segunda-feira, setembro 15, 2003

DVD
Neste verão inscrevi-me num clube de vídeo. Mau sinal. Mas foi. Ultrapassados os tramites burocráticos (exigiram-me comprovativos de residência, atestado de sanidade mental e diversos testes de paternidade) pude finalmente retirar do expositor o meu primeiro filme DVD por 500 paus. Uns dias antes, imagine-se, em pleno Julho, comprara o meu primeiro leitor de DVD. Péssimo sinal, preparação óbvia para umas férias muito caseiras. A minha habitual volta por outras paragens foi sacrificada por motivos técnicos alheios. O programa lá seguiu dentro de momentos com um saltinho a Espanha (tinha que ser, tinha mesmo que ser), interior sul. Coisa pouca mas deu para fazer o gosto ao vicio das viagens e dormir uma das noites numa ?hostal? ao som da algazarra que as baratas faziam no sótão. De volta a casa, aperfeiçoei o ritual da visita ao clube de vídeo, dominando a nomenclatura das etiquetas, a localização das diversas secções e prateleiras, descobrindo todas as funcionalidades do aparelho reprodutor de DVD. A minha mão adaptou-se maravilhosamente bem ao mais recente telecomando da casa e quando saía do sofá, dava por mim a frequentar as secções de DVDs em promoção dos hiper-mercados. Foi em Espanha num "Al Campo" que adquiri oficialmente o meu primeiro filme. "El Hombre Elefant", a obra prima de David Lynch por 1500 paus. Achado do caraças, com legendas em português e opção de ouvir John Hurt em Castelhano. Ao rever o filme, dei-me conta da minha crescente incapacidade em reter as histórias e os momentos dos filmes que já vi. Estava a rever um filme mas era quase como se fosse a primeira vez. Vá lá, tinha a ideia de que a fotografia era a preto e branco e acertei. É certo que haviam passados uns bons dez anos, mas conheço malta capaz de se lembrar da marca da mota que a Pamela Anderson montava em "Barb Wire" ou descrever ao pormenor a alucinante sequência final de "Ghostbusters"! Não é fantástico!? Eu não. Esqueço-me. As memórias com que fico dos filmes são difusas, imagens mentais desfocadas, pontinhas de linhas descosidas que não levam a nada. Fica apenas a ideia reduzida do plot. Curiosamente retenho os nomes dos actores, realizador, director de fotografia e um ou outro momento mais marcante ou então um pormenor técnico, tudo matéria irrelevante quando se pretende contar o que se viu a quem de direito. A recordação quase exclusiva e compulsiva deste tipo de pormenores quase que chega a ser assustadora. Por exemplo, actualmente não me sai da ideia aquela sequência do "Panic Room" do David Fincher, com a Jodie Foster e fotografia do Darius Kondji, em que a camera, qual impossibilidade à boa maneira de "Siegfried & Roy" passa por dentro da pega duma máquina de café depois de segundos antes ter estado no interior duma fechadura. Esta minha característica afasta no entanto de mim o fantasma da Alzheimer. Mas pelo sim pelo não, a empregada do clube de vídeo está avisada. Verificará sempre na base de dados se acaso não estarei a levar um filme já visto. Caso tal aconteça e não apresente uma boa desculpa, tem ordem para ligar para um número que só nós cá sabemos.
Emprego
Era o que receava. Passados que são 45 minutos, é como se já estivesse aqui há uma semana. No final do dia terão passado meses, anos, terei sido promovido mas à beira do limite legal. Aceitarei o pacote da pré-reforma e voltarei no dia seguinte para continuar a passar invisível pelo tempo.

quarta-feira, julho 30, 2003

Descontinuidade
Já lá diz o blogueiro, “muita estrada, pouca entrada”. Vou de férias, Espanha concerteza que fica sempre de caminho para todo o lado.
Não terá este blog, muito provavelmente, entradas até meados de Setembro. Só mesmo se a internet me aparecer pela frente. Até lá, muito calor, hasta!

terça-feira, julho 29, 2003

Cerimónias fúnebres
Em Portugal, as cerimónias fúnebres das pessoas iguais ás outras são de uma violência atroz. A própria concepção do evento, todos os seus cerimoniais nebulosos que quase não podiam magoar ainda mais quem está debilitado pela perda, a ganância dos agentes funerários, passando pela estética do caixão, as flores que não podem faltar, a carreta funerária de serviço, as velhas das redondezas, os comentários dentro e fora do velório, esse massacre psicológico, e a indiferença maquinal dos coveiros, todo o ritual é das coisas mais ignóbeis que se praticam em solo português, um folclore diário, cruel e ridículo que se perpetua em grande parte por culpa da igreja.
Os americanos, as habituais caricaturas do povo estúpido, têm no entanto os seus cemitérios relvados sem qualquer tipo de excesso de mármores ou terra nos sapatos. A cerimónia é algo intimista, reservada à família próxima, e a cremação é uma opção muito praticada. Em muitos países empresta-se poesia e filosofia ao evento marcadamente simbólico e sentido, e nunca ostensivo ou lugar para feira de vaidades e de lugares comuns, lugar para comportamentos ‘histéricotipados’ ou de puro voyeurismo que muito caracterizam o funeral deselegante do país de procissões, fátimas e barrancos que somos, país eternamente condenado a estas e outras entranhadas mediocridades, práticas mais ou menos sádicas, tão pobres e despercebidas que passam...

sexta-feira, julho 25, 2003

Sabor a gasolina sem chumbo 95
- S'ela é cineca você só tem qui ser também!
- Mas eu não sou assim... Nunca fui educada assim, não sei ser assim. Os outros que sejam, mas eu não sou assim!
- Poiz'é m'nha filha, mas nesta vida nois temos qui aprender a ser tudo... Tudo menos roubá e matá.
- Puxa vida, milagre! Pod'gi abastecê!

quarta-feira, julho 23, 2003

Cais
O conceito da revista Cais é provavelmente a melhor ideia de sempre. Choca-me não haver prémios Nobel para as ideias que visassem tornar mais comestível a vida diária de todos nós, assim como me ofende a indiferença mal educada da maralha quando abordada pelos vendedores da Cais, que os há cada vez mais, não sabendo eu concluir se tal explosão demográfica será positiva ou negativa, se tal indiferença será sinónimo de calos nos pés.
Sempre que posso e tenho dinheiro (infelizmente coisa rara) compro a revista à rapaziada do chapelinho amarelo que está ali e muito bem e honradamente a ganhar o dela, e ao mesmo tempo a promover ao preço da chuva os artistas que colaboram com a revista. Ou seja, tem a honorável missão de pôr a cultura na rua, na taberna, na fila de bilhetes para o pavilhão atlântico, onde quer que seja. E o mínimo que qualquer frequentador da calçada portuguesa tem a fazer é dar-lhe o euro do costume e dar graças pela revista de qualidade que passa a ter entre mãos. Por isso, quando abordado, o pacato cidadão acabado de comprar o maçozito de tabaco malboro, ou a cidadã carente acabada de comprar o seu novo wonderbra, só tinham de se explicar muito bem explicadinhos porque não compravam a revista. Apresentassem atestado médico, exibissem a carteira vazia, alegassem falta de cabelo e consequente canalização dos trocos para o tratamento, o que fosse, que fizessem prova da impossibilidade imediata de contribuirem para o projecto ou chamava-se um daqueles fiscais da emel que os atarraxaria ao chão, quais veículos mal estacionados na vida pública.

segunda-feira, julho 21, 2003

Decoração de interiores
A uma alma bem mobilada não deve faltar uma boa paixão de marca.
Obrigado canal 2
Ver "Stachka" (A greve, 1925) de Sergei Eisenstein é como assistir ao "big-bang" do cinema.
Sinal dos tempos nº 54687
Nunca como agora houve tanta procura, tanta oferta e tão pouco negócio.
Opinião sem blog #1
"Em vez de andarem por aí a bater no pai e na mãe, escrevem. É positivo, a malta solta cá para fora, toda a merda que tem lá dentro. " (autor identificado)

quarta-feira, julho 16, 2003

O robalo
Numa madrugada húmida, um homem tem um pesadelo numa cama demasiadamente seca. Começa a sufocar, engasgado com uma pastilha elástica, enquanto beija uma das mulheres dos seus sonhos. Ela retoca a maquilhagem e ao mesmo tempo tenta salvá-lo com a língua que toma a forma dum anzol mas que à distancia parece apenas uma língua molhada. Pesca um robalo e o homem, aflito, começa a acenar tentando chamar as atenções, não lhe passando uma única vez pela cabeça porque é um robalo e não uma corvina que está agora ali ao seu lado, também a estrebuchar. Passa por ali perto uma outra mulher que é especialista em homens com pesadelos e espera pacientemente que a outra comece a ter a certeza sobre o que fazer mas a ficar sem saber para onde ir. Assim acontece, tendo sido vista pela ultima vez tentando à força sincronizar o passo com uma avestruz. A especialista aproxima-se e repara divertida como a cor da cara do homem condiz com a cor do robalo que só desejava que alguém lhe fizesse respiração boca sensual de lábios vermelhos à guelra. Ela podia estar ali uma contemplativa vida inteira Chega a rir mas depois apercebe-se que parece uma louca, que facilmente pode engasgar-se, e muda de expressão. A visível alteração facial faz com que do tecto do quarto comece a cair uma grande carga de carvão em brasa. O robalo, numa aflição, larga tudo o que não trazia e volta ao seu habitat natural. Mas tal foi a pressa de fugir à saraivada que o homem fica sem 8 dentes e uma espinha atravessada na garganta. A especialista transforma-se em sardinha assada e o molho que escorre pelas goelas do homem faz acender a lâmpada dum candeeiro duma mesa de cabeceira com um parafuso a menos. A pastilha e os dentes estão no mesmo lugar. A mulher ressona ao seu lado. Por debaixo da cama há mais.

segunda-feira, julho 14, 2003

Antagonia
Não vou à bola com o feitio de Deus. Se calhar o pai dele já era assim.... Mas não há desculpa. O meu pai é do Sporting e eu nunca fui na conversa!
Hidrotupia
A água podia ser fabricada já com todos os ingredientes necessários à vida. Não haviam facas nem garfos, só copos, garrafas e pedras nos rins. Bebia-se um copo de água, ficava-se enfartado e arrotava-se a enchiladas. Às vezes dar-nos-ia azia e tomaríamos umas gotinhas de água com sabor a compensame.
Micto-Arte
Andy Warhol concebeu uma série de quadros com urina e a malta agradecida comprou-os. Reza a lenda que quando não estava com a bexiga para ali virada, telefonava a amigos e pedia-lhes que passassem pela “Factory” a dar uma mijinha. Dois cafés e complexo B eram a receita dum mijo bem amarelo que ficava melhor na tela que na retrete. O Andy era marado dos cornos mas não tinha outra alternativa.
Filosofia de Bolso
É fácil ter-se razão. Ainda mais fácil é perdê-la. Devo ter os bolsos rotos.

quinta-feira, julho 10, 2003

A idade da proeminência
A partir dos trinta anos não começamos a sentir qualquer peso da idade, antes, começamos a procurar sinais da idade. Até ali um gajo não tem idade, é simplesmente novo, alegremente sem idade, nem sequer sabe o que é isso da idade. Não procura nada que não seja o próximo engate ou com insistência novas maneiras de tanguear os porteiros das discotecas para entrar sem pagar. Depois, de um ano para o outro, apercebe-se que já não pode renovar o cartão jovem, é confrontado com o facto de que afinal já começa a ter idade, e que nas discotecas o barmen deve andar a meter-lhe ás escondidas soporíferos nos copos depois do 2º vodka . Diz-se que surge aqui a primeira crise, a dos trinta.
Felizmente sou um gajo já batido em crises. Por volta dos 30 anos, já tinha 29 crises em cima do lombo, de maneira que aquela foi apenas mais uma. Mas claro, teve um saborzinho diferente, o da descoberta, o da procura dos sinais e efeitos da idade, espécie de obsessão genética. O problema é que em mim são difíceis de encontrar esses sinais e ainda mais os efeitos, é verdade! Claro que visto de cima pareço-me cada vez mais com o Santo António mas também nunca fui de fazer parar o trânsito. Tirando aqueles detalhes fisionómicos, algumas proeminências na zona abdominal de somenos importância, não encontro nada de verdadeiramente significativo. Não ocorre em mim neste momento nenhum processo de degradação física ou intelectual visível, qualquer sintoma de senilidade mental... O que é que eu estava a falar mesmo ?... Ah, a única alteração que ocorreu em mim, foi de um momento para o outro achar que tenho as bainhas da maioria das minhas calças subidas de mais. Deixei de suportar andar com a boca das calças a dançarem-se-me nas canelas quando ando. Quando aperto o passo o efeito piora. Fui eu que cresci ? Será que ainda estou a crescer ? Não exageremos, o fenómeno é sinal da idade ou então dever-se-á antes às sucessivas lavagens que fizeram encolher o tecido e, reparo agora nestas que trago, descoser as costuras em sítios embaraçosos. A partir de agora a calça tem que roçar o chão sem lhe tocar, sem que no entanto não esconda a marca da meia quando cruzar as pernas. Confesso que ainda não dou mais valor ao interior que ao exterior duma gaja mas talvez para me redimir, passei a dar mais valor à minha roupa interior que exterior. De marca, impreterivelmente, tenho actualmente um invejável stock de meias e cuecas tipo boxer justinhas de excelente qualidade. Que melhor sinal dos trinta que este!?
Também devo dizer que, outra alteração significativa, passei a dar importância ao barulho que os sapatos fazem quando ando. É verdade, o que este gajo se lembra! Continuo com a elegante mania de só usar sapatos pretos com atacadores, mas a sola e o tacão ganharam significados completamente novos para mim. De modo que naturalmente numa próxima visita á sapataria, levarei em conta tais pormenores e pedirei à empregada que me deixe medi-los antes de ensaiar o andar em diversos tipo de solo. Se virem alguém experimentar sapatos nos canteiros das plantas, teste de som em solo arenoso, muito provavelmente serei eu. Se usar boxers Colvin Kein, então serei eu de certeza absoluta.
De resto, cabelos brancos nicles, calos nos pés nicles, divórcios nicles. Estou, como diria o Herman, “melhor que nunca” e não fui acusado de pedófilia, de cheirar mal dos pés, de não ter declarado todos os meus desastrosos negócios bolsitas no IRS e não tenho ninguém atrás de mim exigindo-me uma pensão de alimentos. Sinto-me em forma e comecei a beber um litro de água por dia no trabalho, outro sinal da idade mas também resultado das leituras fugazes que faço da men’s health, por acaso outro sinal da idade.
E por este andar, com tanto sinal mas pouco efeito, assim como desapareceu a minha urticária que julgava crónica, as minhas ligeiras rugas de expressão irão desvanecer-se porque na realidade não tenho nada que me dê dores de cabeça mas também nada que me faça rejubilar por ali além. Vivo num meio termo nirvanico, conseguindo por um lado pagar as contas triviais, água, luz, aspirinas, ir ao cinema ás segundas feiras e frequentar cadeias de fast-food, mas por outro não consigo chegar a um roadster e ter uma casa com vista para o mar nas Açoteias... Não terei desgastes nem aborrecimentos e daqui a uns aninhos, muitos aninhos lá para a frente, uma miúda do liceu irá confundir-me com o namorado com quem acabou ontem porque os seus namoros nunca resultaram com miúdos mais novos que ela, e os meus amigos esquecidos da escola primária vão “reconhecer-me” à saída duma matinée dançante e imediatamente perguntar-me-ão “Desculpe, acho que andei com o seu pai na escola”. Jamais terei umas rugas de expressão (idade, velhice portanto) como o Jack Nicholson. Que idade terá o gajo... Já terá passado dos trinta ?

terça-feira, julho 08, 2003

Switch
Boa tarde. Boa tarde. Queria algumas gramas de lenha. Embalada em papel manteiga ou dentro dum tupperware, partida em bocadinhos ? Era para me queimar, como acha que será melhor ? Não me pergunte a mim, sou uma pessoa muito indecisa, veja que quando entrou, estava indeciso entre atende-lo ou não. Não sou um cliente como outro qualquer ? Já piscou os olhos mais de cem vezes desde que aqui entrou. Foi essa a razão porque me atendeu, por abrir e fechar muitas vezes os olhos ? Vi que você tem o perfil ou melhor dizendo, as medidas ideais para um pequeno trabalho que gostava de ser eu a fazer mas que não tenho coragem. Tenho já trabalho que chegue, o que queria mesmo era lenha, pode ser daquela ás bolinhas cor de rosa, mas embrulhada em papel manteiga sem sal. Já reparou que tem exactamente as mesmas medidas que eu ? Apenas reparei na verruga que sai dessa sua sobrancelha mal aparada. É de estimação. Óptimo, são as de melhor qualidade. Leve a lenha que é por conta da casa, mas primeiro faça o que lhe peço. Estou tão curioso que subitamente surgiu em mim uma vontade enorme de me esfregar todo com óleo de amêndoas doces. É simples, terá apenas de se colocar na minha pele. Pouco tentador. Besunto-me se tal for sua exigência. Por lenha faço o que for preciso nem que para isso não saiba que o estou a fazer. Não demora mais que vários minutos. E o que terei de fazer depois ? Não deixar que eu me assalte.
Choose
Entre o chicote e a chicotada, há quem opte por sorver os pequenos brilhos do céu a horas impróprias para consumo.
Espelho
Num ginásio de musculação, o aparelho mais importante é o espelho.

segunda-feira, julho 07, 2003

Festival de festivais
Acho que há um engano qualquer na denominação do festival Hype @ Meco. As tendas estão instalados num pinhal, muito antes da Lagoa da Albufeira, mais distantes ainda de Alfarim, e só depois temos então o longínquo Meco, ou seja, só a quilómetros e quilómetros de distancia, muito para lá de importantes localidades, temos a Aldeia que dá nome ao festival. O mais acertado seria aquele evento ao ar frio chamar-se Hype @ Lagoa ou Hype @ Pinhal, no máximo Hype @ Alfarim, ou Hype Cold @ir Festival, Exorbitant Entr@nce Price Hype Festival... Compreende-se que dado o leque de escolhas, Meco seja mais cool e comercializável. Na realidade não interessa o nome do local antes os nomes que tocam lá no pinhal. Este ano, para quem como eu já vira Moby no pavilhão atlântico, dar 7 mocas para depois andar lá a pastar de tenda em tenda era doloroso. Não pus lá os pés obviamente. Bjork e Dhzian & Kamien, que eram o que valia a pena ver, actuavam à mesma hora. O resto era “um contigente” residual de DJ’s e grupos que as rádios e jornais associados ao evento fizeram o favor de nos dar a conhecer como grandes fenómenos que toda a gente parecia conhecer menos nós.
Já me disseram entretanto que a actuação simultânea dos artistas que gostaria de ver acabou por não acontecer. Mas os atrasos e desencontros já me tinham ficado na memória do festival anterior. Assim como aquela sensação de que só mesmo pastilhado ou com os copos poderia ter extraído o máximo do festival que de maneira nenhuma é feito para espectadores cirúrgicos como eu.
Mais doloroso ainda neste e noutros festivais é o bilhete não dar direito a sequer uma bejecazita. Havia de ser tipo consumo mínimo. Ou faziam sorteios nos longos intervalos entre os concertos do palco principal, ao invés de passarem insistentemente o fastidioso spot rádio do festival. Para quê publicidade àquela hora, se quem lá estava já lá estava ?! Sorteavam bejecas e torresmos entre a malta. Por exemplo, bilhetes com o nº terminado em 02 podiam ir levantar uma malga de sopinha de caldo verde na roulote junto à tenda trance. Terminações 18 podiam ir levantar uma mini na tabanca do “Amo-te Meco”, e por aí fora. Mas não. Mais que doloroso, é escandaloso não só pagar as 7 mocas como ainda andar o resto da noite com areia nos sapatos enquanto nas barracas dos comes & bebes nos pedem quantias exorbitantes por uma febra, um cachorro ou um vodkazito mal parido. Quando lá estive há um ano atrás, lembro-me que gastei lá dentro em mantimentos o equivalente ao preço do bilhete cá fora! Um gajo não se esquece destas coisas!
Mas dada a afluência, 20 mil pessoas, mais 5 mil que o ano passado, para quê mudar ? Crise o tanas. A malta paga o que pedirem, vai-se a todas. Parece que se criou uma espécie de festivalodependência militante. Não sei se a culpa não será dos comunistas, se isto não é toda uma geração que desde pequenina, pela mão dos pais, começou a frequentar o festival/festa do Avante e agora que cresceu e não tem partido, não quer outra coisa que não seja estar de copo de plástico na mão aos pulos em frente a um palco. Ao longo do Verão é vê-los deixarem as terrinhas, as casas dos pais e os apartamentos da subúrbia, rumo sabe-se lá onde, a quantas horas de bicha de distancia, em que arrabaldes, no meio do nada ou do pó, aos festivais que forem preciso, que não se é jovem não se é nada se assim não for.
Pró ano logo se vê.
Teatro de fogo
Para quem está farto de ver nas passagens de ano e outras comemorações, fogo de artíficio à borla, o festival da Inatel é uma excelente oportunidade de pagar para ver.

sexta-feira, julho 04, 2003

Publicidade gratuita #2
Para quem vai a caminho do famoso e muito ‘in’ Azeitão, vindo da mítica Coina, encontrará, quilómetros antes, os Brejos, com seu magnifico cruzamento, seus stands de automóveis á beira da estrada e o seu característico cheiro a frango assado. Também à beira da estrada, uns toldos verdes anunciam o self-service Brejoense, local equipado com portas de abrir eléctricas e onde se pode comer o bitoque mais barato do país. É verdade. Carne, ovo, batata frita e um acompanhamento à escolha, que pode ser uma das variadas saladas ou arrozes à disposição, petisco bem servido e a saber bem. É a melhor maneira que consigo imaginar para empregar quinhentos paus. São coisas destas que ainda me fazem ter alguma esperança por dias melhores.
Vidas alternativas
“Tenho um nome tão feminino que quase tenho vergonha de o pronunciar... Lucinda!... Será que mesmo assim poderei ser lésbica ?”
in, correio sentimental de programa de rádio concebido para a causa, primeira quarta feira de cada mês, 21-22, Voxx, 91.6
Sinal do tempos nº 4526
Maio e Junho são agora mais quentes mas ainda assim todos os meses surgem cada vez mais loucos escondidos atrás das secretárias.

Sinal dos tempos nº 5624
Os blogues são agora uma verdadeira epidemia mas ainda assim a vida real triunfa: Catherine Deneuve ultrapassa Pipi no top dos quem é quem.
Anedota de Elite #4
“Um homenzinho senta-se no lugar habitual de um restaurante. Pega na ementa e nota algo de diferente na parede à sua frente. Pergunta ao empregado:
- Desculpe, não costumava estar naquela parede um grande par de cornos ?
- Não, estava era um grande espelho.”
in, anedota divulgada em programa de rádio concebido para a causa, todas as terças feiras, 21-22, Voxx, 91.6
Ícone 6.0
Marisa Cruz, 89-60-90
Publicidad gratuita #1
Apesar de irrespiráveis, os quitamachas Romar conseguem sacar totalmente as manchas, em especial aquelas do tipo pingue, sem necessidade de esfregar e sem deixar um cerco. Há venda nas mejores lojas dos trezentos.

quinta-feira, julho 03, 2003

Mezinha
Silicone faz bem à vista

quarta-feira, julho 02, 2003

Ricos: Perigo de Morte
Indiferente ao caos urbanos, um velhote estilo sem abrigo deslocou-se calmamente até á faixa central para peões, e em pleno Largo do Rato, deitou-se por cima do gradeamento de uma saída de ar do metropolitano. Lá se aninhou, fechou os olhos, parecendo dormitar satisfeito, a grande distancia de tudo. Lamentei não ter uma máquina de fotografar à mão (as milhares de fotografias que não tiramos por não termos uma máquina de fotografar sempre à mão). O sono do velhote foi curto ou então foi interrompido por acção humana directa. Porque buzina, fumos de escape, barulhos dos martelos hidráulicos da obra ali perto, nada o faria despertar daquele encantamento. Passada uma hora, quando lá voltei, já não existia aquele contraste que daria cor à fotografia.
Passados uns dias, voltei a encontrar o mesmo velhote, o mesmo estilo. À saída do estacionamento, tive de travar e desviar o carro para não atropelá-lo. A mesma paz, um ressonar invejável e tranquilo, desta vez em plena faixa de rodagem... Cheguei á conclusão que o homenzito certamente não teria problemas na coluna. É sabido que dormir no chão só faz bem. E depois dei por mim a pensar o quão perigoso pode ser, ser-se rico. Lembrei-me daquele caso de uns amigos afastados, recém casados. Gente abastada, proprietária milionária daqueles barcos que atestados levam mais de mil litros de gasóleo e custam mais de mil contos por ano manter estacionados na Marina de Vila Moura. Numa das saídas em família para o mar, depois dum mergulho, o rapaz recém marido voltava para o barco. Momento em que o pai da rapariga ligou inadvertidamente o motor do barco. O rapaz foi apanhado pelas hélices e ficou sem pernas. Isto é extremamente dramático e verídico (caso raro aqui no blog) e não me vou alongar mais.
Nem eu nem aquele homenzito jamais sofreremos semelhante acidente. Jamais. E porquê toda esta certeza ? Simplesmente porque não somos ricos. Nunca morreremos ao volante dum carro com 300 cavalos, numa queda de avião nos mares da Polinésia ou picados por uma serpente venenosa da Patagónia. Poderemos morrer de tédio é certo, sermos atropelados enquanto batemos uma sorna , mas não teremos acidentes ou morter profundamente dramáticas e aflitivas, coisas que parecem perseguir os ricos. Ser rico é perigoso. Se fosse rico pensava duas vezes antes de me hospedar no Ritz de Paris e me meter dentro de um Mercedes conduzido por chauffeur à noite. Se pensasse só uma vez, fazia como o cromo do Michael Jackson. Pensam que ele não está bem ciente do perigo que corre ? Faz bem em proteger-se atrás daquela mascara, viver em ambientes os mais acéticos possível, rodear-se de um exercito de guarda costas, videntes e médicos. Enquanto os pobres são habituados desde pequeninos a conviver com toda uma vasta panóplia de vírus imundos e doenças reles ao ponto de depois de contra elas ganharem imunidades inexplicáveis pela ciência, os ricos estão muito mais expostos a síndromas selectivos e se vêem sangue desmaiam com muita facilidade. Eu sei que os hospitais civis estão a abarrotar pelas costuras de pobres. Mas 90% dos casos é hipocondria descarada, mal próprio de gente que não tem nada importante com que se queixar.
Lembro-me de outro caso raro mas que só vem dar razão a mim e ao Michael. Um tal sucateiro, história de vida que há tempos me contaram, fizera fortuna a juntar e vender ferro velho. Não satisfeito com o ainda pouco que dizia ter a todos, começa a entrar em jogadas, que parece as há muito por aí, de comprar novo a entidades muito respeitáveis como se de ferro velho se tratasse e depois vender como estava, novo em folha a outras entidades também respeitáveis. Os pormenores desta traquitana contaram-me mas não reti que sou gajo nada dado a jogadas. Mas sei que o raio do sucateiro lá conseguiu amealhar fortuna de milhões, leram bem, milhões de contos (é muito euro caramba!). E onde pensam que vive hoje o regalado sucateiro, na Quinta da Marinha, do Peru, Aroeira, apartamento nas Amoreiras ou na Expo, não ? Foi a custo que ainda há pouco tempo tiveram de o expropriar pelas vias legais da casa abarracada onde vivia com a mulher, para ali construírem uma estrada qualquer. Dizem que não se pode estar ao pé do animal mais de um minuto que o gajo tresanda a cavalo que não é lavado há mais de 6 meses que se farta. A mulher é daquelas que têm bicharocos pequeninos sem nome a viverem há muitos anos pacificamente debaixo das unhacas grandes daqueles pés gretados rodeados de calos por todos os lados. Entre bicharocos e paparazzis, os primeiros não serão mais inofensivos ? Não me admirava que vivessem felizes, sucateiros e bichos das unhas, ambos com ligeiros problemas olfactivos, algures numa daquelas casinhas da Quinta do Conde ou em Fernão Ferro. F-e-l-i-z-e-s, leia-se bem. Aquela gente poupada alguma vez vai morrer vitima duma operação plástica mal sucedida ?! De longe, o único plástico que alguma vez lhes fará mal é se alguma vez comerem gelatina Alsa num tupperware desses novos coloridos em vez de aproveitarem a mesma taça de barro onde comem os cães. Alguma vez morrerão vitimas de um acidente quando o helicóptero privado em que seguiam aterrava no telhado da sua penthouse no Mónaco ? Vive-se numa casa térrea com fossa a céu aberto e anda-se a pé que só faz bem.
Eu, se fosse rico, pensava seriamente em mudar de vida. Há tantos exemplos que poderia seguir. Mais sofisticados e dispendiosos na versão Michael, mais saudáveis e económicos na versão sucata. E o dinheiro, o que fazer a tanto dinheiro ? Ora, ora, recompensar monetariamente gajos como eu, aqueles que os fizeram ver a luz ao fundo da casa da Linha com vista para o mar. Deixá-los desgraçarem-se já que disso parecem estar tão desejosos. Tomem lá, sacrifiquem-se, espatifem-se todos ao volante dos Ferraris, naufraguem de barco á volta do mundo, morram de falta de ar numa dessas viagens de turismo espacial, tenham ataques cardíacos nos braços de Top Models internacionais!

segunda-feira, junho 30, 2003

Finalmente
...Relatório Minoritário – Aquela necessidade dum final tão ostensivamente feliz, um desculpem qualquer coisinha para nos repor os abalados índices de confiança... O filme podia ser muito bom não fosse tresandar a Spielberg.
...Um Roupeiro Para o Quarto – Depois de várias idas ao Aki, uma broca partida, alguns milímetros de desalinho e muito pó do estuque nos olhos, consegui terminar a primeira fase. Eu sei que a fase das portas de correr vai ser ainda mais difícil. Mas um gajo não pode virar as costas ao alicate, tem que ter confiança nas suas capacidades e nos folhetos faça você mesmo. A bricolage é uma boa maneira de se poupar dinheiro e ficar com os dedos roxos.
...Clube de Combate - Extremamente eficiente. Os revolucionários do sofá, apreciadores de filmes que façam pensar, têm aqui mais um desses happenings consensuais mas no fundo inofensivos. A par com Trainspotting, é uma referência para um público consumidor de supostos frutos proibidos, ritual de pretensa lucidez underground e contribuição para a demanda anti-sistema! Hollywood agradece.
...Sardinhas Assadas – Opto pelo barbecue descartável. Explico, um pequeno fogareiro preto, daqueles baratos que dão vontade de dar pontapés e enferrujam facilmente, carvão, peixe, pão e umas mãos sujas com carvão... Tudo o que é preciso para uma sardinhada. No final da época deita-se fora o fogareiro e pró ano compra-se outro. Aqueles barbecues todos catitas e onde afinal também se apanham de vez em quando sardinhas pisadas, ficam bem é na casa do vizinho. Olha, lá está o gajo a puxar-lhe o lustro.
...Mulholland Drive – O pior filme de Lynch, um gajo com muito bom gosto mas incompreendido.
...Posto de EscutaDescobri. Na realidade não devo dizer nada de absolutamente relevante ou minimamente original para merecer constar naquele repertório de tiradas da nata blogueira nacional. Já desconfiava mas é sempre bom termos a certeza. Como provavelmente só falo para as paredes, poderá ser esta a vingança do boneco ? Preciso duma garrafinha de água com gás.
Profecia #1
Façam copy & paste do que escrevo: E chegará o dia em que mandar um gajo ir blogar será pior que mandá-lo á merda!

sexta-feira, junho 27, 2003

- Estou inocente porque não fui eu que casei. Foi a minha irmã gemea!Icone 5.0
Podia dar um anime a atribulada vida sentimental da Sofia Alves, uma gaja que, segundo as revistas da especialidade, parece andar com outro, ou seja, parece ter finalmente encontrado mais um homem da sua vida. Há gajas (e gajos) com muita sorte! Muito boa rapariga há por aí que nem unzinho consegue encontrar, casando e parindo, já em quase inconfessado desespero, ao mínimo sinal de fumaça. E depois é episódio de telenovela atrás do outro e o suspiro continuo pelas cenas dos próximos capítulos que muito provavelmente nunca passarão disso.
Estava longe de pensar alguma vez escrever aqui sobre a Sofia, contemplá-la como ícone. Confesso que a pequena não entrava no meu ranking onde dou primazia a gajas mediáticas e belas (boas) sim, mas com um je ne sais quoi de divinal e um subtil look mais ou menos esfomeado. È uma palavra crua e algo rude, eu sei, mas acredite-se, a mais adequada para exemplificar o meu critério. Uma certa fome dá profundidade a uma mulher. E de pouco nutrida, a Sofia não tinha nada. Uma coisa eram aquelas personagens ousadas que a actriz muito bem interpretava, que levantavam as saias e mostravam os seios (Ballet Rose, certo ?). Mas era por uma óbvia boa causa, o seu ganha-pão artístico. Outra coisa eram as suas aparições publicas, a vida real, onde inalava aquela beleza encarnada duma Nossa Senhora, a espiritualidade duma Madre Teresa e a sensibilidade duma escrutinadora do totoloto. É bom de se ver, que a Sofia tinha aquele ar de amiga solteira da nossa mãe, daquelas que aparecem ao lado dela naquelas fotografias a preto e branco do já longínquo casamento. Aquele ar nada inspirador de boa rapariga que mesmo que não fosse casada, jamais se divorciaria ou apareceria desnudada numas quaisquer páginas centrais, a não ser, claro, também por uma óbvia boa causa.
E agora, numa clara manifestação de muito sangue na guelra, Sofia surpreende todo o universo consumidor da vida alheia, desde o mundo machista, à dona de casa que é a primeira a dizer que já se esperava, que nunca, deixava o meu marido e um filho bébé para ir para África, nem por todo o dinheiro do mundo (...) e a segunda a suspirar que nem pelo Diogo Infante que, ai, é um desperdício (!). Já te estão a apedrejar Sofia! Coragem, não te deixes acertar por estes arremessos de dor de cotovelo e inveja, e segue rumo à ilha da Caras mais próxima.
Anedota de elite #3
"Se um dia a pessoa que amas te trair e decidires atirar-te de cima de um prédio, lembra-te:
Tens um par de cornos, não de asas."
,in minha caixa de correio electrónico

feedback de elite #1
"O duro não é carregar com o peso dos cornos, o duro é... sustentar a vaca!"
,in minha caixa de correio electrónico

feedback de elite #2
Contrariando esta tese, "na Argentina, uma mulher traída resolveu atirar-se de cima de um prédio. Caiu em cima do marido adultero que faleceu ali mesmo. Ela, dada a qualidade do amortecedor, sobreviveu, e no hospital apaixonou-se por um enfermeiro. Casaram-se e são hoje muito felizes...." (suposta história verídica. pelo sim, pelo não, vivem hoje muito felizes mas num rés do chão esquerdo)
,in minha hora de almoço

quinta-feira, junho 26, 2003

Americlones
Uma infame colagem da intrigante treta MATRIXiana com a intragável treta bíblica, pode ser localizada em http://webpages.charter.nset/btakle/matrix_reloaded.html. Os americanos são especialistas em teorias da conspiração, em encontrar coincidências e ligações que mais ninguém no seu perfeito juízo encontra. Já terão reparado que na palavra Matrix, nenhuma letra se repete, começa por M e termina num X ? Isto deve significar alguma coisa...
Sósias em casa
Uma réplica perfeita dessa autêntica mata cabritos que é a conceituada e biguebrodarizada actriz Rita Ribeiro, pode ser localizada na saída da Rua da Escola Politécnica do metro Rato, lojinha das roupas sempre cheia de mulherio diverso. Nunca passei da montra mas as excursões até ao local são em autocarro de gran-turismo.
(Re) produções Fictícias
Reproduções das típicas piadas sobre os fait-divers que diariamente brotam espontaneamente entre colegas de escritório ou pessoal da estiva à hora do almoço ou durante o expediente, podem ser localizadas por volta das seis e meia da tarde em 87.5 (TSF). A coisa, que não está com nada mas lá se arrasta com o nome de “Estou quem fala”, é composta por um gajo e uma gaja que, desprovidos do necessário jeito que dava jeito, lêem os textos supostamente como se os estivessem a interpretar ao telefone. É a mais recente incursão radiofónica dessa trupe pseudo-genial e em toda a parte intocável, que vai buscar sempre o osso onde quer que ele se encontre.
Ideia para um final nem sempre feliz
... ela espera ansiosamente pela chegada dum meio de transporte qualquer, quando um desconhecido com aspecto de bom desconhecido lhe pergunta:
- “Desculpe, mas o que está a usar, não é Denim ?”
Ela desmaia nos seus braços e vivem assim para sempre.
Suportável
Entrar numa boca inexplorada que cheire mas não saiba a tabaco é suportável.
A trela
Uma mulher como algumas, caminha a passos largos em direcção a um largo qualquer. Calça uma espécie de sandália, projectando para a frente os dedos dos pés, que saem assim fora do alcance da sola em couro cerca de um centímetro, tocando carne com chão, no alcatrão, nas pedras da calçada, no cócó de cão e até na gravilha, consoante, porque para além do ziguezague que faz para se desviar dos automóveis mal estacionados, a rua, que é a descer, está em obras. Por incrível que pareça, ela não dá por isso, convencendo-se antes que alguém a persegue a passos curtos. Decide então parar e aguardar pacientemente que o perseguidor se aproxime, enquanto aproveita para medir com uma régua a medida atrás especulada, isto numa clara demonstração do quão pacientemente parece aguardar. É um cão, que passa por ela cheirando tudo e nem água vai nem água vem. Perplexa, a mulher agora com sede, abre o cantil que trás a tiracolo e coloca os lábios pintados no gargalo, começando a emitir sons que pelo eco denunciam um cantil vazio. Aproxima-se então dum homem que está agachado e se penteia no espelho lateral dum carro verde bem estacionado. Pergunta-lhe, com a voz ainda meio embargada da sede, que tipo de shampoo ele usa da seguinte maneira, o senhor desculpe mas julguei que estava a ser perseguida, sempre que isto acontece dirijo-me à primeira pessoa agachada que encontro e pergunto-lhe como faz para evitar a oleosidade no couro cabeludo. O homem levanta-se, sacode caspa dos joelhos e responde-lhe se entrar dentro deste carro verde eu confesso-lhe tudo. A mulher que queria a todo o custo obter uma resposta para a verdadeira questão que era porque andava sempre precisada duma boleia, entra, de imediato apercebendo-se que por dentro o carro verde é mesmo um carro verde só que com a pintura riscada. O homem senta-se a seu lado e pede-lhe com os olhos e as orelhas para ela lhe dar a mão, coisa que ela acede, tirando insidiosamente um dos anéis e uma das sandálias. Na sua mão o homem coloca-lhe uma trela de cão, colando-a com cola cuspe, espalhada uniformemente com uma língua desconhecida mas que não deixa marcas de batôn, ficando-se sem saber se houve esse cuidado. Por diversas vezes é-lhe pedido que ponha o dedo. Ela acede. Ela acede sempre. Pede-lhe a outra mão, desta vez só com os olhos. Ela acede. Ela acede sempre, mas não descalça a outra sandália porque há algo de inteligente naquela imagem reflectida no pequeno espelho de make-up. O homem descalça-se e toca com os seus dedos dos pés nos do pé descalço da mulher. Ela estranha que ele só lhe toque no pé descalço quando está o outro calçado mas também com os dedos expostos, e pergunta-lhe porque me pediu a outra mão ? Ele responde, julgava que fosse assim que gostasse. Ela volta a calçar-se e o homem visivelmente atrapalhado com aquela reacção inesperada, assobia, dando ao mesmo tempo à manivela. A porta do carro verde abre-se gradualmente e de repente a mulher é puxada violentamente para exterior indo agarrada atrás da trela. Desaparece da vista de toda a gente e não se ouve ladrar. Minutos depois surgia no local um outro homem, depois identificado como marido da mulher, que gritava desesperado se alguém vira por ali uma trela. Mais tarde, muito mais tarde, seria posto em liberdade.

quarta-feira, junho 25, 2003

In case you didn't know
"According to a major search engine the term penis en l a r g e m e n t was searched 154362 times last month. Sexual performance was searched 8092 times (...) SEE WHAT ENLARGO CAN OFFER YOU !!TODAY!!" in mail, spam.
C.E. Standard
As coisas começam a ficar seriamente preocupantes quando, na mais suburbana das tascas, os pires trazem caracóis, todos com o mesmo tamanho de tripa.
- Este não é o lado que me favorece mais...Alien update
Uma vez fiz 3000 quilómetros para ir tomar um copo ao Bar Giger no Chur, Suiça. O dia estava quente e apetecia-me algo fresco. Meti-me a caminho e isso fez de mim, automaticamente, um dos maiores fãs do homem que concebeu o monstro definitivo, a encarnação perfeita do medo. Recentemente entrei em contacto (mail) com o agente do Giger. Expus-lhe a minha ideia, possuir um original do artista, preferencialmente um quadro do tipo 'bio-mechanic landscape', aqueles que calculava seriam mais acessíveis. O agente respondeu-me informando-me que Giger já não pintava e estava inclusive apostado em recomprar muitos dos quadros que vendera, para agora “equipar” a colecção particular do seu museu. Ainda assim, se eu estivesse MESMO interessado, talvez me conseguisse algum quadro menos famoso junto de um coleccionador, mas que nunca me ficaria por menos de 5 ou 6 mil contos (!!) O pior não é não ter o dinheiro. O pior é não ter dinheiro e ter-se a certeza absolutíssima sobre o que se faria com ele se o tivéssemos...
Sou mesmo um fã, na verdadeira ascensão da palavra, do Giger, principalmente do Alien, criatura pela qual tenho um quase mórbido fascínio (há quem defenda que qualquer fascínio por aquilo só pode ser mórbido!). Como é natural sou consumidor da série de filmes, por ora, quatro obras primas do cinema fantástico, todos eles adjectiváveis mas todos quase impossíveis de ordenar por ordem de preferência. Cada filme parece ter tido o realizador e a história certa no momento certo. Ao contrário de outras sequelas, todos os filmes têm honrado o primeiro que por sua vez honrou a arte de Giger ao concretizar na tela, dessa forma tão palpável como só o cinema consegue, grande parte do universo perturbador do artista.
Esta minha lenga-lenga, serve apenas para anunciar ao pequeno mundo que me lê e que eventualmente, e porque terá mais que fazer, ande desapegado destas coisas, que o 5º filme está na forja. As filmagens podem começar ainda este ano. Sigourney Weaver não está dada como certa no filme, assim como não se sabe se a história se desenrolará no espaço, na terra ou no planeta nativo dos Aliens, hipótese mais interessante e defendida por Ridley Scott, o realizador do primeiro filme, que já mostrou interesse em participar no projecto desde que seja para acabar de vez com a série. James Cameron (realizador do 2º mas também desse monte de lixo irreciclável que é “Titanic”) poderá ser o argumentista e produtor, e Paul Anderson (Mortal Combat, Event Horizon, Resident Evil) o realizador de serviço fortemente apontado caso a opção do 5º filme seja concretizar a cantiga “Aliens vs. Predator”, receita já experimentada com sucesso nos video-jogos e na BD. O competente Joss Weddon (escritor do 4º filme) é um dos prováveis guionistas também.
Melhor que a Lusa!

terça-feira, junho 24, 2003

A união faz a forca- Uff! Finalmente um sítio à maneira para atar uma corda e... estender a roupa!
Se há coisa que não suporto é o concenso. Encerra em si um perigo qualquer, algo de inexplicavelmente desconfortável. Não tanto do tipo "pedra no sapato" ou "unha encravada" mas mais "comichão no toutiço". Naturalmente haverá um termo clinico para este meu sintoma. Ocorre-me a imagem dum imenso marasmo de pessoas obedientes e concordantes, maiorias que não são mais que rebanhos de carneiros anónimos, ordeiros, comandados por um pastor por sua vez caseiro dum patrão qualquer... Lembram-se do genérico do "Tal Canal" ? "Méeee! Mééé!"... Meia duzia de focas amestradas que batessem palmas sempre que aparecesse uma bola por perto também servia. "Clap! Clap!"
Não é nada recomendável ser-se chato mas ser-se do ‘contra’ nunca fez mal a ninguém. Não ver o que toda a gente vê, não ler, não bater palmas àquilo a que todos aplaudem, não estar onde está toda a gente está, enfim, não fazer orgulhosamente parte da maralha.
Há que ter sérias reservas sobre as tendências dessa maioria unida que brame, gente que não é de confiança. Não se notam os seus nefastos efeitos colaterais por toda a parte ?
Há que pensar pela própria cabecinha. Dá trabalho, e oh meu senhores, que trabalheira! Por isso a união faz a forca ao indivíduo, oferecendo-lhe uma suave morte cerebral, a anestesia do pensamento. Poupa-lhe o labor, mas tira-lhe essa incómoda diversidade, bem cada vez mais prescindível para a maioria, só preservado e apreciado com o requinte de alguns...

sexta-feira, junho 20, 2003

Bucho
Acabei de atravessar o largo do rato com o sinal vermelho, três bejecas, um croquete, um pastelinho de camarão e uma quantidade indeterminada de tremoços no bucho. Não tente fazer isto em sua casa.
Novo endereço
www.especiequalquer.blogspot.com.
Bacalhau inútil Venha de lá esse escamudo!
Por mais que me esforce, não me consigo imaginar na pele daquele gajo e descortinar o que passará naquela cabecinha. Passo a explicar, que por força da minha actividade profissional, desloco-me frequentemente a certo local que viu reforçada a sua segurança à entrada com mais um elemento. Segurança privada, típico, um gajo que curiosamente já fizera segurança no edifício onde trabalho, velho reconhecido. Ditaram então ordens superiores, que cada pessoa que ali entrasse, fosse quem fosse presumo, teria a partir de então de mostrar a sua identificação. Compreende-se, porque é local de muita devassa, muito turista perdido ali espreita porque aquilo por fora tem ar de casa apalaçada, museu, monumento nacional pela certa. Outra gente ali vai, entre eu e muitos outros anónimos ou não, por razões que desconhecerei ou que não serão para aqui chamadas. Mas eu sou habitué, assim como sou já conhecido do segurança, um gajo que impõe respeito, correctíssimo e com uma peculiaridades na linguagem e no trato que não passarão despercebidas ao utente do local. Há sempre uma troca de bacalhaus à entrada e um até breve à saída sem que isto signifique um tu lá e um tu cá que é compreensível não existir: “Como está... Cumprimentos lá ao senhor fulano.... E o senhor beltrano nunca mais o vi por aqui... Hoje está muito calor...” Logicamente, seria de supor, sendo eu pessoa conhecida já se vê, que o segurança, tendo eu dado prova mais do que uma vez da minha identificação, não me voltasse a pedir a mesma. Mas não, o homem, cumpridor escrupuloso das suas funções, não se duvide, lá me questiona, barrando-me discretamente a entrada. E não é preciso dizer nada que eu já sei. Bacalhau (se calhar é mais escamudo=peixe parecido mas que não é bacalhau, e que por vezes é vendido em alguns supermercados como sendo) e vai-se procurar a identificação na carteira. Há que fazer prova da identidade. “É assim que tem que ser e ordens são ordens e eles mandam e nós cumprimos”. Mas porquê ??!! Porquê ritual inútil e repetitivo ? Eu não sou da casa mas é quase como que fosse. O gajo não se lembra de mim ? Estive ali ontem. Ou é como o outro do “Memento” cuja memória, o conhecimento e a lembrança de pessoas e locais não ia além dos últimos quinze minutos ? Não compreendo este excesso de zelo, o que vai naquela cabecinha. É suposto pôr-mo-nos na pele dos outros para tentar compreender as suas motivações e as causas para determinadas atitudes. Exercício no qual julgo ter alguma habilidade. Mas neste caso, que começo a julgar perdido, não consigo. Em conversa com outros colegas, todos são alvo daquele mesmo zelo e quase todos já sentiram o horror de ali terem chegado um dia esquecidos da identificação: “hoje passa mas da próxima vez...!”. Alguns que até têm inclusive confiança com o gajo segurança ao ponto de discutirem sobre bola, carros, bola e carros (!) A inutilidade é coisa que emprega muita gente neste país. Acredito que deve haver funcionários públicos em Ministérios cuja tarefa será simplesmente estarem sentadinhos junto às portas levantando-se para as abrir e fechar à passagem dos senhores da casa. E o pior é o excesso de zelo na inutilidade e na autoridade do qual é exemplo cómico aquele segurança.
Quando entro no Blogger, ele reconhece-me. Inseri uma vez a password, identifiquei-me uma vez e a máquina desde então nunca mais me pediu identificação. E nunca lhe dei um bacalhau...

terça-feira, junho 17, 2003

New Feature!
Longe de nos propiciar qualquer tipo de exaltação, presenciar a 'morte' dum blog cria em nós uma sensação qualquer assim do tipo “eles vão-se mas nós ficamos”... Nós, os que continuamos ou os que resistimos.
A única coisa boa num funeral, principalmente quando não é o nosso, é encontramos sempre amigos que já não víamos há muito tempo. Não se tratando aqui de qualquer enterro, ficamos no entanto com a sensação de não mais encontrarmos estas espécie de amigos que nunca vimos.
Crio uma nova secção de links - R.I.P. (rest in peace, trad: “Resolveram Ir Parar”) - , com endereços de blogs que por um motivo qualquer ou por que lhes deu na veneta, bloquearam, pararam, ficaram-se durante a vigência deste meu mandato. Todos eles, merecedores duma ressuscitação isenta de milagre, que não passem de breves e suaves hibernações.

- Estou a ficar febril
- Sim nota-se na tua cara que estás
- Com vontade de ir embora
- Tenho tanto para fazer
- O médico passa-te um atestado
- De certeza
- Isto é algum dente
- Tem que se arranjar
- Uma tanga não é
- Não se nota o vermelho
- Isso passa, dura pouco
- O efeito do Prozac

segunda-feira, junho 16, 2003

Lábiatomia (reloaded:18.06.2003)
No Sábado estive a ver televisão até tarde, passava da meia noite. Vi o rosa choque, um programa que serve para demonstrar o quão medíocres conseguem ser gajas supostamente respeitáveis como Julia Pinheiro naquele seu esforço ingloriamente histérico de dar nas vistas/cameras, Margarida Rebelo Pinto, versão gaja que não parece mas vende livros como o caraças, ou quão espertalhona e impossível de aturar deve ser a Teresa Guilherme quando alguém lhe diz “passas-me o sal ?”. Programa didáctico como se vê. Reparo que estou para aqui a dizer mal de pessoas que não conheço pessoalmente, numa maledicência quase como se fosse nas costas delas, sem hipótese de se defenderem. (Nunca percebi esta expressão do “falar nas costas” (!). Se alguém me falar nas costas, só se for surdo não vou ouvir! Mesmo que falem muito baixinho, os sussurros ou os beijos na boca serão audíveis. Proponho a expressão “falar longe das costas”) Mas ao mesmo tempo estou a promover de borla o programa, simplesmente por estar a falar dele. Vou agora parar uns segundos para tentar arranjar mais um subterfúgio qualquer que legitime esta minha pouco recomendável atitude e esclarecer-me... Arranjei. As gajas que se expõem daquela maneira estão mesmo a pedi-las! Dê-me um sinal de televisão e lutarei com as mesmas armas, ou que venham elas sem betume na cara e dir-lhes-ei frente-a-frente o mesmo que escrevo. Paciência, é um risco que corre todo o bicho careta que aparece na televisão, local que, como diz muito bem a fabulosa Madonna, “só é bom se for para aparecermos nele”. Nem tudo podem ser rosas!
Esclareço-me desde já que o que me agarrou ao televisor não foi aquele gajedo e que tal acontecimento, raro, não significou de maneira nenhuma um sintoma duma qualquer tele-dependência latente e inconfessada. De facto vejo tão poucas vezes televisão que cada vez que a ligo, vou sempre espreitar atrás a ver se lá estão as pessoas que aparecem no écran.
E como é natural, não me fui pôr á frente do televisor à espera dos sketchs patéticos do rosa choque ou captar esse momento sublime que seria ver a Teresa Guilherme de boca fechada. Não, como pessoa decente e altamente recomendável que sou, acabara de ver o “Lugar da História” do Canal 2, documentário sobre os sodomitas Espartanos, quando fiz um zappingzinho inocente daqueles tipo “não me apetece ainda ir já para a cama, deixa cá ver se está a passar alguma telenovela erótica venezuelana”. O Herman era o convidado. Não bastaria, mas o desenrolar dos acontecimentos, aquele visível fosso cultural, intelectual, a riqueza interior entre o convidado e as gajas, aquele escandaloso contraste manteve-me acordado mesmo depois de ver a Julia Pinheiro descascar um pepino, momento crítico da noite. A fulana agarrava no pepino como se tivesse a agarrar numa faca e vice-versa. A custo lá descascou a faca, perdão, o pepino, mas da forma fálica do mesmo e muito dada a piropos, que diga-se de passagem, não se verificaram ‘against all odds’, restou uma forma paralelipipeda tipo construção Lego, sem restea de casca, obviamente. Lá explicou o humorista acossado que umas tirazinhas de casca eram necessárias porque continham umas enzimas que facilitariam a digestão. E foi este pequeno instante crítico, que me fez pensar sobre o que é afinal preciso uma gaja ter para aparecer na televisão... Saber descascar vegetais não é certamente. O tempo das cunhas já lá vai e só é válido para empregos burocráticos que ninguém quer. De aptidões técnicas, intelectuais ou físicas estamos falados... Ora, o que é preciso ? L-Á-B-I-A. O lábio pode fazer muito pela carreira de qualquer gaja, mas a lábia é a chave mestra que permite abrir todas a portas e escalar para o topo das audiências. Enquanto nós gajos utilizamo-la para fins pacíficos, como seja sacar o número de telemóvel da repositora apetecível dos presuntos pata negra no hiper, elas utilizam-na para se armarem em boas na televisão e ainda ganharem dinheiro com isso. Rapidamente entram num circulo vicioso, televisão, dinheiro, operação plástica, televisão, dinheiro, operação plástica, com muita roupinha de marca, sessões de massagem e pedicure, e anúncios para instituições de caridade pelo meio. De gajas absolutamente normais ou até a roçar o fatela mas com lábia, passam a gajas visivelmente suportáveis e hipoteticamente comestíveis com muita lábia.
No próximo Sábado, segunda parte do documentário sobre a cidade estado de Esparta.

Ps: Aparece também no Rosa Choque um fulanito inútil que, ao que parece, disse uma vez que se não fizesse televisão matava-se. Compreendamos o desespero. Afinal, a vida não está cá fora, está lá dentro... Esta espécie de auto lobotomia pode causar este tipo de delírio que depois resulta muito bem na televisão made by teresa guilherme.

quinta-feira, junho 12, 2003

Fora do penico
A minha maior lacuna não é não ser capaz de apreciar um bom vinho ou nunca ter ido assistir a um jogo do Benfica ao vivo. Muito menos é nunca ter estado em Novaiorque, Queluz ou no quarto da Monica Bellucci. A minha maior lacuna é não ser uma besta. E que jeito me dava. Não se confunda com a reconhecida e mui vulgar besta quadrada, versão torpe, um erro genético. Antes uma besta, simplesmente, mas com a mesma sensibilidade, bom gosto e sentido de estado que tenho. Mas infelizmente não sou... Na tropa, quando formava o pelotão, ficava para lá do meio, do lado do pessoal com menos caparro que é desta forma que se ordena o pelotão. A questão do caparro não quer dizer nada. Mas os olhos também têm medo, e a primeira impressão, a impressão do arcaboiço é a imagem de marca de qualquer besta que se preze. De longe ser eu uma besta. A minha sombra desde sempre me pareceu ridícula, principalmente quando ao sol de fim de tarde.
Sim, se eu fosse uma besta, a humanidade só tinha a ganhar. Não havia estúpido nas redondezas que já não tivesse levado no focinho ou nas trombas e aprendido com a sua própria estupidez e os meus próprios metatarsos. Consequentemente, familiares e amigos, vizinhos e inimigos dos estúpidos só tinham a ganhar com a humanização do animal. Não duvido que muitos passariam a ser bons país, melhores maridos e verdadeiros amigos do seu amigo depois de levarem nos cornos. Quiçá me ultrapassariam em virtudes e muitos depois pagar-me-iam umas bejecas tentado convencer-me a revelar-lhes o segredo da minha bestialidade. Coisa que teria sempre todo o gosto em revelar, se truque ou sabedoria fosse, assim houvessem tremoços a acompanhar a fartura da cerveja.
Hoje, por exemplo, aconteceram-me duas situações onde, só eu sei quanto, me trucidei interiormente por não ser bruto que nem uma besta. Logo ao começar do dia, pacatamente no meu automóvel, à entrada da ponte, naquela zona onde por milagre as três faixas passam a uma, isto depois de 6 terem passado a três e assim sucessivamente desde as portagens, dizia que, respeitando escrupulosamente a regra da alternância democrática, ou seja, passa agora um desta faixa, passa outro da outra e depois da outra e volta à primeira, um animal pôs-se a apitar. Só porque ia 10 cm à minha frente, julgava-se ter o direito de entrar imediatamente atrás do gajo que ia à sua frente na mesma faixa e que acabara de entrar. Obviamente que parei, baixei o vidro, sorri e... E depois lembrei-me que não era uma besta e não poderia fazer o favor que os olhos da miúda que ia com o animal me pediam: agarrar-lhe pelos colarinhos, atar-lhe a gravata ao para-choques e dár-lhe um carolo na mona (uma besta sem sempre precisa ser bruta; basta-lhe por vezes subtilmente causar a humilhação, coisa que muitas vezes é remédio santo e inesquecível). Claro que não podia fazê-lo. Sujeitava-me a levar eu no rosto, na cara. A razão dá-nos muita força, é certo, mas é mais força moral que força de braço, murro e pontapé.
Mas o pior ainda estava para acontecer. E quanto fervi interiormente, que conflito enorme entre esta minha condição de gajo desarcaboiçado e espírito rufia. Ao virar da esquina, dou com um cão a cagar em cima da nossa preciosa calçada portuguesa, e o dono, trelinha na mão, à espera, pacientemente à espera que se consumasse o atentado. O que é que um gajo pode fazer numa situação destas ? Em primeiro lugar, claro está, ter o cuidado de não pisar a merda, e em segundo conter-se ao máximo para não ir ao focinho do dono da trelinha. Neste caso, não só correria o risco de levar no rosto, como ainda levar uma dentada daquela amostra de cão que no entanto cagava como os grandes. A uma verdadeira besta bastaria ter arregalado os olhos para pôr imediatamente o dono a fazer o mesmo que o canídeo fazia. E caso o gajo se armasse em tótó e não fizesse continência, se se fizesse despercebido, trocava de cachaço à trela, e punha-o de gatas a fazer um castelinho na calçada e depois obrigava-o a trasladá-lo com o máximo dos cuidados para não desmanchar as ameias, para o caixote do lixo mais próximo. Uma verdadeira besta é assim, justa, implacável, imponente, e ninguém na sua presença pia, mia, rosna ou caga fora do penico.
Vou agora para o ginásio dar-lhe com força.