por um pastor por sua vez caseiro dum patrão qualquer... Lembram-se do genérico do "Tal Canal" ? "Méeee! Mééé!"... Meia duzia de focas amestradas que batessem palmas sempre que aparecesse uma bola por perto também servia. "Clap! Clap!"
Não é nada recomendável ser-se chato mas ser-se do ‘contra’ nunca fez mal a ninguém. Não ver o que toda a gente vê, não ler, não bater palmas àquilo a que todos aplaudem, não estar onde está toda a gente está, enfim, não fazer orgulhosamente parte da maralha.
Há que ter sérias reservas sobre as tendências dessa maioria unida que brame, gente que não é de confiança. Não se notam os seus nefastos efeitos colaterais por toda a parte ?
Há que pensar pela própria cabecinha. Dá trabalho, e oh meu senhores, que trabalheira! Por isso a união faz a forca ao indivíduo, oferecendo-lhe uma suave morte cerebral, a anestesia do pensamento. Poupa-lhe o labor, mas tira-lhe essa incómoda diversidade, bem cada vez mais prescindível para a maioria, só preservado e apreciado com o requinte de alguns...